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MARCADA - Capítulo XI

     João Netto foi mudando a cada hora, a cada minuto. Foi se tornando um verdadeiro monstro. Ele fazia tudo quanto era barbaridade comigo.

     Há uma semana de casada já não agüentava mais.

     - Vamos embora! Eu não quero mais ficar aqui. Você me surpeendeu João Netto, nunca imaginaria que você fosse este monstro que é!... - fui interrompida com um empurrão que me jogou com a mair violência em cima da cama.

     - Cala a boca! Senão eu lhe arrebento a cara!

     - Por quê? Por que você faz isto comigo, João Netto? Você não me ama? Onde está o João Netto que eu conheci? - falei em prantos.

     - Só sabe chorar! Pára de chorar, você agora é minha mulher, agora eu vou me vingar... - falava e arregalava os olhos para mim fechando e abrindo a mão como um louco.

     Consegui passar aqueles malditos dias sozinha ao lado daquele monstro. Dava graças a Deus quando ele saía e passava o dia todo fora e me trancava no quarto daquele hotel que ainda hoje tenho recordação de cada detalhe. Era um quarto grande, as paredes eram pintadas de cor-de-rosa, tinha geladeira com todos os tipos de bebidas, armários azul claro, as cortinas com listas rosas e azuis. João Netto trancava-me e trancava também as janelas do quarto. Ficava horas e horas olhando pelo vidro fechado as pessoas andando pelas ruas. Eu queria sumir, queria morrer...

     Finalmente chegou o dia de voltármos. No caminho ele sempre me falava:

     - Se você falar alguma coisa a alguém, você pode considerar-se morta, eu te mato!

     Não agüentava nem olhar para João Netto, ele mudou até a fisionomia. Não era mais aquele rapaz  bonito, de olhos verdes. Deus que me perdoe, mas parecia o verdadeiro Diabo.

     Chegamos em Goiânia, estavam todos a nossa espera. Estavam todos muito alegres.

     Quando chegou, era o mesmo João Netto que havia saido: amável, prestativo. Eu não conseguia acreditar. Será que fora um mal passageiro?

     Fomos para o apartamento que iríamos morar com uma esperança que fosse um pesadelo.

     Chegamos, fiz o jantar. Jantamos sem trocarmos uma palavra. Terminamos de jantar, eu fui arrumar a cozinha e ele saiu.

     Chegou dona Gilda.

     Eu a recebi muito tristonha.

     - O que foi, minha filha?

     - Nada, dona Gilda! Nada! - falei olhando para outro lado para não encará-la.

     - Eu sei o que está se passando, Cristina!

     - Se sabe, porque não me avisou antes que eu caísse nessa telha de aranha? - falei com tom agressivo e chorando.

     - Eu vou lhe contar tudo. Talvez você entenderá.

     Sentamos no sofá e ela foi contando-me tudo.

     - Minha filha, você acha que eu não sofro com isso? Eu sofro muito de ver meu fiho nessa situação e você que a considero como filha. João Netto é o caçula da família. Sempre foi cercado de muito mimo, pois de Gilberto para ele se passaram doze anos. Ele chegou como o rei soberano sobre todas as coisas. Tudo que ele queria, nós fazíamos sacrifícios de todas as maneiras e acabávamos fazendo o que ele almejava. Como você sabe, nós temos estabilidade financeira, mas não somos ricos. Bem, com o passar dos anos João Netto foi cada vez mais tomando conta de nós. Estudou nos melhores colégios do Rio de Janeiro. Formou-se em contabilidadena Universidade Gama filho, foi um dos melhores classificados no final do curso. Logo em seguida começoua trabalhar no Banco do Brasil, era um dos melhores funcionários. Começou a namorar com uma moça de Ipanema, morávamos em Copacabana. Neste tempo pediu-lhe seu pai um carro zero quilômetro. Otacílio não tinha o dinheiro todo para compar-lhe o carro, mas fez um empréstimo e comprou-lhe o carro. Já namorava com Sandra há seis meses. Ele era louco com ela. Ela também jurava-lhe muito amor e resolveram se casar. Resolveram da noite para o dia. Exigiu de Otacílio um apartamento montado. Otacílio falou que ainda estava pagando o carro, mas ele não quis saber. Juntaram-se Otacílio, Gilson e Gilberto e compraram o apartamento e o mobiliaram. Entregaram prontinho, a sorte é que ficou em nome de Gilson. Marcaram o casamento. Nem eu nem Otacílio gostávamos de Sandra. Era muito moderna e sabíamos que não iria dar certo aquele casamento. Otacílio era aposentado, pois sofria do coração e não podia mais trabalhar. Era muito nervoso por ficar quieto em casa e ficou mais doente anida depois desse noivado de João Netto. Faleceu antes do casamento. Eu fiquei desesperada, pois dávamos muito certo. Todos os filhos e noras choravam muito ao caixão, enquanto João Netto se perdia em abraços e beijos com Sandra. Quando Otacílio faleceu faltava exatamente um mês para o casamento. Muitas e muitas vezes tentávamos eu e os meus outros filhos convecê-lo que aquele casamento não iria dar certo, mas ele só sabia nos xingar e falar que não queríamos o casamento dele e sua felicidade, pois ele amava Sandra, ela o amavam e iam se casar querendo nós ou não. Eu não queria aquele casamento por João Netto ser tão novo e Sandra não tinha nenhuma qualidade adequada a uma moça que iria contrair casamento. Não respeitava os pais, nem as pessoas mais velhas, era cheia de vontades... Chegou o dia do tal casamento. Para mim era uma grande triteza, pois sabia que aquele casamento que apressou a morte de Otacílio. Tudo para mim era triste, mas fui à igreja. Estávamos no altar esperando a noiva que depois de uma hora e meia de atraso chegou. Eu não gostava de Sandra por isso não a achava bonita, muito pelo contrário, achava-a horrorosa. Foi aí a chave do problema. Na hora do "sim", João Netto já havia dado o seu, ela simplesmente falou "não" e sinicamente saiu da igreja. Foi o maior vexame... Seus pais ainda tentaram fazê-la voltar, mas ela dizia que tinha conhecido um rapaz um dia anterior e não iria mais se casar com João Netto. Foi a maior correria dentro da igreja e João Netto só gritava isso: "Eu me vingo! Eu me vingo!! Vou me casar com outra moça só para me vingar!!!" Ficou doente. Tivemos de interná-lo em uma clínica de doentes mentais, pois não parava nada de louça em casa, ele quebrava tudo, quebrava os vidros das janelas, metia a cabeça nas paredes com toda violência, ficou completamente maluco. Ficou na clínica por dois anos. Quando saiu achei que estava bom. Providenciamos sua transferência para cá porque achávamos que numa cidade menor ele não iria ter recaídas. Quando começou namorar com você, tive medo que fosse te maltratar, mas sua atitude era tão bonita com você e seus irmãos que jamais pensei que fosse recair. Você foi a primeira namorada depois desse desajuste. Sempre estive preocupada com seu comportamento, mas me pareceu muito amável durante este ano que vocês namoraram. Eu não entendo como pode guardar tamanha mágoa por tanto tempo. Isto aconteceu no dia 14 de novembro de 1965. Nunca mais havia tocado no assunto, só um dia me disse que se eu lhe contasse alguma coisa, ele me mataria e para ser-lhe sincera eu tenho muito medo dele.

     - Quanta tristeza, dona Gilda! Quanta triteza, que triste coincidência, foi justamente no dia que papai foi assassinado, 14 de novembro de 1965...

      Enquanto dona Gilda falava eu ouvia em pranto.

     Contei-lhe o que ele fazia comigo.

     - Engraçado, dona Gilda! Como pode ser assim. Até que em outros momentos ele fala comigo docilmente, mas me tortura nas horas íntimas, não me considera como mulher, trata-me como se fosse um animal, não respeita minhas épocas, não respeita nem dia nem horário, se porta como verdadeiro maníaco sexual. Já tentei compreendê-lo, conversar com ele mas foi pior. Eu não acredito que está acontecendo isto comigo, dona Gilda...

     Choramos muito, tanto eu como ela.

     Eu vou lhe ajudar, minha filha, eu vou lhe ajudar, mas não diga nada a ele que conversamos. Vou embora, pois se chegar e me encontrar aqui com estes olhos inchados, vai desconfiar.

     Dona Gilda saiu e eu fui dormir, não tinha graça para ver televisão. Eu que sonhava em ter uma vida de ouro com João Netto, se tornou um verdadeiro inferno...

     Contando ninguém iria acreditar, pois com outras pessoas era outro homem, doce e amável. Obrigava-me a sair junto com ele e minhas irmãs para cinemas, parques de diversões. Até que quando estávamos com alguém era muito amável comigo, mas quando chegávamos em casa era um verdadeiro monstro, Deus que me perdoe, parecia vidno do inferno. Deus me perdoe!!!

     - Por que você é assim comigo? Que mal lhe fiz? - falava quase que implorando clemência.

     - Eu faço isso para me vingar! Vagar de todas as mulheres, mulher merece e isso...

     Eu tinha verdadeiro pavor, pois parecia que até saia fogo dos seus olhos, de tanto pavor...
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 03/08/2006
Código do texto: T208389
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Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4027 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 17:56)