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O meu Tio António

O meu Tio António
Desde já peço desculpa por esta nota mais intimista, mas este é dos tais escritos que tinha que fazer por uma necessidade imperiosa de homenagear alguém que em breve nos deixará.
Como o titulo indica, falo do meu tio-avô António, algumas horas antes de uma doença o levar duma vida que preencheu com a sua bondade e sapiência, raras mesmo num homem da sua idade, num homem bem entrado nos oitenta anos.
Devo desde já confessar que não o conheço muito bem, que aquilo que sei é através de pessoas que lhe são próximas e que o estimam duma maneira invulgar pela imensa nobreza do seu grande carácter.
Sei que é irmão do meu grande mestre, o avô João que nos deixou cruelmente para se juntar ao seu Deus num Agosto invulgarmente quente de 1991, tinha eu 20 anos. Já falei várias vezes do Avô João, que apesar de eu estar invulgarmente bem rodeado por exemplos de ética e morais absolutas heterodoxas, o Avô era o exemplo maior, mas tinha descendentes, inclusive este seu irmão que me vim a aperceber ser um indivíduo extraordinário.
A minha primeira memória clara que tenho dele vem do princípio dos anos 80: enquanto toda a família renovava o seu parque automóvel, ele manteve-se fiel a um velho e extraordinário carro dos anos 50, bem estimado com um carinho semelhante ao que o meu avô devotava a tudo aquilo que o rodeava…E eu adorava simplesmente em ver e andar naquela relíquia, naquela marca do tempo motorizada, sendo que o meu amor por carros antigos talvez venha dos tempos em que passeava naquele automóvel.
Fascinado pela 2ªGuerra Mundial, tive nele o maior protagonista da guerra em terras Portuguesas: como sabem Salazar garantiu a neutralidade portuguesa no conflito numa célebre frase “Livro-vos da guerra, mas não da fome”; ou seja o meu povo passou ao lado dos combates mas não das suas consequências indirectas. De inspiração fascista, o ditador contribuiu de forma indirecta para o esforço de guerra dos nazis, com atitudes das quais o meu tio foi testemunha: colocado na fronteira com Espanha como soldado, ele viu inúmeros comboios rumo ao Leste puxando carruagens que ostentavam as letras “Sobras de Portugal”, ou seja, o meu país que já não era de forma nenhuma próspero teve que contribuir para a alimentação da fera nazi na sua tentativa demente de conquista da Europa…E foi o Tio António um dos que testemunhou directamente esta infâmia, que viu e depois contou a uma família que passava necessidades mas que não sabia para onde ia a comida…O que terá sentido este homem bom e sensível ao testemunhar este acto tortuoso da nossa política externa, que enquanto emprestava bases aéreas aos Aliados tirava o pão da boca dos seus?
Uma pergunta que nunca terei respondida, pois dentro de horas o seu bom Deus o levará rumo a algo que espero bom, porque ele é um dos homens que merece esse bem.
Pode parecer estranho pelo pouco contacto que tenho e que tive com ele, mas eu adoro este ancião…Não sei se é pelas histórias de honra que já se começam a contar e a espalhar, garantindo a sua estada entre nós durante ainda algumas gerações, não sei se é pelo seu porte digno me lembrar o meu avô, seu irmão mais velho, não sei, mas sei que o estimo…
Nestes tempos em que os valores estão virados ao contrário um homem como ele vai fazer uma extraordinária falta, tal como faz o meu avô João.
Sei que o vou honrar tentando prolongar da melhor das maneiras o seu legado, sei que vou ter saudades dele, sei que o mundo vai ser um lugar mais solitário sem ele, pois se há pessoas que fazem falta, Ele sem dúvida é uma delas.
Na minha cruzada agnóstica em busca de um Deus, sei que nas próximas horas a estrada para o céu vai ter mais um anjo a caminhar da forma calma e nobre como caminhou em vida, e esse anjo terá um rosto e uma cara:
O meu Tio António
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 27/07/2006
Código do texto: T203373
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Sobre o autor
Miguel Patrício Gomes
Portugal
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