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Na Rua, Um Banco

Um banco na rua. Gente em multidões a passar por ali todos os dias, todas as horas. Entre os lapsos de atenção, muitas se perdiam, escoavam.
Pudera! Somos humanos e não há meio de se ter tudo, o quisto e o não quisto, o enlevado e o abnegado, acolchoam-se e se atrapalham.
Algumas pessoas certamente deveras importantes. Para quem? Não importa! O supro valor é intrínseco e se intera no holístico. Se tolas estas, o que perderia eu, na rua, num banco.
A Hortência azul rasgava as pétalas, jazes em formosura.
A fartura a minguar mansinha e o ar mais espesso, anunciava a temporada dos fios. Poeticamente, era o alento. Aos meus propósitos: a desaceleração, a fuga do coletivo e a postergação dum sonho. Queria escrever um livro sobre o comportamento humano.
Era terça-feira quase fria – não que fosse este, um primórdio de detalhe; nem que se, quarta ou quinta, as coisas caminhariam diferentes. Sobretudo, era nesta, que as crianças debandavam mais cedo do colégio. Havia uma aula de educação física, a qual eu nunca pude compreender – os meninos a acompanhar o jogo das meninas – os interesses libidinosos se excluíam pelas idades.
Seu Borges, com o habitual sorriso molar, bateu a tampa do carrinho de sorvetes, religiosamente às cinco. Haveria de ter outras prioridades em casa. Talvez fosse buscar o filho noutra escola, ou o neto – ele já passara da idade de ter crias em colégios, tampouco no da esquina, no qual freqüentavam os privilegiados, os sumos da sociedade.
- Até amanhã, Seu Borges.
- Até, Seu moço. Veja, vem água! – erguendo a bengalinha de cedro na direção de nuvens grises recém-chegadas.
Não ocorre à falta de assunto, a um arejamento da massa escura, maior deflagrador do que comentários sobre a chuva, sol ou calor. Há, na carona, aquele semblante esbranquiçado, mecânico, quase ausente: proteção ao próximo encontro.
Por vezes, despe-se a carapuça da antipatia, com uma simples frase sobre o tempo.
Os minutos urgem mais, quando o vento chacoalha as coisas e transmite os sons das derrubadas, batidas e correrias. Nisso, faço um aparte para lembrar dos aprisionados – as horas passam de semana em semana.
O frio se intensificou, iniciou a cortar. Meia hora em pouco mais de dezoito minutos e meio.
Porquanto, via e revia - hora de pé, hora sentado com as costas - o burburinho daquela gente apressada, chicoteando os saltos dos sapatos contra o quartzo do paralelepípedo secular, a compor em desacordo a paisagem da rua na qual vivia.
As crianças a chorar pela pressa dos pais em evadir-se dos pingos e a impossibilidade de mastigar um cachorro quente – hora imprópria! – uma pipoquinha ao menos.
- Vem chuva! – gritou em semi-voz, um mulato, correndo e abraçando os livros.
Novamente, veio-me a sensação do infundado, embora fato. Desta, o comentário adveio de introspecção e não geriu aspecto de cobertor. Deveria ter pensado em voz, não querendo me alertar, quiçá nem cogitara me ver outra vez – de fato, havia outro modo ao ensejo, mais cerebral.
Arrastei pouco, o penso banco a desimpedir a calçada aos ciclistas – Alvim era figura obrigatória – chacoalhava a cabeça, timidamente. Pressionava um lábio noutro, encarquilhando a fronte.
Recostei-me à grade e estiquei os braços em ligeira espreguiçada, olhei para cima e não encontrei o céu.
As buzinas impediam a mudez, para o confinamento dos pupilos nos carros e prolongaram por minutos, a sensação de desconforto nos tímpanos.
Toda a pressa se configura diante do cenário escuro. E se houvesse ainda o sol? Aposto um churros, como tudo seguiria normalmente, e as crianças voltariam para os lares com carrinhos, pipocas e mais.
Tardava a hora do jantar, mas o atraso tem lá seus benefícios, suas lacunas.
Antônia passara por lá, num desvario de formosura. O salto a alongar ainda mais as pernas, a arrebatarem os vizinhos desde antanho.
Rosto expressivo! Era pele intacta a recobrir sua candura, sem pós, nem exageros em pinturas. O belo o é, em níveis supremos, quando in natura se manifesta e se dignifica, causando febre.
Havia ali, outras beldades menos populares que Antônia – mais pelo incômodo destas, à revelia do brilho da outra, que de suas próprias insipidezes.
- Olá! – cumprimentou a bela.
Dos seus atributos a me chamar a atenção, a sua inconstância no humor é que mais me aturdia. Não a via igual por dois dias, nem no sorriso, nem na passada, nem na vestimenta. Era intensa a idéia da volúpia daquela mulher – me parecia um grave defeito – ou então, santa criatividade a encarar os outros, de milhares de modos diferentes. Um semblante de torpeza acompanhava-a naquela tarde.
O jantar se fez necessário.
No dia seguinte, em revisão ao anterior, peguei mais cedo o banquinho e enterrei os pés a alguns metros rua acima, a fim de mudar o ângulo, quebrar minha rotina.
Os eventos se sucederam sem grandes alterações. Em contrapartida, o sol resolveu aparecer, ardido e ameno, conforme as nuvens se avizinhavam e se afastavam.
Raramente, alguém dividia comigo mais de quinze palavras, exceto Seu Borges a contar de política. Discursava com a propriedade de quem não assistia e não lia outra coisa, qual não os malabarismos do governo; fazia-o sem revelar preferências de partidos; com isenção.
Nunca deitara sequer uma linha da sua vida conjugal, de sua família, seus sonhos ou aspirações. Era neutro até nos curtos gestos.
Não gostaria com esta descrição, que tivessem o sorveteiro como um provável infeliz. Pelo contrário! A sua cara estava sempre a mostrar os dentes. A simpatia o credenciava a permanecer no ponto por tanto tempo.
- Viu que demitiram o Ministro da Fazenda? – argüiu-me, enxugando as calosas pontas dos dedos no avental de impecável asseio.
De repente, um estalo repelente aos transeuntes mais desleixados, botou todos contra o muro de chapisco, inclusive eu.
Nada se pode ou se deve tentar contra seis homens de farda e coturno, com seus respeitos à mostra. Coube-nos aguardar em posições desconfortáveis.
- Ninguém se mexe! Ninguém abre o bico! – ordenou o sargentola.
Vinte e seis pessoas perfaziam a dantesca cena naquela rua acostumada a viver da rotina e do meu banco. Oito mulheres; o resto, homens.
Aos poucos, conversas aos pés dos ouvidos, foram absolvendo as damas e depois os cavalheiros. Restaram dois: eu e meu banquinho.
- O Senhor conhecia a senhorita Antônia, do sobrado da esquina?
Daí pra frente, o sol não mais desfilou para mim. Passei trinta anos em reclusão absoluta, a contragosto e paralelo ao tempo. Quis por inúmeras vezes, alterar minha rotina, sair voando, conhecer outros lugares, mas acordei numa cama, totalmente encarquilhado.
Durante esta eternidade, escrevi vários livros que nunca serão publicados, nem lidos. Tolhi da fantástica potencialidade, sessenta e cinco anos de minha pífia existência.
A justiça dos homens enquadrou-me nos crimes de: manter visão da vida com os olhos dos outros, fazer ferida à cabeça vazia e sacar da beleza, a mesma que eu não tinha.
Agora choro, choro, choro.
Cesar Poletto
Enviado por Cesar Poletto em 07/08/2006
Reeditado em 08/08/2006
Código do texto: T211179

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Sobre o autor
Cesar Poletto
Piracicaba - São Paulo - Brasil
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Cesar Poletto

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