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O Campo Sem Romantismo

Maria acordou às quatro horas. Estava escuro. Colocou a lenha no fogão, untou os gravetos com banha e riscou a velha binga de metal dourado na palha do milho. Soprou, soprou, soprou. O fogo teimava em não se suster, porque a chuva fina que caía na roça há muitos dias deixava tudo úmido. Espocava o pouco fogo e choravam os sabugos de milho fazendo uma fumaceira catinguda e sem propósito...
Maria foi ao quarto, pegou a lamparina a querosene. Tirou dela um bocado do precioso líquido e ateou-o naquela lenha incompreensiva. Um fogaréu subiu pelas três bocas de ferro do fogão, sapecando os picumãs das telhas, assombrando terrivelmente as aranhas papa-moscas acostumadas com o ar quente e tranquilo da cozinha. A própria Maria ficou com a sobrancelha sapecada, mas enfim, ela saíra vitoriosa dessa luta: " a arma conforme o inimigo", filosofava...
Destramelou a porta da cozinha. Lá fora, a escuridão da madrugada e a garoa muito fina a fizeram acender a lamparina para chegar até a cisterna. Soltou corda e ouviu o balde bater lá no fundo d'água. Girou a manivela algumas dezenas de vezes até que o balde de zinco apareceu na boca do poço. Maria travou a corda. Foi para cozinha e encheu uma caçarola preta com água, acrescentou rapadura raspada e pôs no fogo, juntamente com um caldeirão cheio de banha, onde iria fritar os torresmos que seriam comidos no café da manhã. Quando a água levantou fervura, jogou alí um bocado de café e coou-o, deixando o bule de reluzente alumínio na rabeira do fogão.
Voltou ao quarto e chamou Anastácio. Enquanto Anastácio não vinha, Maria fritou os torresmos grossos, carnudos, gordurosos e saborosos. Depois, Maria foi dar de comer aos porcos desesperados de fome e angustiados para poderem comer a lavagem recolhida dos restos da casa. Juntou na lambança o soro do leite do dia anterior e um punhado de farelo de milho.
Anastácio meio sonolento sentou-se na mesa e comeu com gosto. Tomou dois copos cheios de café, reclamando que estava muito doce e muito fraco. Perguntou se era café ou chá o que ele estava tomando. Maria justificou-se dizendo que ela fazia café do mesmo jeito há mais de cinquenta anos. Então, Anastácio reclamou que o torresmo estava duro, frio e que faltava sal. Maria se defendeu dizendo que não era o torresmo que estava duro, mas os poucos dentes de Anastácio que não funcionavam mais como deviam. O sal estava num prato de aluminio em cima da pia e se quisesse torresmo quente, que levantasse mais cedo para comer... Anastácio calou-se. Pegou uma blusa de lã verde puída, surrada e colocou-a nos ombros e foi para o curral roubar o leite dos filhos das vacas.
Maria ficou em casa, socando milho no pilão para fazer fubá. Depois lavou roupa numa bacia de zinco. De vez em quando ela corria para dentro da casa para acudir o fogo que teimava em espocar e quase apagar. Fez o almoço: arroz com pequi, fava, ovo frito e torresmo. Um tomate foi cerimoniosamente cortado em fatias bem finas, temperados com sal e colocados num pirex amarelo.
Anastácio chegou sujo de bosta de vaca nas barras da calça e com as botinas impregnadas por um barro vermelho pertinaz, que sujava o cimento grosso do chão da casa. Deixou no canto da cozinha o latão com leite para Maria coalhar e fazer queijo. Lavou as mãos e foi comer. Comeu como se fosse um lobo, mal mastigava a comida e repetiu três vezes. E mesmo tendo comido, ele implicou com o tomate, porque ele não gosta de tomate. Reclamou da fava que estava aguada e Maria o ignorou. Quando terminaram de comer, Anastácio deitou-se e cochilou uns quinze minutos. Maria aproveitou para por o coalho no leite, arrumou a cozinha e sentou-se próxima ao fogão para descansar um pouco. Lá fora, pela janela, ela via o mato verdinho e molhado da garoa que já durava quase uma semana. Anastácio levantou-se e foi para o roçado, armado com uma enxada e uma lima. Levava consigo um embornal com a merenda: um torrão de rapadura, mandioca cozida, farinha e torresmo. Numa garrafa vazia de cerveja, encheu com café e tampou o gargalo com um sabugo de milho centenário e embolorado. Assim foi ele lutar com as vassouras-brancas, tiriricas, juás e malícias que infestavam o pasto, concorrendo com a braquiária nativa.
Maria ralou três mãos de mandioca para fazer polvilho, depois foi dar de comer para as galinhas. Revirou o leite coalhado, espremeu o soro, escorreu, salgou e prensou nas formas de plástico. Fez três queijos para serem trocados por querosene ou vendidos na venda do "seu" Luiz. Depois, foi para o curral separar os bezerros das mães. De volta à casa, ela pegou brasa e pôs no velho ferro de engomar e passou as roupas sem muito critério. Acrescentou mais um cadinho de lenha no fogo e começou a amassar um bolo de mandioca: araruta, rapadura raspada, mandioca ralada, banha, leite, bicarbonato e muque, muque, muque, muque e fogo. Torrou café. O cheiro do café torrado enchia a casa e invadia o terreiro, o vento levava para longe o cheiro gostoso do café torradinho...
Pôs água numa lata grande e a lata no fogo para poder se banhar. Enquanto o bolo assava e a água não esquentava, Maria foi no rêgo d'água que passava no fundo da casa. Sujou a água com um enxadão e com uma peneira grossa, pegou seis bagres miúdos. Iria jantá-los. Em casa, estripou o jantar, temperou com sal e limão e deixou-os num prato sobre a pia. Tirou o bolo do fogo e pôs num canto do fogão. Encheu a tina com a água quente e temperou com água fria. Cerrou a porta da cozinha e banhou-se ali mesmo, deixando a água na tina para que Anastácio a aproveitasse no próprio banho.
Anastácio só chegou à tardinha. Estava molhado de suor e chuvisco. Depois de reclamar da chuva, do pasto, da friagem, tentou resistir à água e ao sabão. Dizia não ser preciso molhar mais do que já estava. Ele só precisaria enxugar, comer e dormir. Maria recalcitrou e exigiu-lhe o banho. Anastácio com muxoxos e resmungos lavou-se sem nenhuma convicção.
Maria fritou os peixes, esquentou o arroz com pequi, a fava e comeram.
A noite escurecia a roça e lá fora, piavam as gias e sopravam as jibóias. Sapos disputavam a atenção coaxando no vasto palco do brejo. A luz da lamparina acesa, mostrava o caminho do quarto para Maria e Anastácio. No leito, conversaram alguma coisa até que Anastácio caísse profundamente no sono. Maria soprou o fogo da lamparina, fixou os olhos num canto qualquer do telhado. O breu parecia que engolia tudo... Ela pensava na lida do dia que viria... Lá fora, o chuvisco cedia para a garoa e a garoa para o chuvisco numa lenga-lenga sem fim. Os pingos d'água que escorriam das rachaduras das telhas batiam na bacia de zinco estratégicamnete colocada no meio do quarto, fazendo um barulhinho bom de se ouvir.
De vez em quando o silêncio sepulcral do mato era interrompido pelas vacas que berravam no curral ou pelos galos insones da vizinhança que enchiam a vastidão da roça.
Maria benzeu o corpo, rezou uma Salve Rainha, uma Ave Maria e um Pai Nosso. Virou-se para o canto e dormiu.
Êta vida besta, meu Deus!  
Marcos Aurelio Paiva
Enviado por Marcos Aurelio Paiva em 11/08/2006
Código do texto: T214038
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Sobre o autor
Marcos Aurelio Paiva
Reino Unido, 42 anos
32 textos (1952 leituras)
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Marcos Aurelio Paiva