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Quem espera sempre alcança - Capítulo X (Último)

     No outro dia, pela manhã, eu e mamãe voltamos bem cedo para o hospital.

     Estávamos na sala de espera do hospital, quando um dos empregados de papai chegou e falou qualquer coisa para mamãe. Ela levantou-se da cadeira e me disse:

     - Cidinha, seria melhor você ir, já que seu pai não pode.

     - Ir aonde, mamãe?

     - No aeroporto, buscar Rogério, pois ele chegará daqui meia hora. - falou mamãe com a voz sumida.

     Eu não falei nada, mas senti que meu coração ia pular para fora. Não sabia o que estava sentindo realmente. Fui ao banheiro, lavei meu rosto e me reanimei, afinal de contas, aquele seria o momento que mais sonhei após a nossa separação.

     Fui eu mesma dirigindo o corro. Minhas pernas tremiam mais do que gelatina, minhas mãos suavam que se escorregavam no volante.

     Cheguei ao aeroporto e fiquei a esperar. Aquela meia hora parecia o infinito. Nunca chegava o momento.

     Afinal chegou o avião. Desceram os passageiros e não vi Rogério. Depois de alguns instantes desce um homem com moletas auxiliado pela aeromoça. Era Rogério. Corri com todas as minha forças. Cheguei perto dele, parei e ficamos olhando um para o outro por um longo espaço de tempo.

     Ele falou com a voz trêmula:

     - Meu amor! Eu não acredito no que vendo. Não será um sonho, como aqueles que me seguiram todo este tempo, Aparecida?

     _ Não, Rogério! Não é sonho. É realidade, uma realidade muito boa. Valeu a pena esperar.

     Ficamos ali num grande beijo e um abraço caloroso que há muito não sentíamos.

     Fomos para o hospital. No caminho ele resumiu o que tinha passado naquele tempo:

     - Como pode, Aparecida, eu não acredito! Eu aqui com o único amor da minha vida... Como é nossa filha? É tão linda quanto você?

     - Não! Ela não é tão bonita, ela é LINDA!!! É maravilhosa, é sua cópia. Linda, meiga...

     - Não vejo a hora de conhecê-la! Eu sofri muito, Aparecida! Sofri torturas naquela prisão. O frio era tanto que parecia que ia me congelar. Mas aquele frio não me doía tanto quanto a saudade de você... Eu chorava feito criança me lembrando de você, pensando como você estava passando. Os dias naquela prisão pareciam a eternidade. Às vezes eu pensava em dar fim a minha vida, mas o que fazia ter ânimo para viver era você. Pensava nisso porque me tiraram você e o fruto do nosso amor e ainda me colocaram naquela prisão escura, cheia de insetos, fria e amarga... Olha, Aparecida, eu comi "o pão que o diabo amassou", mas eu tinha esperanças que um dia eu iria te reencontrar. Eu sonhava com nossa filha, pois logo fiquei sabendo que era uma linda garota. Tentei escrever para você várias vezes, mas depois fiquei sabendo que todas as cartas que eu endereçava a sua casa, eles abriam e rasgava...

    Coloquei a mão na boca dele interrompendo-o.

    - Não, meu amor, não lembres de coisas amargas. Agora nós teremos a vida inteira para descontar o tempo perdido... - falei não contendo o choro incontrolado.

     Ele chorava muito também. Tive que parar o carro um pouco para nos controlarmos.

     Chegamos ao hospital. Apresentei-o à mamãe e ela disse:

     - Você agora é meu filho também. Tanto mal que fizemos a você e a nossa filha. Isto tudo foi um grande erro, foi excesso de amor... Você me perdoa, Rogério? - falou mamãe chorando e abraçando Rogério.

     - Claro, dona Ana! Imagina! Nós agora formamos uma família.

     - Agora, vocês vão lá pra casa. Aqui está tudo sob controle, Rogério deve estar louco para conhecer Rogéria. - falou mamãe.

     Fomos para casa. Chegamos lá, Rogéria estava dormindo. Enquanto Rogéria não acordava, ficamos no jardim nos curtindo e conversando, acho que o resto da vida tínhamos assunto.

     Uma hora depois, Laura nos avisou que Rogéria havia acordado. Entramos no quarto.

     - Oi, filhinha! Olha o papai!

     - Papá...

     Rogério olhava para Rogéria e chorava de emoção. Abraçava-a e apertava-a ao peito.

     - Minha filha, minha filha! Como é bom te encontrar!!!

     Rogério tinha muita dificuldade para se locomover porque o reumatismo que havia adquirido na prisão fez com que ficasse deficiente. Não podia brincar com Rogéria, não podia correr com ela pelo jardim...

     Estávamos na maior felicidade, os três, quando uma empregada bateu na porta do quarto e disse:

     - Dona Cidinha, dona Ana acaba de telefonar do hospital e pediu para a senhora e o rapaz iram para lá porque "seu" Olegário acordou e pede vossa presença.

     Saimos correndo.

     Sinceramente, que naqueles momentos de felicidade cheguei a esquecer o problema de papai.

     Chegamos ao hospital e fomos direto para a U.T.I. Papai chamou por mim e por Rogério. Chegei e segurei em sua mão.

     - Ci... dinha... Ro... Rogério! Que bom... ver vo... vocês jun... tos! Eu... Eu... o pre... judiquei mui... to. Eu que... ro que vocês... tomem con... ta... de tu... do.

     - Não fale assim, "seu" Olegário, o senhor não está em condições de falar. Quando o senhor melhorar nós vamos conversar muito. - falou Rogério com os olhos cheios de lágrimas.

     Eu chorava muito.

     - Eu não... vou... melho... rar. Che... gou meu... fim. Ro... Rogério, me... per... perdoa...?

     _ Claro, "seu" Olegário, claro que o perdôo.

     - Eu... vos... aben... çôo... Vo... cês vão... ser mui... to fe... felizes...

     Papai olhou-nos com um olhar de ternura que nunca havia visto. E fechou os olhos.

     - Papaiiiiii!!!! - Gritei tão alto e forte que o hospital inteiro ouviu.

     Mamãe desmaiou. Eu chorava desesperada. Rogério tentava me acalmar.

                    *   *   *

     No velório de papai havia tanta gente que nem podíamos ficar juntos ao caixão.

     Depois de um mês que papai partiu, eu e Rogério nos casamos perante Deus e os homens e a vida continuou...

     Mamãe continuou assistindo sua creches. Rogério passou a administrar todos os negócios de papai.

     Hoje somos muito felizes. Rogério sentiu muito não curtir a minha gravidez de Rogéria, mas curtiu muito as de Renata e Rafael.

     Sinto muita saudade de papai, mas sou muito feliz agora e digo sempre para os meus filhos para nunca desistirem e não se desesperarem quando não conseguirem algo, pois se não conseguirmos temos só a esperar que um dia Deus nos conceda a felicidade e a "a esperança e a última que morre". E "QUEM ESPERA SEMPRE ALCANÇA".
 
     
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 26/07/2006
Código do texto: T202576
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Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4027 leituras)
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