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Rezando para não chover

Já estavam começando a aparecer os primeiros frutos do trabalho de toda uma vida.

 Assim, inesperadamente, sem se fazer notar, os ares foram se alterando, as nuvens se deslocando tão lentamente que parecia que o céu estava estático. E, de repente, os ventos agitaram as nuvens e parecia que ia chover chuva de pedra, capaz de destruir telhados e amassar as capotas dos carros que corriam, céleres, pela estrada, querendo chegar antes da tormenta, ou procurando um lugar de recolhimento.

Eu encarei o céu exatamente naquele momento; se venta muito, a chuva se vai, e cai noutro lugar, se venta pouco, caí aqui mesmo. Se for muita água, lá se vão os nossos grãos e sementes carregados com a água, e adubos e muitas horas de trabalho, para engrossar as sujeiras do rio. Tem é que chover a conta certa.

Mas, os destinos e os desígnios não são decididos por mim; seriam por alguém? Quem? Algum governante rubicundo, dentro de um terno engomado, bebendo uísque escocês e fumando um grosso charuto negro está determinando, agora mesmo, aonde cairá a chuva? Não. Mas bombas e foguetes e bazucas e balas de metralhadoras eu garanto que sim.

 Ou será que algum deus enigmático, desses que escreve ‘a torto e direito, ou hieróglifos, ou letras misteriosas que ninguém entende, só alguns iniciados, decide. Desejei que chovesse, mas só a conta certa. Nada de exageros, hein meu bom Deus! Mas parece que não há muito interesse nessas mesquinharias humanas. O que? Preocupar-se com míseras sementes, ou horas de trabalho de um pé rapado, quando todo um enorme universo infinito clama por Ele? Qual o quê!

Então desabou a tempestade, aqui mesmo. Uma cacetada! Água diluvial. Noventa minutos de aguaceiro pesado, com pingos que doíam no topo da cabeça e abriam rasgos na terra do tamanho de pequenos rios, carregando tudo consigo, engrossando os córregos que se formavam em toda parte, água dispersa que se junta e ganha um corpo destruidor.

Enfim, fiquei olhando o caudal debaixo do alpendre, enrolando um cigarro atrás do outro sem gastar os fósforos. Passava touceira de capim, ilhotas de terra deslizavam pela água, corpos de cachorros afogados, acho que vi até um neném boiando, que passou tão rápido, boiando com sua cabecinha escura que nem uma cestinha de vime ia salvar. É assim que a chuva faz a terra deslizar. Depois da primeira pancada forte, que parecia chuva de verão, das que acabam em dez minutos, ela reduziu um pouco a sua força, parecia que ia parar, mas não parou. Chuva grossa, e contínua. Os raios pararam, mas a chuva não. Hora e meia de dilúvio, sem parar. E aí, pronto, a desgraça estava feita.

Eu e a mulher nós olhamos, não precisamos falar nada. Agora, parou. Está até um solzinho, fraquinho como de manhã. O chão, um barro só, com trilhas de areia lavada. Mato dobrado e estirado, árvores partidas, galinhas pousadas em galhos de goiabeiras, procurando lugar pra dormir. Plantação de homem foi tudo embora. Sobrou só a plantação de Deus, que é mais valente.

 Vou procurar amanhã, na areia, pra ver se topo com uma pepita de ouro, ou um diamante, que é também de Deus, e vale muito para os homens.

Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 11/08/2006
Código do texto: T214266

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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