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O Fogo Amigo


                                                                       
Ele estava atônito; não havia percebido ainda o quanto gostava dela, sua colega de curso, até o momento em que fora baleada. Agora compreendia que a amava, e lamentava não ter se aproximado e revelado o seu amor. Era tarde demais, não conseguiria mais fazê-lo; e teria que carregar pelo resto da vida o arrependimento pelo não realizado.
Ela havia tombado, como um soldado na guerra, o projétil perfurou a sua face, quebrou a sua mandíbula e se alojou na coluna cervical, atravessando um caminho nunca percorrido e por onde a luz do sol nunca ousara passar; sentiu o sangue escorrer. Não, não sentiu, pois foi tomada por um amortecimento pesado em todo o corpo, com se tivesse se transformado, num átimo, em objeto estranho a sua consciência;  viu o sangue escorrer pela sua blusa branca de estudante e formar um pequeno lago em seu colo, enquanto sua cabeça de ser abatido despencava. Foi a sua última impressão da vida. O quê estaria acontecendo?
No pátio da escola, em polvorosa, um tiroteio acontecia, com estampidos secos, todos corriam menos ela que permanecia no chão, enquanto uma poça de sangue se formava, junto à sua cabeça.
 
Agora, todos retornaram, e carregaram para o hospital um corpo inerte e sem   rigidez muscular, o que fazia oscilar a sua cabeça, destroçando mais ainda a frágil conexão que a mantinha unida com o corpo aparentemente, íntegro.
Integro e inanimado. Muitos já haviam tombado, nesta guerra. Garotas de dezoito, dezenove anos, repórteres, policiais, bandidos. Parecia que estes vinham reclamar o seu direito à cidade com a força das armas porque, talvez, achassem que todos os outros caminhos estivessem obstruídos. E que a polícia aí estivesse para lembrar que este, também, era um caminho interdito. As armas, disparadas a esmo, faziam o seu estrago na população inocente. Em qualquer lugar, no morro do Turano, na Mangueira, na avenida, brevemente, todos os lugares terão as suas histórias e os seus mortos.

E agora, mais uma vítima. Não morrera. Os médicos vão operar, vão salvá-la, vão reverter com a sua habilidade o descaminho do destino, vão retirar do seu pescoço à bala maldita, vão restaurar as estruturas por onde transita a vida. E ela vai voltar, para viver a sua vida, a vida que ninguém está autorizado a roubar.

Mas, não. Disseram primeiro que havia esperanças. Depois, que provavelmente ficaria tetraplégica; então, confirmaram a paralisia. Finalmente, com certeza, afirmaram que ficaria paralítica e respirando por aparelhos. A cidade ficou, mais um pouquinho, paralisada, ela também atingida pela selvageria.

Em seu sono, permanecia tranqüila. Mas não ele, o seu colega agora apaixonado. Este sofria por ela. Imaginava a sua angustia ao não poder mover sequer o dedo mínimo, em não poder se virar, em não poder se coçar. Entendia perfeitamente, como estudante universitário, as causas da paralisia, a medula espinhal lesada no pescoço, lá onde se encontram os núcleos automáticos da vida, sem os quais não se consegue nem respirar, a interrupção dos caminhos por onde fluem os impulsos nervosos, o corpo, inerme, se atrofiando, e a cabeça acesa e querendo viver. Imaginou-se na mesma situação, na cama à noite, imóvel, deitado de barriga pra cima, lutando por mover os músculos que não respondiam, imaginou-se só, tendo em volta todo o imenso universo, e nenhum outro ser que o pudesse ajudar; viu-se morto, a sua consciência extinta, o seu corpo desfeito e o vazio completo sem ninguém para testemunhar a sua existência. Não agüentou mais, levantou rapidamente com o coração agitado e uma camada de suor fino cobrindo a testa. Acreditou, sinceramente, que ela sofreria muito quando acordasse do coma induzido pelos médicos. Pensou, vagamente, que teria sido melhor ter morrido.

E aguardou, no corredor, os muitos dias em que ela esteve correndo risco de vida. Viu o entra e sai de médicos, enfermeiras, fisioterapeutas. Foi assediado pela imprensa, onde se declarou confiante; nunca diria que estava perdida para a vida. Soube, que, finalmente, desconfiaram que o tiro havia sido disparado por alguém da polícia, o tiro não viera do morro, da favela, como se imaginou no primeiro momento. Era apenas mais uma demonstração da inabilidade da polícia, como também ocorrera meses antes, quando uma menina fora morta nas escadarias do metrô; um policial, em passeio, puxou o revólver, e o tiroteio começou.

Em seu desespero, planejou a forma como a ajudaria a escapar da vida. Era melhor morrer para não sofrer. Todos o diziam; pena é que não exista eutanásia no Brasil, pena que não exista pena de morte, todos o diziam. Viver tetraplégico era uma pena de vida. É isso que todos achavam, os colegas de escola, os parentes, o povo nas ruas. E ele achava que seria sua a missão de completar a tarefa do destino. Não podia suportar a idéia de vê-la inválida, na cama, para todo o sempre. Achava, também, que não poderia abandoná-la agora, nesta situação difícil, viver a sua vida egoisticamente, como se não o problema não fosse dele. Sentia-se responsável. Amava-a, e queria lembrar, apenas os momentos felizes do passado e a expectativa dourada da vida futura que se perdeu.
E, então, foi vê-la pela primeira vez. Estava ainda dormindo, com o rosto pálido, e um tubo enfiado na boca. Respirava com a ajuda da máquina, o que, parece, seria a sua realidade para sempre. Tocou em seu braço, e pôde sentir o seu calor, gerado pelas suas células que permaneciam vivas apesar de imóveis. Então havia vida ali, o calor lembrando, ainda que vagamente, uma carícia e um reconhecimento. “Ela sabe que sou eu que estou aqui”, pensou. Olhou para o botão do respirador, um simples interruptor que poderia ser desligado; uma luz se apagaria sem que fosse percebida... Sentiu que não teria coragem de acabar com o seu sofrimento, que, no último momento, ela abriria os olhos e sorriria, lhe chamando de “meu amor”. Não, não teria coragem de tomar tal decisão sozinho. Melhor seria discutir com alguém, com a sua mãe, com o seu pai, com ela própria caso estivesse consciente; argumentaria que livrá-lo do peso da vida era uma demonstração de amor. E que ele era o único ser que poderia fazê-lo; porque a amava.

Sim, a amava, a amava loucamente, perdidamente, a amava agora ainda mais, ao vê-la imóvel, vulnerável, como um objeto onde a vida quase se extinguiu, mas que permanecia com o rosto tranqüilo, apesar do ferimento absurdo que partiu a sua mandíbula; aquele rosto significava exatamente isso; ‘o meu amor’. E que eles se entendiam tão bem em seu amor que poderiam se comunicar mesmo sem palavras, apenas com os olhares. E que nada precisaria ser dito.

Aguardou por muitos dias. O seu estado geral inspirava, ainda, cuidados, diziam os médicos. Mas estava melhorando cada vez mais. Finalmente abriu os olhos, em uma tarde friorenta, saiu do lugar em que se encontrava para ver todos aqueles rostos que conhecia tão bem. O seu último pensamento retornou: “o que estava acontecendo?” Viu a sua mãe, o seu pai, os rostos sorridentes das enfermeiras, até encontrar o seu rosto. Ele estava um pouco afastado, os parentes se apoderaram dos lugares próximos. Mas viu que ele estava chorando. Ele chorava e fazia, silenciosamente, a pergunta.

E ela, silenciosamente, pensou; “Estive num lugar maravilhoso... Não se preocupe, meu amor, minha vida vai ser te olhar”.
E ele pensou: “a minha, também”.

O ruído alto de uma sirene de ambulância invadiu o quarto e encobriu completamente os delicados sinais sonoros dos aparelhos ligados ao corpo irremediavelmente lesado. O seu coração continuou batendo.


(Senhores leitores, por algum tempo fiquei em dúvida se colocaria esta história em contos de terror ou cotidianos. Verifiquei o conteúdo dos contos nas 2  rubricas e me decidi por cotidiano. Caso tenha sido infeliz na escolha, peço desculpas.)



   














Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 15/08/2006
Código do texto: T217353

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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