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DEVANEIO











      João acordou numa manhã cinzenta e fria e correu para a rua. Nem se lembrou de um cafezinho, até porque há dias nada havia para comer. Ia cabisbaixo e triste e nem se deu conta de que estava enregelado. Vendera sua única camisa, para que o leite não faltasse aos seus filhos. Conhecera dias melhores, mas fora há tanto tempo que nem se lembrava mais! Ah, mas isso, quando tinha um emprego! Não ganhava muito, é verdade, mas o salário era suficiente para alimentar a família e jamais deixara que o alimento lhes faltasse. Havia escola para os filhos,  roupa decente para a esposa e até sobrava um pouquinho para o lazer. Nada muito sofisticado, como passeio à Disney, por exemplo, mas levava os filhos ao Parque, um cineminha, o jogo de futebol! Quando fora isso? Nem sabia mais!
Na verdade, não fazia tanto tempo assim. Trabalhava numa fábrica , gostava do serviço e o patrão sabia o quanto era dedicado. Nunca pensou em dólares, em divisas, câmbio, Bolsas de Valores ou coisas assim. Isso era assunto para ser discutido entre empresários. A ele nada disso interessava. O que importava mesmo era o seu trabalho e esse fazia a contento. Se o dólar subia ou descia, não era problema seu.
    Um dia, porém, o seu mundo ruiu. Alegando contenção de despesas, o patrão o demitiu. Claro, já vira isso acontecer a outros, mas jamais imaginou que um dia seria mais um  desempregado no país dos desempregados. As coisas ruins só acontecem ao vizinho!  Agora estava ali, no meio da rua, andando à toa, sem rumo. Já batera a todas as portas para ouvir a mesma resposta: não temos vagas!
Sentou-se num banco de jardim. As pernas já não suportavam o peso do corpo! Pensou em desistir de tudo. Seria tão fácil morrer!
      De repente, a pracinha desapareceu, sumiu. Uma multidão o aplaudia. Viu-se  aclamado como herói! Havia matado um monstro que destruía famílias inteiras e o mundo sorria! Estava num país onde o céu era azul, a chuva molhava a terra que produzia os alimentos; as vacas pastavam na campina sempre verde, produzindo leite para as crianças; os idosos não se preocupavam com a sobrevivência, porque a aposentadoria que recebiam por uma vida inteira de trabalho era mais do que suficiente para prover-lhes a vida; nas ruas não havia crianças abandonadas, roubando os transeuntes, porque as escolas, equipadas com oficinas, ensinava-lhes além do Bê a Bá, uma profissão; o sistema de habitação era prioridade de Governo e ninguém dormia ao relento. Havia emprego para todos e o salário não era mínimo, era  suficiente, pois dava para as despesas com alimentação, vestuário, transporte, educação, saúde e lazer.
Mas, por que tanta aclamação? O que fizera de tão heróico? Matar não é crime? E, afinal quem ele havia assassinado?
      João merecia mesmo toda aquela homenagem, pois destruíra o responsável pela fome, pela miséria do povo, pela violência. João havia desmontado um monstro criado pelo Sistema. Matara o desemprego.





MARISA ALVERGA
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Enviado por MARISA ALVERGA em 09/08/2006
Código do texto: T212468
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Sobre a autora
MARISA ALVERGA
Guarabira - Paraíba - Brasil
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