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O MENINO QUE QUERIA SER DOUTOR - Capítulo V

     Logo ao entrar o ano de 1964, o capitão chegou à fazenda e pediu ao meu pai a minha certidão de nascimento. Ele faria a matrícula tão logo estivessem abertas.

     Eu não me continha de felicidade, não via chegar a hora de ir para a capital estudar e comentava com minha mãe.

     - Sabe mãe, quando eu estudar bastante, eu vou juntar dinheiro, comprar uma casa bem grande e levar todos vocês para a capital, fazer meus irmãos estudarem também.

     - Se Deus quiser, meu filho! E não será por apelido que irão lhe chamar de "doutor" e sim por ser de fato um doutor.

     Aquele apoio de mãe, pai e vô Sebastião me fazia sentir ainda mais vontade de estudar e vencer.

     O capitão demorava ir à fazenda.

     Finalmente chegou o grande dia! O capitão chegou às oito horas da manhã:

     - E então, está animado ainda para freqüentar a escola, menino Francisco?

     - Mais do que nunca, capitão, não vejo a hora de partir!

     - Então arrume suas coisas que vamos ainda hoje!

     - Hoje!? Assim tão rápido?

     - Sim, menino, as aulas terão início segunda-feira.

     - Está bem, capitão, vou falar pra mãe.

     Sai disparado em direção a nossa casa e entrei como um maluco porta a dentro.

     - Mãe! Mãe, arrume minha roupa, o capitão vai me levar hoje ainda.

     - Que é isto, Doutor, você está maluco? Que pressa é essa?

     - Não, mãe, não é pressa minha não, o capitão que me falou que vai me levar hoje para a capital! Mãe, eu vou estuddar, as aulas vão começar segunda-feira! Mãe... Eu vou ser doutor, mãe!...

     - Está bem, meu filho, eu vou arrumar suas coisas.

     Mãe saiu. Foi confirmar minha conversa com o capitão.

     Voltou cabisbaixa, senti que estava chorando. Até então com a empolgação de estudar eu não tinha pensado que ia me afastar de meus pais e meus irmãos. Senti uma dor no coração e tinha vontade de chorar.

     Chorei junto com minha mãe, que chorava e me falava:

     - Não vá, Francisco. Você vai se separar de nós para sempre...

     - Oh! Mãe, eu não posso deixar de realizar o meu maior sonho, mesmo que isto nos afaste, mas eu venho aqui sempre que puder...

     - O afastamento que eu estou falando não é o afastamento de cidade e fazenda, é o do coração, filho. Daqui um tempo, você vai se acostumar com as pessoas da cidade e não vai se importar mais com estes roceiros que não sabem nem falar.

     - Mãe, que que é isso? Eu jamais esquecerei da senhora, de pai, dos meus irmãos e de vô.

     Foi como se tivesse morrido uma pessoa no caso era eu, só que era um defunto vivo. Todos choravam ao redor de mim.

     Eu não desisti... Seria aquela uma oportunidade que talvez não teria nunca mais.

     Peguei minha trouxinha, entrei no carro sem olhar para trás.
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 18/08/2006
Código do texto: T219245
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Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4029 leituras)
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