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O INÍCIO

O início

O início era assim: dirigíamos nosso olhar para certa moça.
Se ela correspondesse, ficávamos esperando o seu retorno. E, ao passar por nós novamente, além do olhar, esboçávamos um sorriso gentil.
Se ela correspondesse, na próxima vez, pedíamos licença para conversar com ela. Dependendo da resposta, ali mesmo começava um namoro inocente.
Acontecia também que ficávamos esperando sua passagem pela terceira vez. O temor fazia com que ficássemos imóveis. Perdíamos, então, naquela noite, a oportunidade do início do namoro.
Acontecia ainda de ficarmos esperando o seu retorno, o que não acontecia. Aguardávamos até quase a avenida ficar vazia o seu possível retorno e nada.
Caminhávamos, então, para a pracinha com os amigos, onde acontecia um bom bate-papo até lá pelas onze.
Após esse horário, as ruas ficavam praticamente desertas.
Ao contrário, hoje, o jovem sai de casa nesse horário, horário em que ninguém, no nosso tempo, íamos para casa descansar. Dormir para enfrentar a luta do dia seguinte.
Moça que se prezava não entrava em um bar. Beber, nem pensar. Entrava somente em restaurantes, acompanhadas dos pais. Em sua companhia, na maioria das vezes, freqüentava bailes que terminavam lá pelas três da madrugada. Dificilmente, o baile acabava lá pelas quatro, no mais tardar.
Em festas de casamento, aniversário ou outro tipo de deleite e confraternização, as moças de “bem” se limitavam a tomar um licor, uma batida de pêssego. Nunca excedendo nas doses.
Tudo obedecia a um equilíbrio de um padrão comportamental que se tornava um grande aliado em manter uma saúde louvável.


A vida sempre transcorria em ambiente tranqüilo.
Muita disciplina nos colégios, inclusive nos grupos escolares do ensino primário. Uma professora era o símbolo perfeito de educação e disciplina. Poucos se aventuravam em brincadeiras durante as aulas e, mesmo fora das classes, os alunos tinham limite rígido. Nem por isso, cresciam com problemas psicológicos devido àquela austeridade, tanto em casa quanto na rua, nas escolas e em outros locais públicos.
A educação começava em casa, com a mãe sempre presente na lida costumeira doméstica. Na escola, a educação era complementada. Obrigação cumprida com satisfação pelas professoras.

...

A melhor parte de cada dia era a noite. Após as dezenove horas, tínhamos duas opções: ou o footing na avenida, ou o cinema. Dependendo do filme da noite a ser apresentado, formavam-se uma fila para a compra de ingressos e outra para a entrada no cinema. Longas filas.
Acontecia muitas vezes, ao chegarmos perto da bilheteria de compra de ingressos, alguém avisar:
- “A bilheteria fechou por hoje. Os ingressos acabaram.”
Porém, mesmo quando íamos ao cinema, lá pelas nove horas, ao término, saindo pelas portas laterais, o primeiro ato era acender um cigarro e caminhar para a avenida, a fim de participar do movimento do footing.
A saída pela porta da frente do cinema geralmente estava impedida. Pessoas aguardavam a saída de todos para entrarem para a segunda sessão.


O footing na avenida começava lá pelas sete da noite.
A avenida era dividida em três “alas”, sem que houvesse para isso qualquer decreto ou lei impondo tal divisão.
Surgiu assim, sem mais nem menos.
Acho que cada qual procurava a “ala” de acordo com sua posição social.
Uma delas era trilhada, num sobe-e-desce, pelas pessoas mais aquinhoadas. Jovens das melhores famílias. A “ala” do meio era freqüentada pela classe média. E, finalmente, a última “ala”, lá do outro lado da avenida, era formada por empregadas domésticas e fabris, pedreiros, serventes e soldados.
Isso tudo num ambiente muito normal, sem que, em sã consciência, percebêssemos aquela divisão, algum teor de discriminação.
A última “ala”, lá do outro lado da avenida, digamos, a “terceira classe”, ao lado do cais do córrego, acolhia de vez em quando algum bêbado ou alguém mais afoito buscando uma briguinha. Mas logo, logo, tudo era paz novamente.

...

Já havíamos acostumados a ficar na “ala” dos mais aquinhoados.
Geralmente, a maioria dos rapazes ficavam parados, em frente às portas das lojas, e as moças, em pares, ou em grupos, desciam e subiam a avenida.
Quando o rapaz solicitava a uma moça poder acompanhá-la, e ela permitia, saíam os dois caminhando para outros lugares, normalmente a caminho da casa da moça.
De pé, em frente à porta de uma loja, apreciávamos as moças passarem. Tínhamos por hábito, o nosso grupinho de amigos, ficar sempre no mesmo local.


Eu já tinha atingido a casa dos trintão, trinta aninhos, quando comecei a perceber certas mudanças.
Poucas.
A princípio: mulher usando calça jeans e quédis.
Aqueles lindos vestidos foram desaparecendo, assim como os sapatos com saltinhos mimosos, tipo chanel.
Logo, outras mudanças foram surgindo.
Mulheres dirigindo automóveis, ônibus e motocicletas.
Mulheres, jovens ainda, bebendo mais do que os homens. Se eu compartilhasse uma mesa com elas, numa rodada de cerveja, elas continuariam e eu sairia cambaleando...
Os pais, forçados pela “modernidade”, trabalhavam o dia todo. Não tinham tempo para os filhos.
Os meninos e as meninas alcançavam a fase adulta em menos tempo. Não tinham uma vida saudável na infância.
A mulher atingiu uma tal liberdade, impulsionada, talvez, pelas obrigações da vida moderna, numa disputa desenfreada para manter sua posição alcançada ou mesmo para progredir mais. Ambição, vaidade e egoísmo, em detrimento da vida familiar. A mulher deixou de ser a dona de casa, a mestra, a educadora e foi ocupando lugares antes destinados somente aos homens.

...

A famosa “boite”, na zona meretriz, acabou. Surgiram os motéis, as “garotas de programa” e termos tais como “ficar”, substituindo o antigo ato sexual que a rapaziada da época quando sentia necessidade, afirmava:
- “Vou lá na zona molhar o pinto”.
E naqueles dias, existiam as meretrizes, ou “putas” - como desejarem utilizar o termo -, graciosas, educadas e bonitas, com corpos esbeltos.
Existiam também as “putas” malandras, briguentas, muitas alcoólatras, safadas e mal educadas.
Cada um desses grupos ficava em locais conforme sua índole.
Depois, tudo mudou...
Hoje, até mocinhas de classe média e rica substituem aquelas daqueles tempos. Tudo numa normalidade incrível! Os rapazes procuram e são procurados. Sem nenhum constrangimento.
- “Fulana. Onde você estava?”
- “Eu fui na aula de inglês, passei no shopping, fiz um lanche e vim para casa.”
Na verdade, ela tinha ido “ficar” com ele!


Taio

Depois de muitos anos, lembrei-me da palavra “taio”.
Tentei descobrir sua origem e significado.
Nos dicionários, nada encontrei!
Já são passados muitos anos e nunca mais ouvi alguém dizer essa palavra.
E confesso: nem eu.
Não sei por que, lembrei-me dela hoje, assim, sem mais nem menos.
De repente, acudiu-me na memória e fui vasculhar o passado.
Dias memoráveis de minha juventude.
Naquela época, pertencia a um grupinho de amigos.
Diariamente, encontrávamo-nos para confidências, aventuras e brincadeiras.
Cada qual, à sua maneira, buscando encontrar um flerte, uma alma gêmea, uma namoradinha.
E, não raro, os amiguinhos, curiosos, queriam saber de tudo o que havia se passado com aquele que, antes dos outros, tinha arrumado sua namoradinha.
Sorrisos mateiros, olhares perspicazes.
Sempre juntos, sussurrando comentários.
Ora sérios, ora rindo.
Não havia encontros entre aqueles amigos em que não segredavam a respeito de alguma moçoila.
Era o gostoso tempo dos flertes, dos sonhos, das proezas juvenis!
Nenhum de nós pensava em envelhecer sorrindo!
Não se notava a existência dessa fase da vida.
Nem se cogitava sair da fase juvenil.
O tempo, naqueles dias, para o grupinho de amigos, era bem estável.
Não se pensava no ontem, no hoje ou no amanhã.
Vivíamos o momento!...
Somente mais tarde, meia-idade para frente.
Surgia, de quando em quando, momentos em que meditava a respeito do passado...
A preocupação sobre o futuro...
 
Mas!...
Voltemos ao taio.
Sorrisos matreiros...
Olhávamos uns para os outros e, quase ao mesmo tempo, exclamávamos:
- “Olha o taio!...
E ficávamos embevecidos, admirando, gostosamente, o taio!...
Afinal, naquela época, o que era mesmo o taio?
Simples.
O taio era a perna exposta de uma mocinha.
Sempre surgia alguma usando vestido recortado de um dos lados.
Quando se assentava, suas coxas ficavam expostas.
E nós, olhos arregalados, comentávamos:
- “É mais lindo ver um taio do que uma mulher de biquíni.”
Tínhamos razão em nossa avaliação.
Um vestido rasgado do lado, conforme a moda de um certo período, ou mesmo um vestido um pouco curto...
E não dava outra.
Geralmente, as coxas da moça ficavam expostas.
Hoje, já tendo apagado boas dúzias de velinhas de aniversário, vi um taio.
Ele me deixou extasiado pela beleza das coxas e pernas da moça.
Relembrei daquele “clubinho” de rapazes muito animados.
Até então, sem preocupação com as coisas mais sérias da vida.
Preferiam ver um taio do que uma mulher nua...
Concordo!
Sim, senhor...
O tempo não modificou meu gosto: ver um taio!
É bom.
Mexe com a gente.
Afinal, taio é taio e nudez é nudez!


A cidade

A cidade, como muitas do interior, cada qual com suas origens e fatos históricos.
Dizem que, antes de meu nascimento, muitos anos antes, lá pelos idos do ciclo do ouro, foi uma cidade muito violenta. A febre do ouro, contagiante, levava à opulência e logo após ao fracasso.
Situada numa região onde a escravatura havia pousado com firmeza, o negro era tratado com crueldade. Havia exceções, é claro!
Comentam até que quando um negro adoecia, nenhum tratamento era ministrado. Subiam serra acima com ele e lá do alto o jogavam serra abaixo. Morria, certamente, servindo de alimento para animais e urubus.
Viajantes chegando ao anoitecer eram aconselhados a não entrarem na cidade àquela hora. Deviam esperar raiar o dia.
Na mesma região, contam ainda, que um certo fazendeiro tinha negócios com outros do ramo do Estado do Rio de Janeiro, lá pelas bandas da corte.
Havia uma cava, sem pontes e sem mata-burros, ligando a região diretamente com o Rio de Janeiro.
Pessoas vinham negociar com ele. Compravam o gado, pagavam à vista e partiam. Lá pelas tantas, um bom pedaço de caminho já percorrido, eram assaltados e mortos por capangas do fazendeiro, que retornavam para a fazenda com os animais vendidos. Esse era o golpe do fazendeiro. Ladrão e mandante de assalto e assassinato.
Tantas e tantas outras crueldades aconteciam pela região.
Um certo viajante europeu, em visita, acomodou-se num abrigo. Ele afirmara que nunca tinha estado em um abrigo tão limpo e acolhedor como aquele. Tal foi sua surpresa ao amanhecer quando olhou pela janela e viu mais acima do abrigo um poste com a cabeça de um escravo fincado nele. Ficou sabendo que aquele escravo pagara com a vida a morte de seu fazendeiro.
Tinha até um morro com um nome muito próprio de “morro da forca”. Não por invenção ou arbítrio de alguém, mas sim por que ali mesmo aconteciam os enforcamentos.
Fatos e almas terríveis...
Foi numa cidade desta região que o mundo viu meu rosto pela primeira vez. Eu nascera em data muito posterior aos assassinatos e enforcamentos.
Era, então, já em idade de rapaz, uma cidade como qualquer outra, mas com muita diferença em diversos aspectos. Tornou-se conhecida pela cultura de seus habitantes, por suas festas religiosas, que eram praticadas com mais sentimento material do que espiritual. Missas diariamente em muitas de suas igrejas. Procissões, quermesses... Porém, posso afirmar: poucos conheciam a Bíblia. Da mesma, só tinham conhecimento através de trechos dos evangelhos lidos durante a santa missa.

...

A expressão “pular o muro” era corriqueira. Não era raro conhecer alguém de pele escura com o sobrenome com que outros foram registrados. E o “zum-zum” corria solto:
- “Fulano é filho de sicrano que havia pulado o muro e lançou sua semente na mulher do sicrano de origem abastada.”
E assim, pessoas de renome na política, nos negócios e na cultura tinham, por certo, filhos bastardos que quase sempre tinham a índole melhor do que os filhos legítimos, fato que tanto meditei a respeito, buscando o porquê.

...

Como em todas as cidades antigas, os casos e histórias da própria cidade e de seus habitantes somavam centenas e centenas... Cada cidadão, de pai para filho, tinha uma determinada história para contar. Algumas gozadas. Outras não. Histórias muito arrepiantes, testemunhas do que o homem consegue fazer no campo real da maldade!
Sim. Como toda cidade, tinha sua história, sua cultura e seus políticos, antigamente mencionados para comprovar seu poder eleitoral como “donos do curral”.  E esses “donos de curral” tinham um princípio: se a cidade cresce e seus habitantes passam a ter melhor instrução, maior conhecimento, o seu “curral” pode ser aberto. Por isso, era área que não desejavam que prosperasse.
E seu domínio como “dono de curral” atravessava anos.
Os políticos, aqueles de maior peso de poder, tinham seus inimigos, também políticos, razão pela qual a cidade também tinha “capangas”, que obedeciam fielmente a seus “donos”.

...

Também ouvi dizer que, numa determinada rua, tinha dois cafés. Um freqüentado pelos políticos da situação e o outro pelos políticos da oposição.
Vez ou outra acontecia um tiroteio entre as duas facções, tendo como fortim os cafés daquela época.
Um delegado de polícia muito temido.
Um sargento da polícia militar, fardado, também temido.
Um soldado não menos temido.
Os três controlavam a violência. Extrapolavam suas funções a mando de algum coronel da política, que bastava dizer:
- “Prende o fulano e dê um corretivo nele.”
Pessoas antigas, residentes nas proximidades da cadeia, ouviam periodicamente os gritos de algum preso, político ou não, durante toda a noite.
O castigo, um deles, era o famoso “pau-de-arara”.
O Juiz de Paz tinha também a incumbência de testemunhar casamentos.
Sim, também!
Corria de boca em boca que o padre fulano tinha um caso com fulana e que o fulano de tal era filho do padre tal.
Histórias de fantasmas sempre povoavam as cabecinhas dos meninos muito traquinas. Qualquer arte conhecida e lá vinha o pai ou fulano encher a cabecinha do menino com uma história de fantasma ou assombração.
A malha rodoviária era precária. Por isso, viajar era um acontecimento de real grandeza. Ah!... Fulano foi até o Rio.
Transporte? Só um: o trem que, embora todo esforço, não obedecia a horários. Tinha os vagões para passageiros, de primeira e segunda classes, e os vagões de carga.
O comércio dependia, pois, do único meio de transporte: o trenzinho, como era conhecido carinhosamente, talvez pelo grande serviço que prestava ao povo.
E ele ia longe. Muito longe. Para a capital, Rio de Janeiro, e para o oeste.
Havia baldeações. O trem ia para o Rio até uma determinada cidade e, de lá, as pessoas mudavam para outro trem de bitola mais larga.
Poucas pessoas podiam se dar ao luxo de estudar em outros centros. E quando alguém recebia o diploma de médico ou advogado era uma festança! Todos iam esperá-lo na estação. Amigos e familiares.
Aliás, era costume e lazer das pessoas esperaram outras que vinham no trem. E, geralmente, o trem se atrasava, e muito! O pessoal, esperando na estação, ficava ansioso, olhando sempre para aquele lado em busca do trem que não chegava.
Naquela época, todas as estações ferroviárias, com raras exceções, tinham um café, um cômodo em que serviam: café, biscoitos e alguma coisa a mais.
Em certas estações, o serviço era bem melhor. Um lauto almoço em estação considerada estratégica para o estômago.
Determinadas pessoas eram esperadas com banda de música, como equipes de natação e de futebol, ou mesmo autoridades em visita profissional ou de cortesia.

...

Numa outra fase da vida de minha cidade, já se percebia, pela minha geração, que ela passava por algumas transformações. Boas algumas e ruins outras.
Daqueles velhos tempos de nossos bisavós e talvez bem antes, só restaram as histórias que, de vez em quando, ouvíamos ou líamos a respeito. Mais ouvimos do que lemos. E os mais velhos já tinham histórias mais recentes, de sua juventude, para contar, sempre seguidas pelo refrão: “tempos bons que não voltam mais. Tudo era bem diferente, melhor.”
Não tinha mais o famoso fogão à lenha e nem o ferro de passar roupas. Colocava-se o braseiro em seu interior e, de quando em quando, soprava-se por uma cavidade em seu traseiro para avivar o fogo.
Mas tinha ainda as carroças puxadas por burros ou cavalos. Vendedores ambulantes de dobradinha e mocotó em vasilhas num tabuleiro em cima da cabeça.
Tinha as lavadeiras, cada qual com seu cantinho à beira do córrego.
Tinha bandas, cinemas, sorveterias, figuras populares, colégios, moças e rapazes em regime de internato ou externato.
Tinha muita paz e segurança que, de anos em anos, bem espaçados, eram quebradas por algum acidente, algum crime.
Bandas de música, coreto, campos de futebol, igrejas e padres de diversas ordens, sobressaindo os frades franciscanos e as irmãs.
Tinha padeiro entregando pão cedinho. Alguns deixavam o embrulho de pão dependurado na janela.
Empregados de armazéns que passavam, em período certo, nas casas anotando os pedidos. Mais tarde, voltavam com os gêneros e outras coisas mais dentro de uma caixa de madeira.
Automóveis? Mais ou menos uma dúzia, de marcas diferentes.
Tinha clubes, pinguços e pessoas vendendo jornais e revistas para adultos e trazidos numa espécie de sacolas dependuradas nos ombros.
Muitas frutas. As mangueiras, cada qual mais bonita e, na época certa, carregadas de mangas, de várias qualidades. As mangas eram o fruto predileto para a rapaziada que não comprava, roubava. Era um lazer o roubo de frutas.
E tem mais!
Dizem os mais velhos que havia mais de uma dezena de chácaras em nossa cidade. Todas próximas ao então perímetro urbano.
Hoje, aquelas chácaras deram lugar a construções.
Novos bairros surgiram para substituí-las.
O que fizeram com as mangueiras?
Já não as vejo mais !
O que fizeram com as chácaras?
Foram substituídas por moradias!
O que fizeram com tudo o mais que significava quase uma felicidade completa?



E, durante o entardecer, quando donas de casas, vizinhas, saíam para fora das residências, para o “bate-papo” costumeiro, cada qual ocupando um lugar no banco, na calçada ou em cadeiras existentes para esse fim...

...

O que aconteceu com esse modo de vida tão gratificante?
O progresso...
O progresso.
Vão afirmar!
Se por um lado o progresso é abençoado; por outro, é maldito!...
Crianças correndo pela pracinha. Papagaios bem no alto, parecendo atingir as nuvens!
Não mais existem.
Ciranda, cirandinha, pula carniça, jogar pião, passar anel...
O que houve com as gerações novas?
Todas aquelas brincadeiras do passado não mais interessam! Somente a nós, os mais velhos. Sentimos, até hoje, como eram significativas aquelas brincadeiras...
Obrigado, meu Deus, por estar sempre buscando lá no baú de meu passado momentos tão lindos!...
Alguém disse que “o passado é uma roupa velha que não serve mais”. Porém, tenho a convicção de que o passado é como uma roupa velha. Sim, mas é alicerce para o futuro. Sem passado, não há futuro. O romancista inglês E. M. Forster, certa feita, declarou:
- “Quando um de nós olha para o passado, as portas se abrem para a escuridão.”
Não creio!...
Quando revejo algumas passagens, medito e tomo decisões mais sábias, buriladas pelos fatos do passado.
No meu passado, mesmo repleto de fatos desagradáveis, não vejo escuridão, mas tão somente lições que me ajudam no presente!
Naqueles tempos, não tinha tanto barulho. Havia mais amizade, mais amor, mais fraternidade...
Ambição? Sim. Existia. Porém, não como hoje. Desenfreada! Desenfreada, lembrando aquela frase: “é o tipo que, para vencer, sobe nas costas do colega”.
Isso, hoje em dia, é muito comum. Não existe mais ética. Muito menos respeito pelo colega, respeito pelas limitações do outro. Tudo ficou muito diferente!...
O sentido espiritual da vida perdeu seu significado. Sobressai-se o sentido de que todo objetivo da vida corre bem juntinho com o lado material. Não importa o quê e quanto. O objetivo é alcançar o desejo, nada espiritual, de ver e sentir seu egoísmo vencer tendo como conseqüência maior volume de orgulho!
E a vida continua.
Debalde todas as conquistas, o materialismo impera drástica e fulminante.
Lavadeiras lavando roupas, meninos lavando o corpo em poços limpos, bonitos, formados ao longo do córrego. O mesmo córrego que em épocas de chuva transbordava, carregando monturos, sujeiras que desciam leito abaixo...
- “Vamos nadar?”
- “Sim.”
E lá íamos nós, subindo o córrego já tranqüilo após ter transbordado, ficando completamente limpo, em suas margens e em seus poços.
Nadávamos pelados.
Não nos enxugávamos.
Secávamos sob o calor do Sol!
Nada planejado minuciosamente. Porém, tudo feito com muita graça, muita determinação, muita alegria de todos nós, crianças de calças curtas e pés no chão!


Como me disse um amigo:
- “Se não tivermos outra vida, estamos ‘fudidos’”!
Após certa idade, acordamos diariamente com dor em alguma parte do corpo.
É, se não houver outras vidas, estamos mesmo “fudidos”.
Sinto, a cada dia, o cansaço chegar.
E contra ele pouco me resta...
Não era assim.
Eu acordava e nem queria saber como estava o tempo. Chuva. Sol. Frio. Tudo era farra! Disposição de quem queria pegar boi truculento na marra!
Hoje, corro até de coelho.
Correr? Nem isso. Paro e espero.
“Se correr o bicho pega, se parar o bicho come.”
Eu paro.

...

Estou de “saco cheio”. Encheu. Tá transbordando!
Astral bem baixo. Pouca auto-estima.
Penso e repenso.
Tantos trabalhos iniciados. A maioria ficou inacabada.
Parei. Não suportei os problemas. A maioria deles provocados por outros.
Iniciava um tipo de trabalho, em uma área de atividade e, dia após dia, problemas e mais problemas.
A coisa não “andava”. E como aprendi bem a lição: “se errar é humano, permanecer no erro é burrice”.
Eu, após hesitar, esperar e hesitar, parava...
Tô prá baixo mesmo!
Como pai, um fiasco.
Como jornalista, medíocre.
Escritor, nem falar.
Cronista, ultrapassado.
Outros tantos diplomas e muito estudo ficaram boiando, esquecidos...
Amigos? Pouquíssimos.
A maioria debaixo da terra. Mortos. Não os tenho.
Não subo mais a serra.
Não nado, perdi a vontade.
Não dirijo carro.
Não viajo.
Não passeio.
O que tenho sido?
Sei lá.
Um pagador de contas. Tesoureiro da família, talvez!
Não tenho religião ou crença fixa. Não sou lá de freqüentar igrejas. Gosto de sentir que minha “igreja” é a minha consciência e tudo de bom que faço ou pratico.
Não posso mais apreciar um bom vinho, nem a cerveja das horas amigas.
Larguei o cachimbo.
Não posso ter, em meus braços, uma dessas moças lindas.
Não namoro e nem caso.
Sou casado.
O namoro constante devia ser parte da vida.
Não sou leviano, mas sempre achei melhor cultivar a liberdade...
A liberdade sadia, consciente.

...

Estou num bar.
Observo pessoas conversando numa mesa.
São amigos.
Só agora dei-me conta, com certeza absoluta.
Estou só.
Os amigos de outrora? Não sei.
Morreram.
Os tempos são outros.
Não existe mais a convivência pacífica familiar.
Jovens bebendo em excesso.
Pouca responsabilidade assumem.
O uso de drogas se alastrou em todas as classes familiares.
A base, o alicerce, da família é frágil.
Afinal, o que está havendo comigo?
Preciso saber lidar com meus sentimentos.
Sim. Principalmente os negativos.
Para levantar minha auto-estima.
Se acabou o vínculo familiar sadio e surgiu a total liberação entre os jovens em tudo: no sexo, nos modos; enfim, em tudo realmente, não tenho por que me sacrificar abaixando meu astral!
Mas...
Mas não posso mentir para mim mesmo.
A palavra e o significado do “quase” foram uma constante em minha vida.
O “quase” me persegue até hoje.
Eu “quase” consegui...
Eu “quase” venci...
Eu “quase”...
“Quase”... “Quase”... “Quase”...
Sempre “quase”!
“Quase” fui aquilo.
“Quase” fui lá.
Por mais esforço, o “quase” está presente constantemente!
É uma cruz!
Vira e mexe, surge um pensamento: entregar os “pontos”, “jogar a toalha no chão do ringue”...
Mas como entregar os pontos?
Morrer?
Ficar imobilizado?
Largar tudo e sumir mundo afora?
Sinceramente, não sei como.
Mudar a sintonia, a vibração?
Aceitar-me exatamente como sou?
É...
Se não houver outra vida e no caso estou pensando no tão famoso e decantado céu, estou é mesmo “fudido”, como disse lá o meu amigo...
Ou, como diz o outro em situações desagradáveis: “órfão de pai e de mãe”.
Manter contato com autores de livros de auto-ajuda?
Eles vão me ensinar a ser feliz e solucionar tudo o que me desagrada?
O melhor livro de auto-ajuda que já li se resume no Sermão da Montanha.
Já li e continuo nesse estado de baixa estima.
O resto é “merda”.
Como alguém disse: “muita picaretagem”...
Ensinar alguém a ser feliz no amor, a “ganhar dinheiro rápido” e outras besteirolas...
Pura enganação!
Cada qual tem sua vida e problemas a serem solucionados, vividos, sofridos por si só, por cada ser humano.
Como sou um deles, tenho de conviver assim mesmo, desse jeitinho...

...

Repasso o olhar por todos os cômodos do térreo onde tenho o escritório.
Lamentável!
Levamos anos para ajuntar tanta bobagem, quinquilharias, papéis, livros e outros bagulhos que não nos levarão a lugar algum.
É um absurdo! Penso eu.
Sinto-me ruim.


Estou me isolando de tudo e de todos.
Tenho andado só.
Pouco converso.
Ando pelas ruas sempre pensando.
Pensando ou conversando comigo mesmo.
Observo muito.
Tudo e todos.
Meu senso crítico, embora não ferino, está aguçado.
Tudo é tão diferente do passado.
Não vivia um minuto atrás nem um minuto à frente.
E simplesmente vivia.
Planos também não fazia.
De vez em quando, andando e pensando, lembro-me de certas passagens que, na minha infância e juventude, ficaram marcadas.
De cócoras, na roça, fazia necessidade, tendo como cúmplices moitas enormes de bananeiras.
Não fica ruim registrar tal fato.
Todo ser humano, homem ou mulher, tem necessidades fisiológicas e, dependendo de onde estão, é ali mesmo...
E o primeiro beijo.
A inocência presente.
Eu sempre “arrumadinho”.
Ela também.
Pouco ou nenhum dinheiro no bolso.
Encontrávamo-nos em determinado local lá pelas sete da noite.
Dávamos umas voltas e retornávamos para o mesmo local.
Mãos dadas.
Conversávamos sobre pequenas futilidades da idade da transformação de menino e menina para jovem.
Nenhum dos dois chegava atrasado.
Pontualidade.
Foi ali, encostados naquele muro daquela residência, ao anoitecer, lá pelas nove.
Antes eu disse:
- “Não sei beijar...”
E ela, pronta e suavemente, respondeu:
- “Eu também não sei.”
Beijamos.
Como, eu não sei!
Não me recordo como foi, mas sinto ainda o cheirinho gostoso e inesquecível de seu perfume e do perfume de sua maquiagem.

...

Ah, sim!
Macarronada.
Lembro, perfeitamente, em casa, oito irmãos, pai e mãe.
Um dos bons dias era o domingo.
Dia de macarronada, de frango, de refrigerante e de matinê.
Não como mais frango com as mãos.
Nem o gosto do frango é o mesmo.
A macarronada ou tutu também não têm o mesmo gosto.
Foi tudo embora com os dias que já estão bem longe, muito longe!

...

Do primeiro beijo, mudei para macarronada.
Sim.
Por enquanto não quero prosseguir lembrando fatos depois daquele primeiro beijo.
Deixo para depois as emoções com elas.
Houve outras, sim.
Depois eu conto!


Somente meus olhos vêem o envelhecer de conhecidos, amigos e parentes.
Somente meus olhos enxergam o meu envelhecer.

...

Novamente, penso nela...
Velhice!
Ah! Velhice!
Chegas sorrateira e silenciosa, sem que a gente perceba.
Hoje, mais do que em outros dias, sei que ela já chegou e pousou em mim.
As dores no corpo, o desgaste de suas “peças”, denunciam.
E ela, a velhice, já não se importa se gosto ou não.
Ela chegou e assumiu seu lugar.
E o pior são os pensamentos e a dor íntima do egoísmo corroendo ainda mais.
Serei mais um, entre milhões de seres humanos, a deixar de viver sem nada ter construído para a posteridade?
Mais um anônimo?
Só mais um?
A fama surge simplesmente para alguns.
Por mais que a procuremos, mais longe ela estará.
Ela surge assim...
Tenho vários sonhos para realizar há muito tempo.
Sempre tive sonhos e não concretizei algum.
Se realizei não tive o prazer de senti-lo.
Deveria ter sido miragem que vinha acalentando com desejo de realizá-lo.
Bastaria só um sonho, penso eu agora.
E persistência para atingi-lo.
Chegaria um dia em que eu o tornaria realidade.
Mas não.
Tive muitos, muitos sonhos, e igualmente muitas decepções.
Venho colecionando decepções.
Uma após outra!
Estamos em período eleitoral.
Já participei como mesário durante a votação.
Foi uma honra para mim.
Hoje, isso nada significa!...

...

Enfrentei, durante quase um ano, o câncer.
Vencemos!
Hoje, luto contra a polineuropatia aliada a um certo grau de depressão.
Enfrentei outros males também.
O fumo tem vencido meu desejo de largá-lo.
Este vazio interior, a sensação de “baixa estima”, não é bom!
Dá vontade de parar.
Ficar bem à toa.
Nada fazer.
Não ler mais.
Não escrever.
Passar os dias observando tudo.
A natureza...
As pessoas...
Tive toda uma vida para ler, brincar e conversar com a família e deixei de fazer.
Estava sempre ocupado com outras coisas: trabalho, outras pessoas.
Hoje, estou como o Sol no horizonte: indo...
E não é agora, já tarde, que vou conseguir o que não obtive durante todos os anos passados.
Já não quero ser mais um ator nessa imensidão de autores anônimos que passaram a vida lidando com lápis, caneta e papéis.
Não desejo ser responsável por mais um livro entre milhares de outros não lidos, relegados, de qualquer jeito nalgum canto da casa, empoeirados num baú, num porão ou em algum móvel velho.


Tentei muito.
Comércio, profissão liberal, política, chefe de família...
Muito mais!
Creio que nunca tive um objetivo maior, desde cedo, para persegui-lo ao longo dos anos.
Não percebi as oportunidades que passaram por mim.
Várias.
Alguns defeitos de caráter não permitiram.
Não as enxerguei nos momentos propícios.
Terei feito, naquelas ocasiões, as escolhas erradas?
Falta de apoio em algumas decisões?
Pouca experiência?
Faltou-me o carisma necessário, mormente no âmbito político?
Faltou-me persistência?
Vontade de vencer?
Má comunicação?
Excesso de fidelidade não correspondida?
Ou faltou-me maior interesse?
Mau raciocínio a respeito dos passos a serem dados?
Deixei-me levar pelo “deixe como está para ver o que acontecerá?”
Não tive bons professores?
Em inúmeros projetos sociais, políticos e profissionais, sempre entrei ou saí na hora errada.
O lugar, impróprio.
Faltaram persistência e sabedoria.
Nunca fui muito bom em tomar decisão.
Deixava-me ser levado pelas circunstâncias.
E aquelas circunstâncias me trouxeram a um presente em que me sinto vazio, sem perspectivas para o amanhã.
O amanhã será como o hoje?
Nem mesmo, quando jovem, num “puteiro”, podia escolher.
Pegava aquela à disposição.
Nem sempre simpática.
Somente uma vez simpatizei-me com uma.
Fiquei com ela por algum tempo.
Depois, sem saber o porquê, sumiu.
Desapareceu de vista.
Nunca mais a vi.
Estava servindo ao exército.
Ia para lá  à noite, com farda de passeio.
Entrava na “boite”, ia direto para o seu quarto e aguardava até quando a casa ficasse vazia.
Era quando ela entrava para o quarto, para a minha companhia.
Na manhã seguinte, vestia a farda de serviço, colocava a de passeio na bolsa e ia para o quartel.
Bons tempos.
Todos as mulheres daquele “puteiro” eram limpíssimas!
Mais limpas do que muitas moças de hoje.
E muito, muito educadas.
Muito gentis.


Não me lembro, quando criança ou rapazinho, de alguma vez ter sentido calor ou frio.
Sempre ocupado com as brincadeiras, traquinagens e aventuras, não percebi nem ao menos algum suor em qualquer parte do corpo.
De tantas e tantas outras coisas, recordo-me perfeitamente.
Das mangueiras nas hortas dos vizinhos, das tamareiras, das cachoeiras, dos lindos poços para nadar no hoje extinto córrego.
Chuva?
Cansei de me molhar durante os períodos de chuva.
Nunca adoecia.
Nem dor de garganta, nem febre, nem resfriado!...
As peraltices serviam e muito bem como vacinas contra tais males.
Sim, senhor!
Graças ao meu dia-a-dia de bagunças infantis, fiquei imune.


Ele nunca, em sua vida profissional, teve a intenção de concorrer com seus colegas, buscando a simpatia das chefias.
Muito menos teve, em momento algum, a idéia de ser “puxa-saco”.
Entretanto, todos concorreram com ele.
A maioria das vezes de maneira desleal, deixando-o mal, sem ao menos ele perceber.
Só mais tarde, meditando, pôde constatar o quanto serviu de “tamborete” para que subissem e galgassem postos melhores.


A fé, aprendi.
É a certeza do que não vemos.
Acreditar em Deus é uma questão de fé.
E a fé é um dom de Deus, como está registrado em Hebreus, 11.1.
Aceitar, pois, a subordinação a “Algo” onipotente e onipresente...
Mas e o livre-arbítrio?
Aceitar ou não aceitar é uma responsabilidade somente nossa.
Somos insignificantes na imensidão do universo.
Porém, somos um universo ao mesmo tempo com tamanha imensidão à medida que pesquisamos nosso corpo, célula por célula, e na divisão infinita de cada célula.


Numa carta à escritora Clarice Lispector, dando conselhos para a garotinha (na época) Andréa Azulay, filha de seu psicanalista Jacob David Azulay, afirmou:
- “Desejo-lhe que nunca atinja a cruel popularidade porque esta é ruim e invade a intimidade sagrada do coração da gente. Escreva sobre ovo que dá certo. Dá certo também escrever sobre estrela. E sobre a quentura que os bichos dão à gente.”
Andréa seguiu a profissão de advogada.


Remexendo aqui e ali, olhando fotos antigas, revivendo o passado, sinto um nó na garganta.
Vontade de chorar.
A emoção, a saudade de ver os rostinhos alegres dos filhos é grande.
Quase não suporto.
Já são maiores.
Perdi momentos lindos que poderia estar ao lado deles.
Não consegui, nem mesmo pensei, em consolidar o crescimento deles imbuído dos mais finos e convictos propósitos.
Fui como uma nau.
Sem rumo, sem leme...
Sendo levado pelo vento ou parando com a calmaria.
O leme não existiu.
E como este barco, sem destino, sem trajeto bem traçado, fomos passando pela vida.
E eu, como comandante despreparado, sem visão e com uma boa dose de egoísmo!
Pensei muito em mim e pouco neles.
Até mesmo os cães que tive viveram sem a devida educação e sem um objetivo maior por eles estarem ao meu lado.
Passaram-se os dias num barco sem velas...
Ao sabor das ondas!
Por que fui assim?


Tenho a convicção de que para o escritor escrever bem e ser criativo, ele deve sempre buscar aventuras e amores, conhecer o desconhecido, procurar ouvir muito e, sobretudo, observar, participar e viver intensamente cada momento, sem se preocupar com o amanhã.
Lembro-me bem de um amigo, um jornalista.
Boa praça!
Num de seus “repentes”, usando-me como seu confessor, declarou-me, em confissão:
- “Em minha vida, sempre paguei por tudo. Não ganhei nada, a não ser a honradez e o estudo proporcionado por meus pais.”
E disso ele se orgulhava, considerando seus pais como sábios.
Mas afirmou-me:
- “Deverei também pagar pelo carinho, pelo amor de uma mulher, de uma companheira? Até quando?” Concluiu ele.
- “Não sei.” Respondi.
E ele, com voz tranqüila e suave, continuou:
- “Eu acho que devo sempre buscar novos amores. Não me deixar ficar limitado a somente uma mulher. Acho que é da índole do homem estar sempre buscando...”
A mulher, não!
É menos egoísta.
Geralmente, basta-lhe um só homem!
Acho que sim.
Continuo.
Certeza não tenho, pois a mulher hoje anda tão diferente.
Não fica mais, como a do passado, na direção do lar, responsável pela educação dos filhos.
Hoje, quer disputar com os homens, ultrapassar seu limites como mãe, entrando em áreas até então consideradas exclusivamente masculinas.
Essa é a minha conclusão.


Não sei, exatamente, por que essa vontade de escrever e muito.
Escrever bem.
Nunca tive paciência para ler livros.
Principalmente aqueles mais grossos.
Hoje leio.
Porém, pouco.
Em minha infância e juventude gostava de ler gibis.
Engolia as revistas com muita atenção.
De uma só arrancada conseguia ler mais de dez gibis.
Assentava de qualquer jeito, em qualquer lugar, com aquela quantidade grande de gibis.
Ia digerindo um a um, sem parar.
Geralmente, escondido.
Nossos pais não viam com bons olhos os gibis.
A desculpa mais forte era que o gibi tirava a nossa atenção dos estudos.
Creio que tinham razão, pois eu deixava os livros escolares de lado para ler os gibis.
Lembro-me de uma vez que fui até a casa de um colega, um vizinho, pedir-lhe um gibi emprestado para ler.
Ele trouxe para mim uma pilha deles.
Pediu licença e entrou.
Em vez de ir para outro lugar para ler, assentei lá mesmo naquela varanda e fui consumindo freneticamente gibi atrás de gibi.
Bons tempos aqueles em que prejudiquei os meus estudos escolares para dar guarida em minha mente aos conteúdos dos gibis.
Hoje, leio pouco.
Também não publicam gibis como antigamente, coloridos, com personagens simpáticos.
Os de hoje trazem personagens esquisitos.
Logo, vou pensando: é a “modernidade” que atinge os gibis que não são mais chamados de gibis, mas sim de revistas.


Ah!...
E tinha mais!
Aprendemos a acender vela e deixar cair em cima das figuras, personagens.
A vela derretida que, quando endurecida, era cópia da gravura colorida.
Era o máximo!
E isso quase sempre sem estragar o gibi.
Não sei por que naquela época o gibi era malvisto pelos pais e, hoje, as revistas que sucederam os gibis não são, embora tenham qualidade e conteúdo piores.
Como antigo e ex-leitor dos gibis, posso garantir que o atual modelo na “área” não me agrada!...
Como escrevo?
Simples.
Escrevo um pensamento, uma linha, sem ter nenhum enredo preconcebido.
Daí por diante, vão surgindo frases relacionadas umas com as outras.
À medida que vou escrevendo, vão surgindo as idéias, formando um enredo.
O final?
Nunca sei qual será.
Ele surgirá...
E vou prosseguindo, dia após dia, tecendo uma colcha de pensamentos interligados.
Assim, prossigo até encontrar o meio e o fim!

Não.
Você está enganado.
Não vai morrer.
Por enquanto.
Não com câncer no pulmão.
Seria menos penoso.
Vamos lutar juntos!
É cedo.
O caminho é mais longo.
Caminhar...
Caminhar e não se preocupar.
Sua hora chegará.
Karuk
Enviado por Karuk em 31/07/2006
Código do texto: T206366
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Sobre o autor
Karuk
São João Del Rei - Minas Gerais - Brasil, 76 anos
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