Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Quem espera sempre alcança - Capítulo IX

     Era tempo chuvoso. Já chovia há três dias. O telefone tocou. Eu atendi.

     - Alô!

     - Alô, é da casa do Sr. Olegário Salomé? - dizia a voz muito aflita do outro lado da linha.

     - Sim, é a filha dele quem está falando...

     - Cidinha, aqui é do hospital, seu pai sofreu um acidente e está passando muito mal.

     Desliguei o telefone. Providenciei chamar mamãe que estava em uma cidade vizinha numa de suas constantes visitas às creches, e corri para o hospital.

     Cheguei lá muito nervosa e um enfermeiro contou como foi o acidente.

     Nas fazendas mais distantes ele ia de avião, nas mais próximas ele ia de caminhonete e gostava de dirigir. Ele vinha de volta e ao passar numa ponte de madeira, ela desabou jogando o carro dentro do rio. Papai chegou ainda com vida ao hospital, mas as esperanças eram poucas. Coitado do Tadeu, seu empregado predileto, morreu na hora.

     Papai já estava há três horas na sala de cirurgia. Mamãe chegou apavoradíssima e teve que tomar calmante.

     Mamãe não agüentou e ficou internada, eu fui em casa só dar uma olhadinha em Rogéria e voltei novamente para o hospital. Deixei Rogéria enjoadinha, chorando muito, parecia estar adoentada.

     Estava na sala de espera ansiosa para receber notícias de papai, quando chegou uma enfermeira:

     - Cidinha, telefone para você.

     Era Laura dizendo que Rogéria estava ardendo em febre.

     Pedi à Dra. Eudes, sua pediatra, que desse uma verificada para mim, pois não podia me ausentar do hospital porque meu pai estava prestes a sair da sala de cirurgia.

     Ela foi lá na minha casa e voltou para me tranqüilizar.

     - Era só uma irritaçãozinha nas amigdalas, Cidinha, já dei um antitérmico e uma dose de antiinflamatório, logo ela estará boa.

     O médico veio me avisar que papai já havia voltado da sala de cirurgia, mas estava na Unidade de Terapia Intensiva.

     - Cidinha, sinto muito lhe dizer isto, mas as chances do seu pai são mínimas, mesmo que ele sobreviver irá ficar deficiente e não andará mais...

     Eu recebi a notícia com lágrimas, mas pedia a Deus que ele sobrevivesse, mesmo ficando paraplégico.

     Não voltei mais em casa. Fiquei de plantão no hospital esperando que papai voltasse a consciência e pudesse me receber.

     Mamãe estava melhor e ficou do meu lado.

     Uma enfermeira se aproximou:

     - Cidinha! Seu pai está acordando e chama por você.

     Meu coração bateu forte, minhas mãos ficaram geladas. Fui correndo para a U.T.I, com mamãe.

     Antes de entrarmos, os enfermeiros deu-nos roupas especiais para podermos entrar.

     Chegamos junto a papai, que estava irreconhecível, havia machucado todo o rosto e tinha aparelhos ligados por todo o corpo.

     Mamãe começou a chorar alto e eu tentei controlá-la:

     - Calma, mamãe, por favor! Papai não pode se emocionar...

     E ele me chamou:

     - Cidi... Cidinha, minha fi... filha! - falou com muita dificuldade. Eu me aproximei e segurei-lhe a mão.

     - Não diga nada agora, papai. Depois o senhor fala. - falei me segurando para não chorar ali perto dele.

     - Eu... tenho de dizer ago... agora. Não vai ... ha... haver de... depois...

     Eu segurava-lhe a mão, apertando-a ao meu peito.

     - Minha fi... filha, eu fui muito... rude... com você.Mas eu... já havia me... arrepen... arrependido... Eu havia man... mandado cha... chamar Ro... Rogério. Ele virá... eu que... quero que... vocês fi... quem ju... juntos e criem... sua fi... filhi... filhinha...

     - Pare! Pare papai, o senhor não pode falar assim! - falei chorando.

     Veio um enfermeiro, tirou eu e mamãe da U.T.I e deu-lhe uma enjeção para dormir.

     Saí daquela sala com a cabeça a mil. Não sabia se papai havia dito aquilo em delírio ou se era mesmo o que ele estava pensando.

     Deixei mamãe no hospital e fui procurar Conceição a secretária particular de papai. O que mamãe sabia, ela sabia também, não perguntei mamãe por estar muito nervosa.

     Cheguei e falei com Conceição, ela me respondeu:

     - Sabe, Cidinha, seu pai estava ficando doente, ele havia mandado um detetive procurar Rogério em Brasília, há três meses e não conseguiu nada. Então ele mandou procurá-lo igual se procura uma agulha na praia e o encontrou em um hospital...

     - Hospital!? - interrompi Conceição com um grito.

     - Calma, Cidinha, não é o que você está pensando. Quando ele esteve preso, aqui em Santo Ângelo, ele adquiriu um reumatismo na perna e de vez em quando tem que ficar internado para fazer tratamento. Seu pai mandou sondá-lo para saber se ele te queria. Ao primeiro contato, ele c

horou muito e disse que era a coisa que ele mais queria na vida. Então ficou tudo certo para assim que ele saisse do hospital, retornasse para cá. Por ironia do destino, seu pai foi acidentado antes. Na semana passada mandei o dinheiro para que ele viesse o mais rápido possível. Seu pai estava lhe preparando uma bonita surpresa. - falou Conceição com tristeza.

     Aquele encontro com Conceição me deixou um tanto quanto deprimida, eu não sabia se ficava alegre ou triste. Uma tristeza me envadia pelo estado de papai e ao mesmo tempo, a alegria do reencontro com Rogério.

     Aquele dia eu passei angustiada, não pensava que algum dia papai pudesse me perdoar e muito menos provocar o meu reencontro com Rogério. Não sabia como seria, o que iria sentir.
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 25/07/2006
Código do texto: T201687
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4029 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 18:18)