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                       O Ludovico


        Entre as fazendas dos meus avós, as que me trazem recordações agradáveis são o Chamurro, na Serra, com seu engenho, o Baixio do Boi, com o plantio de amendoim e o Ludovico.Com o Ludovico, porém, a ligação foi mais intensa e indissolúvel. O sentimento que tenho por ele, é semelhante ao que se dedica ao primeiro amor. Mesmo que ele se vá, que a outra pessoa pertença, jamais deixará de fazer parte da nossa vida.

        Voltando à minha infância, transportando-me mentalmente no tempo, até aquele local querido, percorro, como se folheasse um álbum antigo, todos os recantos por onde andei e brinquei, e tudo tem uma história, um valor sentimental. Aqui a cancela da entrada, ali o pé de umbu de vovô Chiquinho; do outro lado, o alto, onde morava a “cobra de veado encantada”, que descia para a Lagoa, quando esta transbordava inundando o baixio; mais adiante, estava a mata virgem com suas resinas comestíveis, e ao lado do açudinho, a mata dos jatobás... As pedras, os animais, o carro de boi, o Grupo Escolar, a cacimba do recanto, a casa grande, os currais... tudo faz parte da minha vida. Meu Deus! Se eles falassem, contariam a minha história.

        Era sempre um momento de alegria, quando meu tio Euclides pedia à mamãe permissão para minha ida ao Ludovico. Na garupa do cavalo, abraçada à sua cintura, para proteger-me, íamos pela vereda lateral à rodagem, enquanto eu observava a paisagem.

        No percurso, da cancela na entrada do terreno, onde ficava a bodega do “Sr. Zé Barro”, até a casa grande, passávamos em frente à morada dos “Escobar” e de “Compadre João e Sa Rosa”, moradores com quem mantínhamos um relacionamento familiar.Antes da casa, atravessávamos uma “matinha” de matapasto, onde eu costumava brincar colhendo vagens, para debulhá-las simulando ser o feijão para a alimentação das bonecas. Finalmente estávamos em casa, onde eu poderia desfrutar da amizade de tia Cecília, dos meus primos e dos amigos, que sempre se faziam presentes.

      Após o delicioso almoço nós dávamos início à brincadeira de casinha, no estrado do carro de boi, à sombra do pé de fícus-benjamim.

         Durante o tempo em que ali permanecia, cada dia, brincávamos num local diferente. Um dia, atrás do paiol do milho, outro dia à calçada do Grupo Escolar ou no oitão da casa. Era emocionante brincar de casinha, nas moitas que pareciam choupanas. Os pés de “melão de São Caetano” e outras ramagens se alastravam sobre os galhos e garranchos secos de árvores, nos dando sombra e proteção. Limpávamos o chão com vassouras feitas de mato seco, montávamos a casinha com paus, pedras, sabugos e melões, e começava a imaginação fértil: éramos os personagens dos castelos encantados, das histórias de príncipes e princesas, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho ou A Bela e a fera.

        Costumávamos ir aos umbuzeiros, colher os deliciosos frutos. Ali mesmo saboreávamos alguns, levando em seguida uma boa quantidade deles, para ser feita a gostosa umbuzada, que seria servida como lanche da tarde. Colhíamos também jatobás. Atirávamos pedras ou rebolos de pau, às vezes sem nenhuma pontaria, contra os frutos de casca dura cor de chocolate, que iam cair à grande distância. Na mesma mata, colhíamos também maracujás e ameixas silvestres.

        Muito divertido, era colher feijão e milho verde, para serem consumidos fresquinhos. O milho podia ser comido assado na brasa, cozido, em forma de canjica, pamonha ou bolo. O feijão, era comido cozinhado com maxixe e jerimum, ou, no “baião de dois” com nata, queijo e pequi. Que delicia! Deliciosos também, eram os doces de leite, banana, goiaba e gergelim; fabricados por tia Cecília e Zefa Nicácio. Elas faziam também queijos e manteiga.

        À noite, sentados à calçada, ouvíamos curiosos, histórias bíblicas, contadas por tio Euclides; brincávamos de roda ou de estátua e depois rezávamos o terço, antes de ir dormir.

        Cedinho estávamos no curral para a ordenha das vacas e ovelhas leiteiras. Muitas vezes, tomávamos o leite mugido, bem quentinho, cheio de espuma.Era interessante observar a comunicação entre o vaqueiro “Seu Du” e o gado. Ele chamava cada vaca, bezerro, touro ou boi, por seu próprio nome e eles atendiam-no prontamente. Falavam a mesma língua, entendiam-se bem. Assim era também com as ovelhas. Com que amor elas eram cuidadas! Especialmente os carneirinhos enjeitados. Eles eram trazidos para casa, e como bebês, alimentados com mamadeiras. Cresciam mansinhos e muito apegados às pessoas da família.

        Não contentes, com tanto espaço e opções para as brincadeiras, nós subíamos ao sótão, onde estava armazenado o arroz para o consumo anual a fim de brincar.
Na época das festas dos povoados; Esperança e Conceição, nós íamos às novenas nas estradas iluminadas pela lua.

       Era costume da família, visitar a noite, de vez em quando, o vizinho e amigo “Seu Zezé Furtado”.

       Terminadas as férias, eu voltava para casa, já sonhando com a próxima oportunidade de retornar ao Ludovico.

       O Ludovico e eu já não somos os mesmos... o tempo passou e nós mudamos muito... mas o amor que nos une é imutável.

        Ali viveram meus antepassados. Ele é testemunha da luta pela vida, de várias gerações dos que fizeram e fazem a família Inácio  Basílio.


marineusa
Enviado por marineusa em 24/07/2006
Reeditado em 16/12/2006
Código do texto: T200940

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Sobre a autora
marineusa
Brejo Santo - Ceará - Brasil, 71 anos
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