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A SAGA DE UM ADVOGADO

I

Existem lugares predestinados onde a sorte parece reservar um papel especial na vida das pessoas, onde a tragédia acumula dores materiais e morais e que nem o tempo, este formidável analgésico que adormece todas as dores , consegue apagar da lembrança.

Assim é Córrego Seco, pequeno lugarejo encravado ás margens da BR 001, cuja feliz população atinge hoje cerca de mil habitantes.

Mas, na época em que começa esta narrativa, precisamente no ano de 1993, não contava com mais de quatrocentos. Pequenos agricultores que labutavam diuturnamente, sob a inclemência da natureza, buscando o sustento de suas famílias.

Gente humilde, trabalhadora, acostumada às lides do campo e que aos domingos tinha como lazer o jogo de bocha pela manhã e o futebol de várzea à tarde. Esta era a rotina naquele pacato e acolhedor lugarejo.

A noite já abraçara o belo entardecer daquele domingo em Córrego Seco. O céu estrelado e os raios do luar que, como soe acontecer nas noites no campo, dava ao pequeno lugarejo aquele aspecto inusitado de mundo feliz.  Pairava no ar aquela magia que somente a paz, a segurança e a fraternidade conseguem despertar o sentimento do bem, latente em todo ser humano.

Em pequenos grupos, por vezes casais ou mesmo solitários camponeses, caminhavam pelo acostamento da BR em direção a Igreja do povoado onde, por volta das 19,00 horas, começaria o culto evangélico.

Mais separado dos outros caminhava sozinho um moço de excelente porte físico, pele clara, amorenada pela faina diária sob o sol;  olhos azuis, vasta cabeleira cor de ouro,  meio que desleixada, emprestava-lhe um aspecto que fazia lembrar os antigo nórdicos. Um guerreiro Viking moderno.  Embora rude, tinha a altivez de um patrício romano e o orgulho da consciência tranqüila pelo trabalho honesto que realizava.  Ia, pensativo, também em direção ao templo religioso.

Esse personagem, ator principal dessa peça que a vida ainda encena,  era Menelau dos Santos, jovem morador da região, dono de um pequeno sítio com cerca de meio alqueire de terra, onde cuidava de seus pais já envelhecidos e de mais quatro irmãos, sendo que três deles com problemas mentais.

Cuidava praticamente de tudo sozinho. Das pequenas plantações de hortaliças e das três vacas leiteiras e mais cinco novilhas que pastavam pelas redondezas de sua casa.

Não se casara, ainda, embora não faltassem moçoilas que suspirassem pelo jovem lavrador. Nos seus 32 anos de idade ainda não se dispusera a realizar seu sonho de constituir uma família, mesmo porque o destino já lhe confiara uma, e à qual, por um dever de consciência e formação moral, não poderia relegar a plano secundário.

 E assim, dia após dia, numa constante rotina de sol a sol, vivia Menelau tão somente para cuidar de sua vida, da vida no campo e oferecer o sustento aos seus pais  e aos irmãos deficientes. Era feliz a seu modo porque trazia dentro da alma aquela vontade de buscar a felicidade no mundo, felicidade esta que se traduz na esperança de progredir  sempre e sempre, desejo inato que habita em todos os homens de bem.


Mas, como pregou Santo Agostinho:  “ o mundo tem laços cheios de verdadeira aspereza e de falsa doçura, dores certas, alegrias incertas, um trabalho rude, um repouso inquieto, coisas cheias de miséria e uma esperança vazia de felicidade”

II

O portentoso ônibus, que fazia um longo  percurso interestadual, apontara  no final da curva qual bólido metálico deixando para trás a poeira dos gazes que contribuíam para poluir um pouco aquelas paragens de ares puros e saudáveis. Verdadeiro gigante, qual Gulliver adentrando na terra de Liliputti, tomou por inteira a estreita estrada que fazia às vezes de avenida da pequena localidade e invadiu o acostamento que, ali, poderia ser comparado a uma calçada.

Um barulho surdo apenas. Sem qualquer “cantada” de pneus no asfalto. Um choque tenebroso, um corpo a subir e a descer estatelando-se no asfalto negro, sob os olhares atônitos de poucos que caminhavam do outro lado da margem da BR.

Um minuto, um segundo  e a vida humana dá uma guinada de 360 graus. Seria o destino que já nos vem traçado antes do berço? Que poder irresistível será esse, cuja mão  alcança, sem qualquer aviso, a felicidade do ser humano e  a transforma num inferno dantesco? Será, talvez, o acaso que  coloca a humanidade à mercê da sorte, ao sabor das imprevisões e fatalidades?

Quantas indagações são feitas, intimamente, com o passar dos anos... Por que tanta empáfia, tanta arrogância, tanto desprezo pelo semelhante por tantos que detém o poder? Por que, se a vida nada vale e a distância entre ela e a morte é de segundos? Aquela nada mais é do que uma complicada equação formada de dias, meses, anos, mas que pode ser facilmente resolvida, por esta, num milésimo de segundo.

O bólido seguira seu destino e Menelau iniciava o dele, estendido à beira da estrada semimorto.

Naquela noite não haveria culto na igreja. O povoado regurgitava de gente ao redor do corpo ensangüentado que por alguns minutos aguardou a chegada de socorro. Logo, porém, tudo silenciara. A noite dera lugar à madrugada enfeitada de estrelas e outra manhã se preparava para iniciar a rotina de córrego Seco.

Um mês depois desta cena grotesca, Menelau saia do hospital para tentar  recuperar-se de um traumatismo craniano, da perda de um rim e tentar reaver, no trabalho, toda a sua parca poupança que amealhara em anos e anos de labuta incessante e que fora irremediavelmente consumida em despesas médicas de toda sorte.

Não foi preciso muito tempo para a constatação de que o antigo moço transformara-se. Já não tinha o porte atlético de antanho. A tragédia plasmara em seu corpo, para sempre,
uma enorme bola de carne do lado esquerdo da cintura. Seu caminhar envergado, pela deformação em sua coluna vertebral, dava a impressão de que ali caminhava um senhor já consumido pelas agruras do tempo. A cicatriz, por sob a cabeleira que já não era a mesma, era algo de assustador, pelo tamanho.

Sua mente já não tinha mais a lucidez dos 38 anos, adquiridas na faina diária  sob o sol benfazejo do campo. Ante o efeito de poderosos medicamentos era um verdadeiro robô humano. Sem eles, uma fera desesperada, irresignada, revoltada contra todos e contra tudo.

Ficaria famoso, tornar-se-ia, ao longo dos anos, figura quase folclórica a perambular pelos corredores do Fórum da Comarca,  falando aos gritos com serventuários, juízes, advogados. A todos, indistintamente, chamava de “ladrão”. A insanidade haveria de instalar-se, para sempre, em sua mente, fruto da insensibilidade e da ganância do ser humano e ainda do desprezo, do descaso, da arrogância, da empáfia e da incompetência que campeiam no seio dos poderes constituídos.

III:

Dr. Flaminio, advogado já afeito aos intricados meandros da justiça e do direito, mantinha uma filial de seu escritório no município a que pertencia o distrito Córrego Seco. Umas duas vezes por semana comparecia naquela comarca para saber como iam as coisas, orientar em alguns procedimentos e resolver questões de maior complexidade.

Talvez por uma dessas coincidências que acontecem na vida, se é que coincidências e acasos existem mesmo, o advogado chegou naquela 4ª feira exatamente quando sua colega que respondia, em sua falta, por aquela filial atendia Menelau.

Da ante-sala, em contraste com a serenidade das violetas azuladas que adornavam a pequena mesa de centro, pode escutar uma voz áspera, pouco inteligível que vinha da sala de atendimentos.

- É Dr.O homem chegou nervoso - informou-lhe a secretária, moça irrequieta nos seus 19 anos, morena dos cabelos complicados que compensava a sua falta de beleza com o excesso de conhecimento da vida alheia. Rute, apesar de boa funcionária tinha o péssimo vício de procurar saber de tudo e de todos que viviam na cidade.

- Quem é? Perguntou  Dr. Flaminio.
-  Não sei Doutor. Chegou faz uns 30 minutos. Perguntou pelo senhor.  Eu disse que o senhor não ia demorar. Ai ele sentou-se por uns cinco minutos e depois começou a falar coisas sem nexo, ficou nervoso, gritando. Eu perguntei de que se travava ele me disse que não era da minha conta. Ai pedi a Doutora. Inês para atendê-lo.

Dona de um belíssimo par de olhos, ora cinzas ora azuis, e longos cabelos castanhos, quase loiros, Doutora Inêz, embora recém - formada, já dava mostra de sua competência e idealismo na carreira que escolhera para trilhar sua vida de trabalho honrado. Entendera com grande facilidade – máxime porque já trazia isto de berço – que o segredo da consciência tranqüila era o viver tratando com igualdade todas as pessoas, independentemente de sua condição social. É, hoje, uma excelente magistrada. Destemida, mas humilde, severa, mas humana. Serena, jamais deu azo às emboscadas do poder. Buscou sempre ser justa, acima de tudo.

- A senhora não ta entendendo nada. A voz, agora,  era tão alta que dava para ouvir na calçada da rua.

  O velho advogado percebeu, num relance, que a situação era  delicada e adentrou na sala.
 
-Boa tarde! Cumprimentou com alegria.
- Que bom que o Senhor chegou – disse-lhe, a advogada. – “Seu” Menelau está a sua espera e, pelo que já me contou, tem inteira razão.

Tal atitude fora fundamental para acalmar um pouco o irascível cliente. Em casos assim recomenda a boa psicologia que se de sempre, de inicio, total razão ao interlocutor exasperado. Depois, quando a confiança já estiver instalada em seu íntimo é que as coisas devem ser colocadas, aos poucos, em seus devidos lugares.
Antes que ela continuasse, Menelau, menos  nervoso, dirigiu-se ao Dr. Flaminio.
- Doutor, me mandaram procurar o senhor e quem mandou foi o prefeito. – E arrematou: - E também não tenho dinheiro não. Roubaram-me tudo.


Dr. Flaminio, causídico dos mais calejados, cujo tempo de profissão e de vida lhe  ensinara a tratar qualquer situação com a serenidade que o bom senso aconselha era, antes de tudo, um leitor da aura humana.

Buscava ouvir os queixumes e as revoltas de seus clientes com a paciência e a sabedoria de quem procurava, além de servir o seu idealismo, a justiça para ser aplicada aos que nela depositavam suas esperanças. Deixar o cliente falar, extravasar tudo que lhe vai no íntimo é forma de verificar o que lhe vai dentro da alma.

Depois de uns trinta minutos, só ouvindo, entendeu o que se passava no âmago daquela infeliz criatura com quem iniciava o diálogo e com muita serenidade respondeu:

- Claro, seu Menelau.. Fique tranqüilo que vou atendê-lo. Se o Prefeito pediu vamos resolver seu caso. O advogado dissera exatamente o que o pobre homem queria ouvir. Na verdade nem conhecia o prefeito pessoalmente.

- Sente-se e me diga com calma qual o seu problema.
Menelau abriu uma pasta preta, daquelas com fecho “éclair”, comumente usada por cobradores de pequenas quantias e despejou em cima da mesa uma formidável montanha de laudos médicos, contas pagas, recibos médicos, radiografias, enfim, tudo aquilo que representava o seu sofrimento desde a fatídica noite do acidente. Ao mesmo tempo em que espalhava em cima da mesa toda aquela papelada ia desfiando um rosário de lamentações, onde pontificava a revolta pelos poderosos. Em palavras entrecortadas, ás vezes quase ininteligíveis, contara toda a sua tragédia desde o inicio.

O advogado, depois de examinar atentamente a papelada viu, pelos laudos médicos e pela ocorrência policial que assistia, de verdade, razão ao indigitado camponês. Ingressaria, tão logo, com uma ação indenizatória contra a empresa mesmo porque, conforme a teoria do risco criado e da responsabilidade civil, mesmo sem culpa, estava estampado cristalinamente o dano sofrido.

A partir deste dia começavam as agruras de Menelau e uma verdadeira saga do dedicado causídico para buscar a justiça que aprendera na Faculdade, como sendo o único objetivo da verdadeira advocacia.

IV
Dois anos haviam transcorrido desde aquele pacto firmado verbalmente entre os dois. Um pacto que teve por cláusula única o sentimento inato de justiça do advogado, deveras impressionado com a tragédia que acabara de tomar conhecimento,  e do outro o cliente, desiludido e revoltado com esta mesma justiça na qual, até então, ele não vislumbrara e nem depositara qualquer esperança.

Testemunhas, ocorrência policial e audiências deixaram clara a imprudência do motorista, razão pela qual não foi difícil para que o Juiz condenasse a Empresa responsável pelo acidente, ao pagamento de todos os gastos que Menelau havia feito com médicos e hospitais, bem como ao dano psíquico, este último a ser apurado em liquidação.

Transitada em julgado a sentença,  Dr. Flaminio requereu a liquidação por artigos da parte ilíquida o que foi prontamente deferido pelo MM Juiz que atuara no feito. Aliás,  um excelente magistrado que permanecera naquela Comarca interiorana por muito pouco tempo.

Só que, por uma destas coisas que só acontecem no nosso Judiciário a verdade é que os anos continuaram passando e os juízes também, e nada do processo caminhar. Uma hora era a Comarca desmembrada, outra hora não havia Juiz nenhum. Quando havia estava respondendo por várias outras Comarcas , e, assim, o feito do pobre agricultor, que ficara inválido,  não chegava ao fim.

Em seu desespero, em sua ânsia de tentar recompor sua vida passou Menelau a freqüentar, então, os corredores do fórum da comarca, os gabinetes dos juízes. Não raras vezes era alvo de comentários por parte dos serventuários, piadas, gozações, informações errôneas. Uns o incentivavam a continuar na luta. Mas o faziam de forma sarcástica, pilheriando com a ignorância e o estado doentio do pobre homem.

Certa vez o Dr. Flaminio presenciara, de longe, um pequeno diálogo entre o escrivão do cartório e Menelau.
- É isso mesmo Menelau. Você está certo. – Dizia o servidor com ares de profundo conhecedor.
- Não é? – respondia Menelau. E quanto você acha que eu tenho direito? Emendava com a pergunta.
O serventuário, que sabia dos sonhos milionários de Menelau, não se fez de rogado.
- dois milhões no mínimo, com certeza.
- Dois “milhão” ?! Muito mais do que isso. Dois milhão não paga minha vida. – Menelau respondia alterado e levantava toda a camisa mostrando as cicatrizes no corpo e a imensa deformidade em seu lado esquerdo da barriga.
- Pode ser até mais mesmo. Completara o serventuário.

A irresponsabilidade é cruel muitas vezes. Usando a tragédia do infeliz para massagear seu ego de “gozador”, aquele serventuário, conhecido por sua indolência, inadvertidamente ajudava a incutir na mente doentia do pobre homem a idéia de que ele seria milionário.

O advogado, mais tarde, buscara conversar com o serventuário. Rapaz novo, cheio de planos para se tornar juiz de direito e tentara alertar-lhe para o que estava fazendo com o pobre homem.

- Este cara é doido , doutor, não sai daqui ofendendo todo mundo.

Doutor Flaminio ponderou que aquele homem era um infeliz. Totalmente desorientado pela tragédia que lhe acometera e que apenas não entendia a demora natural da justiça. Afinal já se passara quatro anos e o feito ainda permanecia na primeira instância. Solicitara do escrivão um pouco mais de paciência e compreensão com aquele pobre coitado e que ele diligenciasse no sentido de dar seguimento ao feito.

Na verdade o arrogante e despreparado serventuário não gostou das ponderações do advogado. Menelau ganhara ali, juntamente com seu diligente advogado, o primeiro inimigo, o primeiro procrastinador do andamento do feito. Antes, por pura preguiça e dali em diante pela preguiça aliada ao desejo de mostrar ao advogado quem mandava no cartório.

Tornara-se difícil acompanhar o processo, mas o advogado não se prestava a bajular quem quer que fosse para ver a lei ser cumprida. Buscava entrevistas com os juizes que, não raras vezes, eram trocados rapidamente e toda a historia necessitava ser repetida. Reclamava, atravessava petições. Chegara a se deslocar viajando 800 km por sua conta duas vezes, para cumprir, pessoalmente, precatórias. O escrivão as segurava o máximo que podia e não se dispunha,  mesmo,  a enviá-las.

Mas, como soe acontecer em todos os segmentos da nossa sociedade, há sempre a hora em que surge a figura salvadora do “super-homem”. No caso, incorporado na figura  intrigante de um juiz que despachava rápido, que não deixava processo acumular e resolvia tudo com apenas uma penada, como se a máquina judiciária fosse atravancada pelos Magistrados. É certo que a sociedade reclama por uma justiça rápida e eficiente, mas é sempre salutar ficar bem atento ao velho ditado de que “a pressa, na maioria das vezes, é inimiga da perfeição”.


Nem sempre a rapidez na justiça é boa conselheira. Existem casos que necessitam um pouco mais de estudo para melhor compreensão afim de que terminem com a melhor solução possível.

V:
Certo dia estava o Dr. Flaminio em sua lida diária quando recebeu em seu escritório uma singela intimação do MM juiz da comarca que dizia assim: “Intime-se o digno e culto patrono do autor para em cinco dias dizer se tem interesse no prosseguimento do feito, já que existe uma execução da sentença, em andamento.”

Ora, pensou o advogado com seus botões: - Como execução de sentença, se ela ainda não fora liquidada? Será que alguma coisa mudara no CPC. ? Procurou, imediatamente, em todos os seus alfarrábios de direito alguma coisa que pudesse ter sido aprovado pelo nosso Congresso Nacional, em tempo recorde.
  Entretanto nada encontrou. Perdeu uma noite de sono na internet, vasculhou livrarias e conversou com outros juízes e advogados. Ninguém sabia de nada. Então pensou:
  -Será que alguém mudara o CPC?
Não. Aquilo não era normal. A lei processual não permitia que uma sentença fosse executada em autos apartados. Pior, pois nem terminara, ainda, parte da liquidação. A forma a ser obedecida no que concerne à autuação da execução de sentença não é, positivamente, a de autos apartados, e, sim da juntada no próprio processo de conhecimento.
Pouco dormiu aquela noite. Ansiava pela manhã para se deslocar até a Comarca a fim de verificar o que estaria ocorrendo.

Por volta das duas horas estava no fórum. Foi ao Cartório e verificou, um pouco estupefato, que dois advogados – cuja única causa era, e seria aquela – haviam xerocado uma cópia da sentença prolatada e cuja liquidação ainda estava pendente de um exame pericial apenas, e com ela “ iniciado” um novo processo. Este, de Execução de Sentença, em autos apartados. Pior... Verificou, estarrecido, que definitivamente alguém mudara o CPC, sim! Tanto mudara que o juiz recebera a petição inicial e determinara a citação da Empresa ré para que pagasse a dívida ou nomeasse bens à penhora.
Foi recebido pelo magistrado e tentou dialogar com ele:
- Excelência, não vemos como isto possa prosseguir.
Argumentou que o código de Processo civil não previa a execução daquela forma. E mais, que tramitava no congresso nacional projeto de lei para reformar parte do CPC e a extinção da execução da sentença já era prioridade. Não justifica inovar no processo.
- Doutor-  respondeu rispidamente o juiz - Existe uma execução em andamento Requeira o que o senhor entender de direito que vamos estudar e despachar.
  Dr. Flaminio não sentira a firmeza necessária que dever portar todo magistrado, embora tivesse certeza, quase que absoluta, que aquele magistrado não desconhecia legislação tão simplória.
Arrimado no princípio jurídico-popular de que “manda quem pode e obedece quem tem juízo” o advogado atravessou a petição sugerida pelo meritíssimo e três meses depois, após ter ficado parada no cartório por cerca de dois meses para conclusão, tomou ciência do despacho que determinara o prosseguimento do feito, mas reservara ao patrono o direito de receber seus honorários, até ali. Positivamente não era isso que interessava ao advogado. Jamais ficaria satisfeito com essa emenda.
Tal procedimento do digno Magistrado proporcionou exatamente o que a Ré queria. Procrastinar. Tanto que seu advogado entrou imediatamente nomeando bens à penhora para segurar o Juízo e iniciou um martírio para a Justiça de Verdade, para Dr. Flaminio e para o infeliz agricultor, ex - protótipo do guerreiro vikink, lançado num átimo de segundo a um mundo desconhecido de mazelas e torpezas. Na verdade, depois de encerrada a parte cognitiva o MM juiz proporcionara à ré começar tudo de novo.
O advogado voltara para casa no fim da tarde. Não conseguia acreditar que o processo tivesse tomado aquele rumo. Sabia, perfeitamente, que aquele não era o procedimento legal e muito menos normal.

VI:
A parte, aproveitando-se daquele descuido, entrou recorrendo de todas as formas que eram possíveis e o caso, de um simples pedido de indenização  tornara-se um dos mais complicados processos de que  Doutor Flaminio conhecera. Ficara insolúvel, praticamente. Transformara-se em quatro enormes volumes de fazer inveja aos Kafkas do mundo jurídico.
Mais quatro anos foram consumidos na árdua tarefa de desmantelar toda a incompetência e burocracia que enredara um simples caso de atropelamento por negligência do motorista. O causídico levara todo este tempo para conseguir demonstrar o erro crasso cometido.
Passados, ao todo, oito anos desde o acidente, finalmente os autos do processo voltavam ao seu curso normal, graças a uma Juíza que resolvera enfrentar mais de seiscentas laudas que compunham os quatro volumes e, em seu senso prático de justiça,e sua competência,  mandara desapensar toda aquela parafernália de nulidades, reduzindo o feito novamente ao pedido inicial.
Mas, infelizmente a justiça brasileira não consegue manter um juiz por muito tempo numa comarca pequena. Ainda mais quando se trata de quem conhece o oficio. Pouco tempo ficam em comarcas pequenas.

VII-
Assim, treze anos depois o feito ainda continuava na primeira instância. Sobrepujando todos os  obstáculos que apareciam, Dr. Flaminio, depois de conseguir a citação da firma lutava para tentar convencer ao contador do juízo que Menelau tinha  direito a receber o valor que lhe fora concedido na sentença,  em 1993, devidamente corrigido.

O valor que encontrara era o mesmo que a firma ré encontrara. Entretanto, a contadoria da Comarca de Córrego Seco entendera que, em face da mudança do padrão monetário do país, nada  restava a Menelau , eis que o tempo consumira seu direito, assim como o destino consumira sua vida.

Por duas vezes conversara diretamente com o contador. Tentara mostrar-lhe que não era crível que, de 1993 até 2006, a transformação da moeda pudesse consumir um direito adquirido por um ato judicial perfeito e acabado.

Juntara, em petição, esclarecimentos sobre a transformação dos valores na moeda atual e a correção efetuada por economistas e requerera a Juíza determinasse que a contadoria efetuasse os cálculos com base na legislação apresentada.

A magistrada que atuava, agora, no feito, era inteligente, educada, competente e acima de tudo humana, a par de sua beleza e serenidade,  perfeita reencarnação de uma Deusa grega. Percebera, tão logo tomara conhecimento do processo, o que vinha ocorrendo ao longo daqueles anos e buscara, em todo os sentidos, promover a justiça.

Verificara a má vontade do serventuário relapso, que continuava impunemente, a atravancar a marcha regular dom processo, tomara ciência das atitudes antiéticas da parte contrária, e tudo que estava ao seu alcance ela fazia para ver o sofrimento daquele infeliz minimizado.

Mas, apesar de tudo, não era economista. Não poderia mesmo valer-se de conhecimentos que fugiam de seu mister. Para isso existiam os contadores do juízo. E, infelizmente era em seus pareceres que deveria e poderia se alicerçar.

E o contador havia batido o pé. Não entendia nenhuma conta, a não ser a sua. De nada valiam as ponderações de que não se podia confundir atualização com correção monetária. Não entrava em sua cabeça que, antes, de aplicar a correção era necessário transformar o valor da época do acidente em moeda corrente do momento.

Nada. A contagem apresentada por convicção era de que Menelau somente faria jus a “zero”. O tempo, o mesmo tempo que corroera sua saúde, sua vida, também corroera seu direito.

Como dizer àquele humilde camponês totalmente aparvalhado ante a vida que transformara seu destino compreender que, depois de 14 anos de sofrimento, seus algozes nada lhe deviam?

Doutor Flaminio voltava da sede da  comarca. Havia tomado ciência do resultado da conta feita. Já anoitecia quando o advogado passava por Córrego Seco.

Aquele pequeno pedaço de Brasil continuava no mesmo jeito depois destes catorze anos. O templo ainda estava lá, imponente, á espera dos fiéis que o visitavam todos os domingos.

Ao passar pelo exato local do acidente, Doutor Flaminio estacionou seu carro quase que instintivamente. Dali dava para ver a humilde residência de Menelau. Pouca movimentação, mas conseguiu reconhecê-lo. Estava sentado no alpendre da casa e de longe, parecia uma pessoa normal.

O advogado abriu a porta, encostou-se no carro e ficou pensativo olhando aquela figura que poderia parecer comum a quem transitasse pela estrada, mas não para ele que sabia de todo o vulcão de desespero que habitava aquela alma.

Respirou o ar puro do campo. A noite enfeitava-se de muita alegria e de luar, mas a avenida, principal artéria do lugarejo, estava praticamente deserta. No éter, entretanto, pairava a mesma sensação de paz e de tranqüilidade.

Doutor Flaminio revigorando suas forças, talvez por uma interferência mágica da mesma força que há catorze anos mudara a vida de um simplório e feliz lavrador

Começou a se preparar para continuar, em outras instâncias, a sua saga para entregar uma réstia de dignidade àquele ser humano que, ali mesmo perdera, um dia, sua personalidade e adquirira, para o resto de seus dias, a indiferença pela vida, a revolta pelos poderosos e a descrença pela justiça.

Quanto tempo ainda haveria de lutar? Não imaginava. Dr. Flaminio tomou novamente o carro e retomou seu caminho deixando para trás Córrego Seco, perdeu-se na curva da estrada. Certamente haveria de retornar ali, muitas vezes, ainda.

Nelson de Medeiros
Nelson de Medeiros
Enviado por Nelson de Medeiros em 25/07/2006
Código do texto: T201781

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