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Os negócios do dia

//Cena, Exterior, Manhã, Praia do Arpoador, Rio de Janeiro, 1972, alguns surfistas, céu azul profundo, barracas agitadas pelo vento, no calçadão um homem caminha em direção ‘a Ipanema, veste um paletó escuro sobre o peito nu, pés descalços e encardidos, exala um cheiro de éter fortíssimo. Caminha em silêncio, ou murmurando, entredentes palavras incompreensíveis, cruzando com as pessoas que se espantam com a sua figura, alto, forte, uma barba negra espessa. Em off, a voz do narrador relata o que são, aparentemente, os pensamentos do homem.//

“Deus do céu! Meu alimento é cachaça. Vejo o dia vir rolando, e rolando passar sem graça. Essa rimou mas não era para rimar, que meu desespero também rola com o dia. Enchendo, enchendo essa taça. Das aventuras que não vivi, a melhor parte é voltar pra casa, casa que já não tenho”.

“Deus do céu, vejo o dia sem graça que passa, a garota de Ipanema já é uma velhota barriguda, que continua passando diante dos meus olhos e eu continuo olhando”.

“Deus do céu, tenha pena também desse dia, e de todas as missas do mundo e a todas me dedicaria, se nelas enxergasse uma pequenina parte, pelo menos, que não estivesse reservada aos negócios do dia”.

“Deus do céu, preserve essas dunas e esse barato”.

“Deus do céu, o fôlego já acabou, o sono ainda não veio, e eu não tenho forças para ser servente de obra”.

“Deus do céu, olho o céu que é tão azul que eu até acreditaria em milagres se um idiota já não tivesse descoberto, e espalhado para o mundo, que esse azul é apenas a cor do oxigênio”.

“Deus do céu, pior para quem acreditou, mas eu não acredito, não acredito, meu Deusinho, é ou não um milagre que esse oxigênio esteja aí, e eu esteja aqui precisando tanto dele, obrigado, obrigado!”.

//Nesse ponto o homem ofega um pouco como se sufocasse. Parece fazer gestos obscenos. Chega um homem e uma senhora.//

Homem: “Ah! Mas é o Cabeça. É um pobre coitado, inofensivo!”
Senhora: “Ele me seguiu. Fez propostas, me cantou, me chamou de garota de Ipanema”.
Homem: “Ora, é só um bêbado!”.
Senhora: “E eu sou uma avó de família”.
Cabeça: “Digam, estão sentindo o cheiro do oxigênio?”.
Homem: “Tu tá muito doido, heim Cabeça. Estou sentindo é cheiro de cachaça”.
Senhora: “E eu, cheiro de éter”.
Cabeça: “E, no entanto, queridos, estive apenas rezando. Vi uma coisa azul!”.
Homem: “Vamos embora, que eu tenho mais o que fazer”.
Cabeça: “Amigo, por Deus do céu, me dá um trocado pra eu tomar uma média com pão e manteiga. Estou precisando muito, obrigado, obrigado”.

Voz do Narrador: “E foi assim que a oração do Cabeça acabou sendo dedicada aos negócios do dia...”.




Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 26/08/2006
Reeditado em 29/08/2006
Código do texto: T225546

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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