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Eis D.Zica de volta
Tere Penhabe

D. Zica a nossa querida amiguinha do famigerado exame de sangue azul, quase caiu no esquecimento, mas hoje ela sai do baú e vem nos contar como foi que conseguiu atravessar aquele triste mês em que teve que arcar com o pagamento de um único exame, que quase deixou-a à míngua.
Por sorte, o médico deu o parecer favorável. De acordo com o malfadado exame, seus órgãos estavam funcionando razoavelmente a contento, e ela foi liberada_ um pouco tarde é bom que se diga_ até do controle do colesterol, que se encontrava em níveis escandalosamente baixos. Também pudera, com o salário de aposentado do INSS, o sangue do cidadão não sofre muitas agressões mesmo, nem que ele queira. Alface e repolho nunca agrediram o sangue de ninguém.
O máximo que D.Zica se arrisca, é entrar no site do "Mais Você", para degustar com os olhos, as delícias da Ana Maria Braga, e às vezes até copia a receita, na ilusão de que algum dia sobrará para a extravagância.
Mas tinha o bingo também... em algumas de suas tardes, nossa ilustre brasileira, costumava refastelar-se no Bingo do Gonzaga, entrando meio às escondidas, olhando dos lados pra ver se nenhum linguarudo ia contar para seus filhos, afinal, com as míseras notinhas de um real que ela gastava ali, não daria exatamente para engrossar a herança com apartamentos, mas sabe como são os jovens, não é mesmo? Tudo que velho faz é sandice, quando eles mesmos, nunca fizeram mais que isso.
Mas não daria para o bingo... naquele mês, à hora do bingo, D.Zica contentou-se em sentar-se nos banquinhos do jardim da orla e olhar o mar. Por vezes, até teve a impressão de ver números desenhados nas ondas pitorescas que se aproximavam, mas retornando à realidade daquelas tardes fagueiras, ela ainda sorria da sua imaginação, sempre fértil.
No caminho de volta para casa, sempre passava na banca da esquina, para ler as capas das revistas. D.Zica não perde uma edição das revistas, para estar a par dos episódios das novelas da TV, mas nesse caso, com exame ou sem exame, sempre teve que se contentar com as capas. E quando uma morte inesperada era anunciada numa capa mais ousada, diante da tentação de arriscar uns trocados na "feladaputa" da revista, continha-se a tempo, porque afinal, o mais interessante está sempre na capa mesmo. A gente só descobre isso, quando não tem mais dinheiro pra comprar a revista, mas é a pura realidade.
Bom, ainda tinha as missas de domingo... D.Zica sempre colocou seus sagrados cinco reais na cestinha das oferendas, mas com a situação do jeito que estava, optou por apanhar o troco. No primeiro dia, meio atrapalhada, ficou olhando para a cédula entre envergonhada e incrédula, pois não pensava que chegaria a tal ponto, mas finalmente empurrada pela necessidade premente de controle, olhou para cima e mandou seu recado ao Todo Poderoso: Senhor Meu, pendura o resto que um dia a gente acerta, e tomou de volta três dos cinco reais, para o pão da semana.
Mas ainda tinha os cartões da Marisa, Besni, C&A, o escambal... tudo presente, afinal D.Zica nunca foi exatamente vaidosa, mas é um tal de lhe darem afilhados, que francamente!
Mas naquele dia, ao sair do caixa após efetuar o pagamento da fatura, deparou-se com um sapatinho alcoviteiro que praticamente lhe mostrava a língua querendo ir embora com ela. Tão bonitinho, tão gostosinho, tão fofinho... ela acalma seu ânimo exaltado e murmura:_ Porque é que quando eu tenho dinheiro esse merda não está aqui?
Bem que ela poderia comprar com o cartão, mas dinheiro de pobre é assim: quando falta num mês, faz o carreiro e vai faltando por longa data, se é que vocês me entendem.
Assim sendo, D.Zica contentou-se em fazer uma careta para o sapatinho e foi embora resmungando: _não queria messsss
E assim os dias foram enfileirando-se, um atrás do outro, naquele marasmo de quando se tem pressa que passem, e eles encalham parecendo nunca sairem dali da frente dos olhos. O calendário, em cima do computador...
Ah, mas ela tinha a internet, grande sacada! O speedy era pago por sua filha, portanto, bastava largar a bunda na frente da telinha, nem que ficasse quadrada, que ia dar jeito até o final do mês...
Grande ilusão, meus amigos! Mal D.Zica se entregou de corpo e alma ao vai e vem das mensagens, já veio um sururu danado de um lado, uma gritaria do outro, que ela ficou embasbacada, sem entender nem de onde vinha tanta bala perdida.
Tinha lá um moço muito simpático tentando apaziguar as contendas, mas não deu conta e acabou mais perdido que cego em tiroteio, dizendo apenas, como disco enroscado:_ aperta o del, aperta o del, aperta o del...
D.Zica não se conteve:_ Que diabo de del é esse pobre coitado que todo mundo deve apertar?
Achou por bem encerrar o mês no jardim da orla mesmo, parecia ser mais seguro, e foi.
E assim terminou o calvário da nossa amiga, que percebeu que já se aproximava o dia da nova consulta: 13 de abril, quinta_feira... que a fez respirar fundo e resmungar:_ Putzzzzzzzz que sorte a minha, por um triz que não me sai o sexta-feira 13... obrigada Senhor, pendura mais essa aí...

Santos, 04.04.2006
Tere Penhabe
Enviado por Tere Penhabe em 07/08/2006
Código do texto: T211077

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Sobre a autora
Tere Penhabe
Santos - São Paulo - Brasil, 61 anos
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Tere Penhabe