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O encontro e o tiro

                                                                   
     Ela fingia não ver, achava muito acreditar que aquele belo homem poderia olhá-la com olhos que não fossem de solidão. Contemplava suas mãos calejadas, negras, cansadas de mais um dia inteiro de ouvir gritos, sofrer humilhações, um dia inteiro de trabalho árduo. O único alento era o embalar dos trilhos do trem, do Brás até Mogi, todos os dias, por mais de 15 anos. Ela sentia-se incomodada, o olhar dele queimava quase como se precisasse de resposta, do calor  da resposta. Pela janela as cidades, as cores, os bairros pobres e escuros corriam, corriam mais rápido do que os dias de sua vida poderiam correr.

   Ele ansiava que ela respondesse seu olhar, que o visse, que o perdoasse pelas mãos enormes, pelos olhos de um azul que outrora já foram muito cobiçados, mas que agora ele sabia serem rançosos, pequenos, trabalhadores. Ele queria sinceramente que aquela bela mulher, madura, bonita, suave, ríspida, do trabalho e da vida, o olhasse apenas, sorrisse apenas. Dissesse algo. Antes que o trem lotasse ainda mais, antes que a multidão o escondesse para sempre até o próximo dia.

   O trem era uma espécie de condutor solitário para os dois que se viam sem se olhar, para os dois que observavam um ao outro sem notar a virada, a história, as pessoas que falavam alto de suas histórias, de seus dias.

   Mas e se ele soubesse que ela era quase analfabeta, que já tinha quatro filhos, quase todos adultos, que era viúva, que só sabia trabalhar, já que ele somente podia ver o mínimo necessário? Que ela era negra, que tinha os cabelos cuidadosamente amarrados, porém ruins, ruins demais. Seus cabelos sempre foram cruéis com ela. E se soubesse que ela era doméstica, que o que ganhava não era suficiente para pagar o aluguel, que por isso morava em uma favela, que do seus quatro filhos, apenas um tinha  salvação porque freqüentava a igreja, porque iria ser pastor?? Que a patroa a tratava quase como escrava, que a xingava, que a humilhava, e que ela não chorava mais porque já era inteira uma dor,  uma lágrima cristalizada?

   Ele queria dizer que ela era bonita, que tinha mãos compridas, delgadas, um quadril largo, bonito, que queria apenas saber seu nome, apenas saber seus gostos, se gostava de ouvir pagode, se gostava de sertanejo. Se assistia novelas mexicanas, se ia à igreja, se ele poderia acompanhá-la até sua casa, conhecer seus filhos, experimentar seu café. Rir muito e só ir para a cama se fosse com muito respeito.

   Ela pegava o trem no Brás, e ele também, esta era a segunda vez que se cruzavam em um vagão. Não conseguiram conversar da primeira vez em que se encontraram, e agora o silêncio os impedia de falar, trocar palavras. O silêncio da imensidão de vozes que falam sem se conhecer. O trem pára em Guaianazes, baldeação, e eles correm para pegar o trem que vai para Mogi.

   E se eles soubessem que a chuva iria tornar a viagem mais longa, que a noite lá fora era cúmplice daquele encontro. E se eles soubessem que ambos eram viúvos, que ambos tinham filhos já crescidos, que compartilhavam a mesma fé. E se ela soubesse que ele era pedreiro, que tinha as mãos grossas demais, calejadas demais. Que tinha dificuldades em ser carinhoso, que pouco falava para não ferir. Sua beleza agreste por vezes fazia saltar de sua boca farpas ferinas demais, verdadeiras demais. E se eles soubessem que talvez os anjos saudassem esse encontro com músicas de cores claras? As estações continuam a correm em desespero, ansiando que eles falem, que toquem a música suave dos amores que se encontram apesar das tempestades e dos descaminhos.

   Ele cria coragem e se aproxima dela:
   __ Frio hoje, né? - sempre um bom começo.
   __ Um pouco. - sempre uma boa resposta.
   __ Você pega no Brás também, né?
   __ É, todo dia, já tem quinze anos.
   __ Eu moro em Suzano, no Palmeiras, conhece?
  __ Não, eu moro em Mogi, é longe onde eu moro, eu tenho que descer e pegar mais um ônibus ainda, é no Botujuru. Sabe onde fica?
   __ Sei, já fiz um servicinho lá. Sabia que tem um bairro chamado Botujuru em São Paulo também?
   __ Sério? E é cheio de mato também?
   __ Lá eu não sei, Palmeiras é meio assim como o Botujuru, agora está crescendo um pouco...

   E os dois sorriram trocando detalhes, pequenos detalhes. O trem continua seu caminho, e quem tivesse ouvidos mais atentos certamente teria notado alguém a suspirar ao longe, como se estivesse a celebrar mais este encontro. Mas alguém entrou armado no trem, alguém havia burlado a segurança, alguém não conhecia a história.

   O trem já estava mais vazio, estava perto de Suzano, e o rapaz apontou a arma para o pedreiro. Ela entrou em desespero, atônita, sem saber o que pensar.
__ Tú vai morrer, véio filho da puta, desgraçado, tú vai morrer...
Antes que alguém pudesse explicar que aquilo era apenas um encontro, que havia pássaros celebrando lá fora, que havia crianças no trem, ouviu-se um único, silencioso, demorado tiro. Um tiro que corta nossa história sem que precisasse existir, sem que fosse necessário, um tiro de vingança. Um tiro como outro qualquer.

   O trem parou em Suzano e as pessoas saíram correndo, desesperadas, aflitas, junto com elas o assassino, jovenzinho ainda, talvez quinze, talvez dezesseis, loiro, bonito, de um brancura estranha, áspera, pobre.

   A bela negra, a bela Anna tinha em seus braços o forte Pedro, loiro e calejado, o belo Pedro. Ele olhava para ela com os olhos embaciados, enormes de dor e desespero. Ela o segurava, tentava estancar o sangue, mais era impossível, era inútil demais. Ela chorava e ao mesmo tempo agradecia aos céus por não ter sido um de seus filhos, apavorada por perceber que o rapaz que dera o tiro certamente conhecia o seu Pedro, o seu pedreiro.
   __ Deve ter sido vingança. - diziam alguns curiosos, que esperavam a vítima morrer para poder ir para casa.
Ela olhava para ele chorando, se era vingança, então não havia como ter evitado. Ele a olhava, sorrindo. Estava livre, Deus e Santa Rita, sua protetora, o estavam esperando com os braços abertos. Era bom morrer sem ser culpado, ao menos da própria morte. Ele lamentava não ter tido tempo de conhecê-la, de saber suas dores, de poder compartilhar as histórias daquelas tristes famílias que não dão certo. Pedro morreu ali, nos braços de Anna, que ainda teve de lavar roupa à noite, que ainda teve de trabalhar no outro dia, que ainda teve de agradecer a Deus por lhe restarem forças para poder trabalhar.

Mas, e se por um instante tudo fosse mágica, e ninguém entrasse no trem armado. E se ele se declarasse a ela, dizendo que a achava atraente, que se interessava por mulheres maduras, que já tinha quase cinqüenta anos, que era viúvo e finalmente perguntasse se ela não gostaria de sair qualquer dia desses, ir a um pagode, conversar, ir à igreja juntos, quem sabe então namorar?
 
  Mas, e se tudo não fosse nada além de um sonho, e o trem na verdade os levasse a outro instante, um lugar perdido qualquer no tempo, longe de seu país, das mazelas de seu país, das injustiças de seu país, para que eles pudessem falar de outras coisas, para que ela fosse professora universitária, para que ele fosse um advogado bem sucedido, assim como outros que trafegam do Brás até Mogi, e se... Mas, para que assim fosse, talvez o trem também tivesse de ser um não-trem, um trecho perdido na imensidão das verdades que o tempo leva tão facilmente, junto com as certezas e a eterna alegria.

   Anna chorou lentamente ao deixar o corpo, caminhou cabisbaixa até a outra plataforma, sentou e respirou, esperando o próximo trem. Ao seu lado, um senhor lia tranqüilamente um jornal. De repente ela percebeu um olhar quente, observando-a, ouviu uma voz macia...
   __ Frio hoje, não?


                                                                                                                           
Marcos Rohfe
Enviado por Marcos Rohfe em 20/08/2006
Reeditado em 16/07/2015
Código do texto: T221158
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Marcos Rohfe
Mogi das Cruzes - São Paulo - Brasil, 46 anos
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Marcos Rohfe