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Conheci Maria na década de 80 na firma onde fui trabalhar. Lá fiz muitos amigos, mas Maria era especial. Destacava-se muitas vezes por ser uma pessoa, digamos, mandona, exigente, perfeccionista. Trabalhar, com ela era testar limites, ultrapassar fronteiras e viver na corda bamba. Tinha seus defeitos e qualidades.
Fui ao seu noivado. E foi nesse dia, que tirei forças para insinuar o meu amor por um amigo de trabalho, acho que foi por conta do porre...
Na véspera do meu casamento, ela ajudou a arrumar o apartamento, ainda aprontou algumas brincadeiras para que quando lá chegássemos, encontrássemos algo divertido para não esquecer seu toque.
Pouco depois ela também se casou. Fui madrinha de seu casamento.
Maria era assim, uma mistura de mulher, moleca, tirana... Mas a vida nos ensinava, no dia-a-dia, a levá-la do jeito que queríamos.
Era alguém pronta a nos ajudar quando precisávamos de uma assinatura num contrato, mas também alguém a nos puxar as orelhas quando saíamos da linha.
Com ela foi que aprendi que subordinado errava e chefe enganava... Afinal, ela era a chefe. E ninguém ousava dizer o contrário.
Muitos anos se passaram e mudamos de departamentos, tivemos nossos filhos seguindo o ritmo acelerado da roda-viva das nossas vidas. E, num dia qualquer, fui eu a chamá-la para que o grande chefe lhe dissesse: "está demitida".
Apesar de tudo, uma amizade nunca acaba por motivos tão pequenos. Quanto a desentendimentos profissionais, todos nós os temos. E muitos conseguem viver até num covil de cobras.
Então sua vida mudara. Conheceu a humildade, foi ser mãe, esposa, educadora, virou simplesmente Maria...
Mas a lutadora, brava guerreira, virou uma contadora. Do trabalho tirava o sustento e ajuda para seu marido, encaminhando seus filhos de maneira a prepará-los para a vida. Depois de um certo tempo também saí da empresa, busquei outros horizontes. Assim é a vida...
Maria dedicou-se à religião e foi doar sua contribuição aos catequizandos, preparando-os para a Primeira Eucaristia. Na capela de São Lucas, no bairro onde morávamos, estava sempre no primeiro banco louvando Jesus com tanto entusiasmo que algumas vezes achava até exagero. Maria se tornou muito especial para aquela Comunidade. Nos encontrávamos raramente para papear, ocupadas com nossas vidas. E nas caminhadas diárias não podíamos parar para não perder o pique e eliminar calorias.
No dia treze, último, sexta -feira, apressada com tantos afazeres atravessou a Av. Rio Branco, sem prestar atenção na sinalização. E, num descuido, um ônibus a atropelou. Ninguém sabia que aquele corpo que jazia ali no asfalto, embebido em sangue, era Maria...
Fui ao seu funeral e até este momento, quando estou a escrever sobre ela, não consigo entender o que aconteceu com a vivacidade, a perfeição, a guerreira que conheci...
Na Igreja, com seu corpo na frente do altar, o padre rezou a última missa para ela.
A emoção tomou conta dos presentes, a comoção do marido, dos filhos, chegou a sangrar meu peito. Ali me despedi daquela pessoa que um dia foi minha amiga, ouvindo a soprano cantar o hino a Nossa Senhora, que também se chamava Maria...

JFora
15/02/2004
bette vittorino
Enviado por bette vittorino em 04/08/2006
Reeditado em 26/08/2015
Código do texto: T209224
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
bette vittorino
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 62 anos
278 textos (30197 leituras)
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