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ME APAIXONEI POR OUTRO CARA


        Tudo poderia ser tão simples, se eu quisesse. Era só sentar na frente do Pedrinho e dizer: Desculpe, mas estou apaixonada por outro cara. Vou fazer minha trouxa e ir para a casa do meu novo amor. Ah, vou levar também o notebook. Não posso ficar sem ele. O resto é seu. Não quero nem o carro e nem o apê. Pode ficar com tudo.
  Mas a ansiedade que me tomava o peito era tão grande que eu sabia que mal poderia articular as palavras quando o Pedrinho chegasse. Ele já estava desconfiado. Liguei para o serviço dele dizendo que tínhamos que conversar. Notei, pela sua voz, que não precisaria mais que um olhar para que Pedrinho soubesse que seus dias comigo haviam terminado. Dias que foram felizes e que terminaram na bendita – ou maldita – hora que cravei meus olhos no Fernando. Aí, enlouqueci. Nunca mais fui a mesma. Fiquei sem chão, sem razão, sem noção. Não queria perder a sanidade por causa de um homem. Mas perdi.
Quando o Pedrinho chegou em casa, encontrou-me arriada no sofá, com duas malas em volta. Eu já havia chorado todas as minhas lágrimas, mas meu rosto deveria estar horrível. Pedrinho sentou em uma cadeira e me olhou. Esperei que dissesse algo, mas ele ficou mudo, somente me encarando. Então, respirei fundo e declarei, com a voz rouca:
- Me apaixonei por outro cara.
Silêncio. Pedrinho continuou me encarando, calmamente. Muito calmo. Pensei “ele vai me matar”. Continuei:
- E eu vou embora.
Então Pedrinho respondeu:
- Tudo bem.
Devo ter piscado umas duas vezes, de pura surpresa.
- Como assim tudo bem? Tudo bem?! Eu me apaixono por outro cara, faço minhas malas, estou de partida para a casa dele e você diz que está tudo bem?
- E você quer que eu faça o quê? Que tranque a porta de casa para que você fique comigo? Não, minha querida. Pode ir. Não vou implorar que você me ame o resto da sua vida.
Fiquei ofendida. Não tão ofendida, como quase me sentindo rejeitada.
- Você tem outra mulher?
- Eu? Quem é você para me perguntar se eu tenho outra mulher depois de todas as suas escapadas nos últimos seis meses?
- Ah… você percebia?
Era um diálogo surreal.
- Claro.
- E por que nunca fez nada para impedir?
- Porque para mim tanto fazia.
Aquelas palavras foram como uma facada no meu coração. O Pedrinho já não estava nem aí para mim a mais tempo do que eu pensava. Talvez muito antes de eu conhecer o Fernando. Eu que temia não ferir o Pedrinho, agora me encontrava seriamente ferida pelo pouco caso dele com a minha partida.
Percebendo o impacto que as suas declarações causaram em mim, ele tentou contemporizar:
- Olha, não quer dizer que eu estou feliz com tudo isto. Mas é que nosso relacionamento já havia ido para o espaço há muito tempo. Acho que você custou a perceber isto e tenho que agradecer a este homem que apareceu na sua vida por ter ajudado você a abrir os olhos. Só desejo que você seja muito feliz. Ah, e pode levar o notebook também.
- Eu… eu pretendia levá-lo mesmo – respondi, atônita.
Levantei e peguei as malas. Ajeitei o notebook dentro da mochila e fui caminhando devagarzinho até a porta, ainda pensando nas coisas que aquele idiota havia me dito. Mas antes de sair de vez de lá, eu me virei e perguntei:
- Afinal, você está saindo com outra também?
Ele suspirou como se estivesse de saco cheio daquele assunto, da situação e de mim, tudo junto. Respondeu:
- Sim.
- Quem?
- A Val.
- Que Val?
- Aquela loira do 3° andar.
- A vagabunda?
- Esta mesma.
- Adeus, Pedrinho.
Saí batendo a porta com força. Cruzes, eu estava sendo trocada pela maior vagabunda dos arredores, com uma fama de dar inveja. Estes homens são mesmos uns trouxas.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 23/07/2006
Código do texto: T200083
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37847 leituras)
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Patrícia da Fonseca