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TRRRRIIIIMMMM...


                                  “Aonde está você
                                            me telefona...
                          me chama, me chama, me chama...”
           
       Se o telefone não chama, quase entro em desespero, parece que vou infartar. Dói o peito, a insegurança sufoca, tudo se torna uma ansiedade materializada. Qualquer barulho, por mais estranho que seja, é-me o telefone. O celular me acompanha ao banheiro, mas ele é discreto: permanece calado.

A música, outrora razão de minha vida, me perturba terrivelmente. E se se trata das minhas até então preferidas, mais elas me incomodam, pois me  entristecem até o mais profundo do meu eu. Quem sabe uma sessão de leitura me acalme, me distraia... que nada! Os poemas parecem ter-me tomado como seu eu-lírico, tocam-me mais do que o normal. Saio do “maldito” Drummond, passo por Thiago de Mello, visito Pessoa, Neruda, Cecília, Adélia, dou tchau para Florbela Espanca...  todos conspiram contra mim!

Feliz, ou infelizmente, estou a sós. Não preciso mentir para ninguém, fingir uma alegria que não sinto. Ser capaz até que eu seria, mas a que custo não sei. Posso, então, externar a angústia - que é só minha - que invade minha alma. Poderia até mesmo gritar, mas de nada adiantaria. Quem eu queria que me ouvisse se encontra fora do alcance de meus urros, quanto mais de meus sussurros que, em meus devaneios, pronuncio. E que me soam como verdadeiros berros.

Quem sabe a televisão... ela sempre distrai facilmente com seu arsenal infindável de baboseiras! Zapeio para lá e para cá, nada me encanta. Normal, já era esperado. O aparelho de DVD me espreita, mas prefiro desprezá-lo. Afinal, estou chateado com tudo. O único aparelho que me interessa está a, ostensivamente, me ignorar. Meu e-mail não funciona... De repente um CD de Bob Dylan me atrai. Ouço-o por completo. Depois, Simon e Garfunkel. E então também me enjoam. Nada me contenta.

Nem um amigo com quem falar, para quem ligar. É isso! Mas, que loucura! Meu telefone não é pai-de-santo, serve para chamar também. Porém tenho medo de soar inoportuno, incômodo. Agora é o medo que me ataca. Ou seria a timidez? O que sei é que meus olhos só se dirigem ao aparelho, mas meu braço insiste em não obedecer ao comando deles. E deveria fazê-lo, pois meu cérebro abdicou de sua função de ordenar minhas ações. Seria apenas indecisão, ou medo de verdades até então não ditas? Teria eu motivo para tal temor? Será então verdade que a paixão nos idiotiza? Eu, tão ousado, agora tão hesitante! Tão seguro, agora vacilante! Meu Deus, será que nem eu mesmo me conheço? Se não sei o que acontece comigo, como posso querer que os outros o saibam e procurem me contentar?

Vamos, vá em frente. O quê demais você poderá ouvir? O que quer que seja, será melhor que essa incerteza. E, ademais, você só ouvirá se quiser. Se não, é só desligar!

        Vou ouvir seu conselho. Que Deus, como sempre, me ajude.

_Alô?
                                                   30/06/05

Pabinha
Enviado por Pabinha em 31/08/2006
Código do texto: T229462
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Sobre o autor
Pabinha
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
32 textos (4979 leituras)
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