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LAURINHA FUGIU DE CASA

        Laurinha fugiu de casa. Teve uma hora que não agüentou mais. Sabe quando vem pressão de todos os lados? Chefe insuportável, prazos extrapolados, namorado distante, amigos que não ligam para saber como você vai... Por que não dar um basta em tudo? Por quê? Por quê?
Num impulso algo desesperador, Laurinha chegou em casa, colocou seus cremes numa frasqueira, algumas poucas roupas numa mochila. Conferiu o dinheiro na carteira e deduziu que dava para algum começo longe dali. Não deixou sequer um bilhete de despedida para a chata da sua família e para o boçal do namorado. Largou o celular em cima da mesa, trancou a porta do apartamento e jogou a chave dentro do lixo, enrolada em uma folha de jornal. Adeus, seus palhaços. Adeus.
Laurinha simplesmente desapareceu. No primeiro dia ninguém deu falta. Ela não foi ao trabalho, mas sua ausência foi só motivo de alguma especulação. Deveria estar bêbada em casa, depois de uma noite de badalação, segundo o chefe insuportável. Tudo bem, ela iria para a rua mesmo em poucos dias. A família só foi achar que algo estava errado quando passados três dias sem que Laurinha desse sinal de vida, o irmão mais velho decidiu ele próprio arrombar a porta do apartamento. Tinha quase certeza de que encontraria o corpo de Laurinha estripado na cama. Felizmente, quase tudo estava normal. Quase. Aquele celular jogado na mesa era estranho. Laurinha não vivia sem celular. Com a pulga atrás da orelha, o homem foi verificar o armário. Dando falta dos cremes, mas não das roupas, ele concluiu: Laurinha dera no pé. Aquele arsenal de cremes era o companheiro diário da irmã desde os doze anos de idade. Aonde Laurinha ia, levava aquela parafernália junto. O boçal do namorado foi informado do sumiço dela. Primeiro ele ficou surpreso, depois partiu para outra.
A moça não deu mais notícias. Por algum tempo, os pais ficaram desesperados. Ela poderia ter sido raptada, estar sendo torturada ou pior, já ter morrido. Apesar da situação, os irmãos de Laurinha tentavam tranqüilizar os velhos. Laurinha fôra embora para ser feliz, apenas isto. Que deixassem a moça em paz.
As mensagens no orkut aumentaram consideravelmente. De repente, os amigos surgiram. Recados e mais recados para Laurinha perguntando onde ela estava. Los Angeles, África, Patagônia, Fernando de Noronha. Lugares românticos, exóticos, paradisíacos. Certamente, Laurinha estaria curtindo uma boa vida. Sol, mar, homens à vontade. Uma comunidade no orkut foi criada para ela, denominada “Eu quero fugir com a Laurinha”.
De alguma forma não explicada, Laurinha foi aparecer somente dois anos e meio depois, quando seu pai agonizava numa cama de hospital. O desejo do homem era ver todos os filhos reunidos e Laurinha apareceu para dar um último adeus ao velho. Ela veio, despediu-se do pai, ficou por uma semana em casa consolando a mãe, deu tchau e foi embora. Alguém disse que ela só voltaria de novo para enterrar a velha. O fato é que Laurinha partiu, para inveja de tantos que ficaram. Para inveja de tantos que gostariam de chutar o balde e sair em busca de uma vida mais feliz em outro lugar, de preferência bem longe. O problema é que não chutamos balde algum, não gritamos, não berramos. Ficamos parados no mesmo lugar, engolindo sapos, criando úlceras, chorando em silêncio, escondidos. Boicotamos nossa felicidade todos os dias. Por quê? Por quê?
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 07/08/2006
Código do texto: T210938
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37900 leituras)
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Patrícia da Fonseca