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O MENINO QUE QUERIA SER DOUTOR - Capítulo IX

     Era domingo e como fazíamos todos os domingos, logo depois do almoço patimos para nossa aventura dominical. De longe avistamos uma fumacinha. Sabíamos que era uma chaminé.

     - Chaminé, na floresta!? - disse Pedro espantado.

     - Deve ser índios!

     - Deixa de ser besta, Orlando, que índio, que nada!

     - Vamos ver? - sugeriu Pedro.

     - Eu não vou, eu tenho medo.

     - Deixa este molóide aí, vamos.

     Não fiquei sozinho, fui assim mesmo, morrendo de medo.

     Entramos na mata que era escura e fria.

     Chegamos enfim ao destino desejado.

     Era uma casinha feia, feita de pau-a-pique, coberta de capim. O terreiro bem varridinho, algumas galinhas por ali ciscando, do lado direito da casa um chiqueiro com um porco gordo, um barrão e duas porcas, uma delas com oito leitõezinhos.

     Tudo era muito calmo. O sol bem quente nos fazia suar, vinha de dentro da mata uma brisa leve que passeava em nosso rosto da direita para a esquerda.

     Chegamos à porta, que estava entreaberta. Pensamos que não havia ninguém. Pedro arriscou e chamou:

     - Ô de casa! Tem alguém em casa?

     - Tem sim, podem entrar. - ouvimos uma vozinha rouca saindo lá de dentro do rancho.

     - Vamos entrar? - perguntei.

     - Vamos! - disse Pedro decidido.

     Entramos. O chão batido, mas muito limpinho, um fogão à lenha com duas panelinhas de ferro em cima. Uma mesinha com um forrinho bem branquinho, um vasinho de flores silvestres no centro. E lá estava a velhinha sentada na cama fumando um cachimbinho.

     Ficamos os três em pé perto da cama sem falar nada.

     A velhinha encurvadinha levantou-se, foi até à porta, fechou-a, virou-se para nós e soltou uma gargalhada que mais parecia uma bruxa.

     - Ah! Ah! Ah! Vocês sabem quem eu sou?

     - Não, não senhora! - falou Pedro com a voz trêmula.

     - Vocês já ouviram a história de João e Maria? - falou a velha apontando o dedo longo e magro para o nosso nariz.

     - Sabemos sim, já ouvimos sim, vó já nos contou várias vezes... - novamente falou Pedro com a voz ainda mais trêmula.

     - Pois sim. Eu sou a velha bruxa da história. Sabe o que vai acontecer com vocês? Eu vou prender vocês no quartinho e dar bastante comida pra vocês até vocês engordarem e depois assar vocês, um por um. Ah! Ah! Ah!

     - Por favor, dona... não faça isso conosco, eu te imploro, deixe-nos ir embora, eu prometo, nunca mais aparecemos por aqui... - falou Pedro ajoelhando em seus pés.

     Sentiu-se um cheiro estranho. Era eu que não contive o medo e foram feitas as necessidades fisiológicas nas calças mesmo.

     - Que é isso, meu filho. Desculpe-me, eu só estava brincando com vocês.

     A velha Inocência ficou muito apurada.

     Depois que me lavei, sentamos nos tamburetes e ela contou-nos toda a sua vida. Era uma vida dura, por não ter família, mas era muito querida por toda a vizinhança. Toda a vizinhança freqüentava a sua casa e levava-lhe muitas coisas de comer. Muitos há havia convidado para morar em suas casas, mas ela nunca quis por ser acostumada em seu ranchinho.

     Depois desse episódio nos tornamos grandes amigos da velha Inocência. Todos os domingos íamos a casa dela.
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 23/08/2006
Código do texto: T223358
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Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4027 leituras)
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