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ERA UMA VEZ UM BILHETE


Anamaria chegou no escritório. Afobada, ela largou a bolsa em cima da cadeira e foi correndo buscar um copo de água. Voltou para a mesa, mal cumprimentou os colegas e pôs-se a trabalhar freneticamente, evitando olhar para os lados do chefe. Será que desta vez ele iria despedí-la por justa causa?
Ela só foi ver o bilhete dentro da bolsa quando voltou do banheiro. Quando foi pegar o espelhinho para retocar o gloss, reparou que havia um pedaço de papel jogado displicentemente por ali, com algo escrito em uma caligrafia toda elaborada. Curiosa, Anamaria pegou o bilhete. Colocou a mão na boca, espantada. Ali dizia: “Já lhe disseram que você é linda?”.
Emocionada, ela guardou o bilhete, tentando disfarçar. Quem seria o seu fã? Olhou discretamente em sua volta. Todos trabalhavam com empenho e ninguém pareceu notar que o mundo rodava para Anamaria. Mas ela sabia quem era. O Carlos. Seu amor platônico. Eles trocavam olhares e alguns sorrisinhos há mais ou menos um mês. Carlos, um tímido confesso, ainda não tivera coragem nem de convidá-la para tomar um cafezinho. E era toda a timidez de Carlos que excitava a Anamaria. Aquele homem deveria ser um furacão na cama. Os tímidos eram assim mesmo, mas na hora H revelavam-se verdadeiros vulcões.
O Carlos nem estava na sala. Claro. Estava disfarçando em algum lugar. Ela estava tão feliz que tinha vontade de dançar em cima da mesa. Bem, agora iria com tudo para cima de Carlos. Ele dera a entrada. O resto era com ela, Anamaria.
Carlos voltou para a sala dez minutos depois, acompanhado de outro colega que, com certeza, sabia de tudo. Anamaria lançou-lhe um olhar sedutor e um sorriso tão lascivo que deixou o rapaz vermelho. Tonto, ele sentou-se a sua mesa, enquanto Anamaria cantarolava sozinha em meio a seus papéis.
O dia passou e nada aconteceu. O bilhete fervia dentro da bolsa de Anamaria. Carlos mal lhe levantou os olhos, o que deixava Anamaria com toda a segurança de que fôra ele o autor daquelas palavras que a deixaram tão empolgada. De repente, o telefone tocou. Uma colega atendeu e falou em tom alto, para Carlos:
- Ei, Carlos. Telefone para você. É sua esposa.
Aquele ordinário!, gritou Anamaria para si mesma, ao ver Carlos levantar-se com um sorriso nos lábios. Alguns papéis caíram da mesa dela e ela aproveitou para enxugar as lágrimas enquanto os pegava no chão. Ao sentar-se novamente, estava com o rosto seco e com um sorriso dissimulando o seu ódio, a sua frustração e a vontade de matar Carlos. Felizmente o expediente estava no fim e era uma sexta-feira. Anamaria fazia planos de beber até cair quando o Olavo parou ao seu lado. Olavo era o chefe. Um senhor gordinho, barrigudo, de óculos e careca. Os olhos dele diziam tudo. Mas antes que Anamaria abrisse a boca para perguntar o que ele queria praticamente na hora de ir embora, o homem perguntou:
- Não encontrou nada diferente na sua bolsa hoje?
Anamaria o encarou com olhos de repulsa. Depois lembrou do carro importado dele e do seu apartamento de cobertura em uma zona nobre da cidade. Na sua lembrança vieram conversas recentes em que alguém comentara que ele era viúvo, sem filhos e adorava viajar para o exterior. Depois, lembrou de Carlos, que andava de ônibus, vivia de aluguel como ela e que não era capaz tomar uma atitude de homem. Tudo isto passou pela sua mente em dez segundos. Anamaria olhou-o uma última vez, pegou sua bolsa e respondeu:
- Não encontrei nada. Entendeu bem? Não encontrei nada.
E saiu batendo o pé, furiosa com todos os homens do mundo, planejando beber até cair e passar o final de semana em casa comendo tortas de chocolate.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 13/08/2006
Código do texto: T215517
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
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Patrícia da Fonseca