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Quem espera sempre alcança - Capítulo IV

(POR RAZÕES QUE DESCONHEÇO, PUBLIQUEI O CAPÍTULO IV E ELE NÃO APARECE NA LISTA DOS PUBLICADOS. AGORA ESTOU O ESCREVENDO NOVAMENTE.)


     Quando tudo se acalmou, mamãe entrou no quarto cambaleando, com os olhos inchados de chorar.

     Olhou para mim com ternura. Para ser sincera tive pena dela.

     - Cidinha, Cidinha, minha filhinha do coração! Eu não posso imaginar que tudo isto que está acontecendo, seja verdade. Eu e seu pai nos casamos e tínhamos muitos planos para o futuro. Queríamos encher a casa de filhos, que naquela época não era esta mansão, era uma casa simples, seu pai estava começando a vida com algumas vaquinhas que o velho Salomé, seu avô, havia deixado por herança. Os anos foram passando, e nada... Nada de filhos. Seu pai às vezes se irava, dizia que eu não prestava nem pra isto. Muitas e muitas vezes eu me tranquei no quarto e pegava o revólver, quando eu colocava o revólver no ouvido, uma força estranha me segurava, era Deus... Então eu me enchia de forças e pensava que um dia eu teria o privilégio de ser mãe. Resolvi me submeter a exames com o doutor Expedito, que desde então se tornou o médico da família. Foram muitos anos de exames de laboratório, radiografias, remédios, remédios caseiros. Eu procurava aquelas senhoras das fazendas para fazerem aquelas garrafadas. um certa vez quase me envenenei com uma daquelas garrafadas bravas. Um dia Dr. Expedito me disse que nada adiantava se não fosse uma cirurgia nos Estados Unidos. Para nós, uma estadia nos Estados Unidos não era difícil, porque depois de vinte anos de casados já estávamos bem de situação financeira. Fomos para lá e ficamos seis meses entre exames, cirurgia e recuperação. Voltamos cheios de esperança. E nada... Completou um ano, dois, três e nada. Eu perdi as esperanças. Olegário só sabia me hostilizar. Não sei como agüentei tanta humilhação!... Até que um dia, resolvi fazer uma promessa, me apegar à Nossa Senhora Aparecida, eu tinha uma fé... acho que foi o sofrimento que me aproximou tanto de Deus. Esperei com muita fé e coragem. Esperei muitos anos, mas não perdi as esperanças. Acho que Deus fez eu esperar muitos anos foi para me colocar em prova paraa ver se eu não me desesperava. Um dia, um belo dia, o sol parecia mais brilhante, as árvores estavam mais verdes. Tudo era belo... Fui ao médico e ele fez o pedido de exame de laboratório. Fiz o exame. No dia de pegar o resultado, Olegário foi comigo. Dr. Expedito nos recebeu no corredor, muito contente, com um sorriso que muito pouco se via no seu rosto. Entramos no consultório, ele mandou-nos sentar e falou:"Parabéns, papai e mamãe, demorou, mas apareceu." Eu não sei o que Olegário disse, quando acordei estava em uma cama cercada de médicos e enfermeiras. Passei a gravidez toda fazendo um controle rigorosíssimo, pois Dr. Expedito temia que eu não resistisse, eu era muito fraquinha. Por duas vezes tive ameaça de aborto, mas minha fé em Nossa Senhora Aparecida era mais forte. Chegou finalmente "o grande dia". Dr. Expedito marcou a cesariana para as duas horas da tarde. Antes disso chamou Olegário em particular e disse-lhe que sabia que eu ia entrar para o centro cirúrgico, mas não garantia a minha volta com vida e nem a da criança. Olegário não me disse nada, mas senti em seus olhos. Mas outra vez minha fé era maior. Correu tudo bem. Olegário mandou fazer uma festa para a cidade toda participar da nossa alegria. Você foi uma magia em nossa vida! É por isso, Cidinha, que temos tanto cuidado com você. E agora aconteceu isto. Você nos enganou, nos traiu. Oh! minha filha! Por que você fez isso?

     Mamãe falava e chorava em desespero.

     Eu escutava tudo com muita pena de mamãe e consegui falar:

     - Mamãe, você não tem culpa, mas você e o papai toda a vida foram muito egoístas, em nenhum momento pensaram em mim. Quando criança nunca me deixaram brincar com as gurias da minha idade. Deram-me muito luxo, mas não me deixavam respirar, eu fui uma criança sem infância, muito sozinha... Tinha bonecas que falavam, que andavam, todos os brinquedos que pensava, mas não tinha ninguém para brincar comigo. Eu cresci muito depressa, com onze anos eu não era mais criança, fiquei adulta precocemente. Me apaixonei por Rogério e ele por mim, me tornei ele e ele a mim, éramos uma só pessoa. Ele completou todo o vazio de minha existência. E agora, mamãe... e agora papai me afasta dele, mas não irá adiantar porque um pedaço dele está aqui comigo e este ninguém me tira, só se tirar minha vida. Eu vou ter meu filho e vou amá-lo muito porque ele é o que de bom ficou do meu amor por Rogério. E se a senhora me der licença, eu gostaria de ficar sozinha...

     Mamãe abriu lentamente a porta e saiu fechando a porta e olhando para mim.

     Tive pena de mamãe, mas não me arrependi de uma só palavra.
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 28/07/2006
Código do texto: T203881
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Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4029 leituras)
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