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MARCADA - Capítulo VIII

     Continuei meu trabalho. Quando voltei encontrei uma notícia que me animou bastante.

     - Cristina! Tem uns três dias que vem um rapaz aqui e pergunta por você. - falou Ana.

     - Um rapaz? Me procurando?!

     - Sim! É um rapaz alto, dos olhos verdes, muito bem vestido, lindo!

     - Ah! Deve ser o João Netto. - falei com um ar que não havia me importado, mas meu coração bateu bem mais forte.

     Queria muito que ele voltasse. E voltou.

     Às três horas da tarde, estava na cozinha fazendo salgados, quando "seu" Ariovaldo entrou e me disse:

     - Cristina, tem um rapaz aí te chamando, e vou lhe adiantando que não admito namoro no horário de trabalho! - falou com arrogância.

     - Não é namorado "seu" Ariovaldo, eu mal conheço!

     - Não parece! Estes dias que esteve fora, perguntava por você todos os dias.

     - Desculpe, "seu" Ariovaldo! Esta será a última vez que ele me procura, te prometo. - falei lavando as mãos, doida para ver João Netto.

     - É bom mesmo, senão vais conhecer o "olho da rua".

     "Seu" Ariovaldo era muito bom, mas também muito sistemático e às vezes sem educação.

     Quando apareci detrás do balcão de lenço na cabeça, cheirando a alho...

     - Cristina!!! Como é bom te ver.

     - Eu não posso falar com você aqui! Hoje não vai haver movimento à noite, por ser segunda-feira, então você me espera na porta, às sete horas. - falei já voltando para a cozinha, deixando-o sem dar-me resposta. Só vi quando acenou para mim com um tchau.

     Fiquei tremendo e meu coração parecia que ia "sair pela boca". Senti uma grande emoção como não havia sentido antes. Já havia sentido inúmeras emoções, alegres quando tínhamos papai e tristes depois que o perdemos. Às vezes tiro horas a pensar como foi possível acontecer aquela tragédia com papai... Se não estivesse acontecido, teríamos sido mais felizes. Mas tudo acontece conforme a vontade de Deus e temos de aceitar, porque se ele deu-nos esta provação é que sabia que íamos suportar.

     Trabalhei aquela tarde na emoção que tomou conta de mim.

     Chegou finalmente às seis e meia, hora que iria me arrumar para ir para casa. Eu sentia emoção e medo ao mesmo tempo, o medo que me acompanhava sem saber o porquê.

     Tomei banho, soltei o meu cabelo e sai.

     Meu coração desparou. João Netto não estava a minha espera. Meus pensamentos me absorviam. Eu andava para a parada de ônibus, tão distraída que não vi uma pedra, tropecei e cai. Qual não foi a minha emoção quando alguém me ajudou levantar... Era João Netto. Fiquei com muita vergonha e feliz.

    - Pensei que não viria. - falei batendo a roupa que sujou.

     - Você se machucou, Cristina?

     - Não, João Netto!

     - Claro que viria! Estou louco para conversar com você. Vamos, meu carro está ali. - falou João Netto apontando para o estacionamento.

     - Não, João Netto, eu vou de ônibus todos os dias, se eu for hoje com você de carro, estarei sempre com preguiça de tomar o ônibus. - falei muito tímida. Nunca havia entrado em carro de rapaz nenhum. Achava que era feio moça ficar conversando em carro de rapaz. Mas com tanta insistência de João Netto, acabei entrando em seu carro.

     Conversamos muito, primeiro ele falou:

     - Cristina, fiquei fascinada quando notei você naquela lanchonete. Você brilhou. Você sinceramente é uma moça diferente. O que tem de diferente em você? Tão jovem e já batalhando, trabalhando em lanchonete, um trabalho cansativo, sem horário específico? Por que você não tenta um serviço mais fácil?

     - Ah! João Netto, eu vou precisar de muito tempo para lhe contar minha vida. O por quê que eu parei de estudar...


     Contei-lhe tudo o que me aconteceu.
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 02/08/2006
Código do texto: T207658
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Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4029 leituras)
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