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O MENINO QUE QUERIA SER DOUTOR - Capítulo III

     Nossa vidinha era aquela rotina. Um dia, isto em 1963, estava com oito anos, o capitão chegou na manhã de um sábado. Como fazia todas as vezes eu o acompanhava e conversava vai, conversa vem eu lhe disse:

     - Capitão, leve-me para a capital, para eu aprender ler, entrar na escola, aqui não tem escola.

     - Que conversa, menino... Onde você vai ficar na cidade, para entrar na escola? Você não tem parente nenhum lá.

     - Eu fico na casa do senhor... - falei oferecido.

     - Na minha casa!? - o capitão deu uma boa gargalhada.

     - Ah! Francisco, às vezes você me faz rir.
 
     - Por que, capitão, eu não poderei ficar em sua casa?

     - Sim, poderá, aliás, eu tenho que falar com Carolina, minha esposa. Pois se você for para lá, ela que terá de cuidar de você.

     - Então, o senhor está dizendo que eu poderei ir para a casa do senhor, estudar na capital? - falei com a alegria estampada no rosto.

     - Olha, vamos fazer um trato? Este ano não há mais possibilidades, mas no ano que vem, eu prometo que pensarei no seu caso. - falou passando a mão na minha cabeça.

     - O senhor não irá se arrepender, eu serei um bom menino e não lhe darei trabalho. Deus irá lhe recompensar, capitão.

                     *  *  *

     Naquela noite eu não dormi, imaginando a minha ida para a capital e principalmente para estudar.

     Os dias foram se passando e eu contando nos dedos. Falava com meus irmãos e eles gozavam de mim.

     - Olha, Orlando, o Francisco vai para a cidade para estudar.

     - E, Pedro, logo vai ser doutor. - falavam e riam como se fosse uma piada.

     - Vou sim, vou para a cidade estudar, e até ser ser doutor e vocês irão continuar os matutões de pés rachados de sempre, vão ser sempre "cavalo para os outros andarem."

     Sempre depois de tais conversas acabava chorando.

    - Ih! Olha o doutor chorando. - dizia Pedro e todos os irmãos riam de mim.

     Pegaram a me chamar de doutor e não de Francisco. Nos primeiros dias comecei a achar ruim, mas depois fui me acostumando com a idéia, até os adultos começaram também a me apelidar.

     - É isto mesmo, meu filho, estuda sim. Você será um grande homem, não será igual seu pai que nem sabe assinar o nome. - isto meu pai falava sempre e tinha o mesmo apoio de minha mãe, de vó e vô.
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 16/08/2006
Código do texto: T218014
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Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4029 leituras)
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