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Reflexos de uma vida

Chega um dia em que se quer mais da vida. Um dia em que a rotina não basta, onde os valores se invertem e as coisas consideradas essenciais perdem o sentido.
E esse momento chegara para ele, cuja vida era regrada e confortável. Tinha muito medo de que em algum ponto da sua vida, ele parasse para pensar e não encontrasse no passado alguma realização que lhe fosse fundamental ou que tivesse uma essência salutar e transformadora.
Não conseguiu pensar em nada. Onde estavam aqueles sonhos, aquela perspectiva tão otimista do futuro? Isso não mais fazia parte dele. Era um homem sem esperança, cujos dias se tornavam enfadonhos e repetitivos.
Saiu de casa bem cedo para trabalhar. Há tempos não dormia as oito horas que eram recomendadas por seu cardiologista. Não por falta de tempo, mas de sono mesmo.
Morava sozinho agora. Os dois filhos que tivera estavam casados e já podiam se sustentar sozinhos. Não precisavam mais daquele pai velho e carrancudo, como se autodenominava, embora insistissem em visitá-lo mesmo para ter uma conversa superficial, já que Estevão não permitia nada além disso.
Lívia, sua esposa, falecera na semana anterior, vitima de um infarto fulminante. Estevão não derramara uma única lágrima. Na verdade, observando seu rosto no velório, teve a certeza de que finalmente ela estava em paz. Lívia sofrera muito nos últimos meses, por causa da depressão causada pela crise no casamento.
Estevão não tinha um mau caráter, era apenas um homem que já vivenciara experiências amargas. Tivera uma infância feliz e tranqüila, no campo, cercada de verde e animais, como toda criança merece ter.
Na adolescência mudou-se para a cidade para cursar a faculdade de Direito. Com o tempo, foi se destacando na carreira por seu empenho e vocação para o exercício da profissão. Alguns anos depois, tornou-se o respeitado e, por vezes, temido, juiz Estevão Magalhães.
Muitas pessoas decepcionaram-no no decorrer desse tempo, não hesitando em massacrar outras para satisfazerem suas ambições. Estevão tinha uma tendência intrínseca ao seu espírito de fazer sobressaltar em sua mente os acontecimentos negativos, que eram mais numerosos em seu meio de trabalho. Depois de 20 anos de condenações e absolvições, tornou-se uma pessoa descrente do ser humano e da vida.
Já estava com 55 anos e só de pensar que se aposentaria em breve tinha arrepios. Sempre trabalhara, que utilidade teria se não fizesse aquilo a que dedicara toda a vida?
Sorvendo uma xícara de café, que se já tornara um vício, durante o recesso de uma audiência, os depoimentos que ouvira há pouco e os argumentos de seu irmão datados de anos misturavam-se em sua cabeça, dotada de cabelos brancos esparsos.
Sentou-se, lembrando de como Lívia e Pedro o tinham traído. Sua mulher era doce e procurava agradá-lo tanto o quanto lhe era possível. Mas ele, o juiz Estevão Magalhães, era um homem responsável, preocupado demais em poupar dinheiro para quando os filhos fossem para a universidade. E, para isso, tinha que trabalhar muito, deixando de ver os filhos crescerem, tornando-se pessoas carentes, não de estudo ou dinheiro, mas de uma figura paterna que lhes protegesse e contasse histórias.
Tinha que voltar para a audiência, o caso em questão era de um casal que tinha se separado. A mulher alegava que o marido a tinha traído. E ele, que ela era mentalmente desequilibrada e não poderia ficar com a guarda dos filhos.
Lívia e Estevão não tinham se separado depois do ocorrido. Os filhos, sem saber, sempre nutriram verdadeiro amor e admiração pela mãe, pois ela assumira a função de pai também, já que Estevão, depois da traição, abdicara de seu posto paterno.
Numa noite estrelada, Estevão sentou-se numa cadeira, observando o céu imenso. Não encarava a natureza com aqueles olhos da infância, com que se surpreendia e se entusiasmava com um arco-íris. As causas físicas, comprovadas analiticamente, eram sempre mais importantes que a beleza de algum fenômeno.
Mas, naquele momento, não importava a origem do Universo nem das estrelas, ele estava absorvido em lembranças, recordando o rosto pálido de Lívia. Ela sempre tentara lhe dar uma vida feliz. Seria justo condená-la por um deslize que poderia ser evitado se ele tivesse se dedicado mais à sua família?
Ele não podia condená-la, que ironia! Não tinha esse direito, ele também falhara. E agora estava sozinho. Eduardo e Carolina já tinham suas vidas, suas famílias, seus filhos, seus gatos e passarinhos.
Foi para o quarto, não havia mais como voltar no tempo e corrigir os erros do passado. Deitou-se e puxou o cobertor. Apanhou os óculos e um livro. Não conseguindo se concentrar, relaxou o corpo magro e deixou a cabeça grisalha pender para o lado. Fitou os sóbrios olhos verdes no grande espelho que Lívia havia mandado colocar pouco antes de falecer.
Nos últimos meses, Lívia pedira que ele voltasse a dormir na mesma cama que ela, pois assim conseguiria dormir. A depressão fazia com que revivesse o arrependimento e a culpa em todos os momentos.
E de repente, ela quis colocar um espelho no quarto. Estevão não entendera, já que ela nem se levantava da cama.
Mas agora estava claro. O espelho era uma mensagem, dizendo que o que ela fizera era reflexo de como ele agia. Com palavras, ela já tentara explicar-se para ele, embora estivesse ciente de que nada justificaria o que fizera.
E agora estava frente a frente consigo mesmo. Não havia mais ninguém naquela casa. Só ele. Não via no espelho o respeitado juiz Estevão Magalhães. Via o pai ausente, o marido que nunca chegara a ser um companheiro de verdade.
Deparou-se com o veredicto de que decidira o destino de muitas pessoas, mas o dele deixara a cargo do acaso. Não se preocupara com domingos de sol perdidos, piqueniques adiados, festas de dia dos pais sem o pai ou com o fato de não ter visto a primeira netinha na maternidade, nem em passar o Natal longe de casa.
De que adiantou tanto esforço se estava sozinho agora, se não tinha ninguém para conversar? Os processos engavetados ou seus clientes antigos não lhe fariam companhia na velhice, nem cuidariam dele quando estivesse doente.
E, com o peso do mundo nas costas, chorou. Choro pelo tempo perdido, pela morte da esposa, por sua traição, por não ter ouvido as primeiras palavras dos netos.
E o céu, antes estrelado, cobriu-se de nuvens pesadas trazidas pelos ventos de um passado distante. E a natureza caiu em prantos com ele. Mas a alma de Estevão nunca estivera tão limpa. Caiu no sono antes de poder tirar os óculos.
No dia seguinte, acordou com os olhos vermelhos e inchados. Respirou fundo e surpreendeu-se ao olhar no relógio, tinha dormindo mais de oito horas. Sorriu de sua tolice ao se alegrar por que tivera uma boa noite de sono, se comparada com tantas coisas que teria para reconquistar.
Por sorte, não havia audiência marcada para aquele dia. Espreguiçou-se como se não permitia fazer há tempos e murmurou uma prece silenciosa, apenas agradecendo por ter conseguido livrar o seu espírito daquele estado de inércia sentimental, em que não se permitia ter qualquer emoção que atrapalhasse sua eficiência.
Sentou-se na cama, caminhando de pijama para a cozinha. Disse bom-dia à empregada, que se surpreendeu por tal atitude, pedindo que lhe fizesse um suco de laranja. Respirou fundo, percebendo que o que aconteceu no dia anterior em seu íntimo era apenas o começo de uma mudança, de uma vida nova.
Tomou o suco e trocou de roupa, saindo para comprar um presente para as filhinhas de Carolina e para o filho de Eduardo. Não sabia o que comprar, pois desconhecia o gosto das netas. Passou em frente a um pet shop e teve uma idéia. Eduardo e Carolina sempre quiseram um cachorrinho, mas ele nunca deixara que comprassem.
Dirigiu-se a pé (caminhar era outra instrução do cardiologista) até a casa de sua filha. Eduardo mudara-se há pouco tempo e ele não sabia exatamente para onde.
- Pai? O que... o senhor não está passando bem? – Carolina, ao abrir a porta, assustou-se.
- Não. Calma, filha! – sorrindo, disse, tocando o rosto da mulher ainda com expressão de luto.
- Claro... entre, papai! Cuidado para não tropeçar nos brinquedos. Isabela e Monique estão no quarto, se quiser vê-las.
- Quero, sim! Você está muito bonita hoje! Vamos sentar no sofá para conversar um pouco? – ao dizer isso, Eduardo, surgiu de um dos quartos.
Já era hora de almoço. O marido de Carolina estava trabalhando, já Eduardo, em horário de almoço, fora comer na casa da irmã. Os dois eram muito unidos.
- Filho!
Estevão fez com que os dois se juntassem e abraçou-os como há muitos anos não fazia. Os dois não entenderam, sempre souberam que não podiam ter raiva do pai, pois ele só queria o bem dos dois, era assim que Lívia dizia.
- Tudo bem, papai? Está chorando, por quê?
- Eu perdi tanto tempo, crianças... agora, vocês já estão crescidos! Não há como voltar atrás, mas posso pedir perdão! Perdoem-me...  eu sempre achei que estava fazendo o melhor para vocês, mas não... estraguei a vida de Lívia...
- Papai, procure se acalmar. Tudo bem, não temos ressentimento quanto ao senhor. E mamãe morreu em paz, porque ela sabia que um dia o senhor encontraria a felicidade, papai. E ela tinha a nós...
Eduardo não conseguiu falar, pois a simples menção do nome de sua mãe fazia com que se emocionasse muito. A seguir, Estevão contou o que havia acontecido na noite anterior. Os três se abraçaram novamente.
- Vou reconquistar a confiança e o amor de vocês...
- Você nunca os perdeu, papai! Só não deixava que demonstrássemos... – disse Eduardo, recompondo-se e chamando o filho para ver o avô.
Fernando, Isabela e Monique correram para ele, que estava ajoelhado no tapete, pulando sem sua barriga e fazendo-lhe cócegas. E ele chorava, mas de dar risada, de alegria. Algum tempo depois, o funcionário da loja chegou com os três cachorrinhos. Cada um correu em direção a uma criança. E a alegria delas fez com o coração de Estevão se enternecesse e guardasse aquele momento na memória para sempre, como uma realização que lhe fosse fundamental, com uma essência salutar e transformadora.
Dois anos depois, Estevão se aposentou, deixando sua carreira brilhante como exemplo a muitos estudantes de Direito. Orgulhava-se disso, mas não mais do que de seus filhos, por terem lhe dado tão preciosas jóias, os netos.
Era domingo de manhã e as três crianças ainda estavam dormindo. Tinham passado a noite com o avô, todos na mesma cama de casal. Depois de muitas historinhas acabaram adormecendo. Estevão sentou-se e olhou para o grande espelho, sem medo de encarar seus próprios olhos. Viu, no reflexo, cheias de expectativas para o piquenique que fariam, as três crianças lhe sorrindo.





Maria Flor
Enviado por Maria Flor em 27/07/2006
Código do texto: T203243
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Sobre a autora
Maria Flor
São João da Boa Vista - São Paulo - Brasil, 27 anos
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