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O mundo dos acordados

Em qualquer outro lugar do mundo ela se sentiria mais feliz do que ali. O dia estava lento, tenso e suas pálpebras estavam pesando muito. Seria o verão se aproximando? Mas Tereza tinha medo de dormir. Ela dormia porque quando menos percebia, estava dormindo. "E se eu morrer durante o sono?", pensava. Além do mais, não entendia como era possível dormir e acordar como se o tempo tivesse parado. Uma hora ela abria o olho e era outro dia. Estranho...
Mas Tereza voltou para o mundo onde estava. Quatro paredes e um livro aberto diante dela. "Se ainda tivesse mais um dia antes da prova..." Mas o tempo estava se esgotando. Ouviu a porta do apartamento se abrindo e pensou que fosse a mãe. Não, não era ela. Esqueceu que a mãe havia morrido há pouco tempo. E o mais estranho é que a enorme saudade que sentia anestesiava-a da dor. Sabia que o pai estava prestes a partir também mas confortava-se ao espreitar o velho no sofá, lendo jornal. Quem quer saber o que está acontecendo no mundo, ainda quer viver mais. Segurando as lágrimas, voltou a cabeça para o livro. Páginas e páginas ainda para ler. Calculou quantas páginas leria em uma hora e viu que não passariam de trinta. "Droga! Então são quatro horas direto estudando." Mas e o cinema? Prometera que não deixaria passar daquela quinta-feira porque senão o filme sairia de cartaz. Logo aquele, que ela esperou tanto pra ver. Decidiu que umas duas horas e meia a mais acordada para terminar o livro não lhe fariam tão mal assim. Calçou um tênis, despediu-se do pai com carinho e saiu de casa.
Sua curiosidade maior em saber o porquê de haver tantos casais no cinema fez com a menina perdesse sua vez na fila de ingressos. Ficava olhando fixo para as pessoas procurando uma causa para elas serem o que são. "Será que eles não se desgrudam um minuto? É tão bom ver filme sozinha..."
Como de  costume, a despenteada sentou no meio de dois casais perfumados. Achou aquilo meio patético e por um breve instante, se achou superior aos demais seres que só pensam em sexo. Por que ir ao cinema se não iriam prestar atençao no filme? Mas aquele dia, alguma coisa mudara. Sentiu uma enorme necessidade de estar acompanhada, afinal o filme não era tão bom assim. Fazia quanto tempo que estava sozinha? Seus pais eram um tanto individualistas e ela sabia que quando ficasse órfã seria a criatura mais só do mundo. Seus amigos a abandonaram por um tempo. Tudo porque decidiu um dia ser sincera e falou que não achava graça nas piadas. E eles foram cumprir suas funções no mundo.
Sim, ela era única, especial, não ligava de viver sozinha. Era até melhor, porque assim, não se decepcionaria com mais niguém e não viraria uma daquelas mulheres patéticas que estavam ao seu lado. Quando o filme se aproximava do fim, previu o que iria acontecer e por isso se arrependeu de ter ido. Além do mais, tinha um livro para ler. "Será que meu pai terá algum orgulho de mim?" Essa era a pergunta que surgiu no final do filme. As luzes se acenderam e, só para novamente provar que era superior, permaneceu na cadeira para ouvir a música até o fim. Os comedores de pipoca sairam e ela se sentiu muito bem por estar ali, sozinha, no cinema. Isso era bom. A solidão era tão melancólica que aquilo que ela estava sentindo, daria um filme. "Será que as pessoas um dia saberão da minha existência?" Tereza se estranhou com a pergunta, pois isso demonstrava que ela era muito pretensiosa. Queria sair dali com um pensamento bonito. Foi caminhando em direção à porta e viu sua sombra projetada na tela, já sem nada. Então, para concluir, pensou que ela vivia como um espectro da realidade. Que está ali, presente, mas que  ninguém enxergava, porque niguém esperava até o final.
Voltou para a casa sem ânimo nenhum. Na verdade o que ela queria era pegar um ônibus e sumir. Apenas pelo pai, por quem guardava um estranho amor, fazia aquele sacrifício de ir à escola, ler livros... Subiu as escadas, abriu a porta e deparou com a casa escura. O pai já estava dormindo, que frustrou muito a filha que queria dar um beijo naquele velhinho bonito. Foi para a cozinha, comer era muito bom.
Por fim, o quarto de ler. O livro, aberto na página interminável que esperava pelos olhos desatentos de Tereza. A menina sentou-se na cadeira com uma enorme soma de emoções. "Em que mundo eu estou?" Não encontrou resposta pronta. Chorou com cara de má, deitou a cabeça nos braços cruzados e, após constatar que tinha medo de morrer sozinha, dormiu.
D Ana
Enviado por D Ana em 09/08/2006
Reeditado em 22/01/2008
Código do texto: T212518
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Sobre a autora
D Ana
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 29 anos
32 textos (2685 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 06:41)
D Ana