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No metrô

   Entrou no metrô como sempre fazia. Era um dia comum como tantos outros dias de sua vida. Há anos que pegava aquele meio de transporte público, seja para trabalhar, estudar...
   Porém, naquele dia ele fora pego de surpresa por um acontecimento. Estava distraído, em “modo-metrô” como costumava dizer, ou seja, desligado do mundo, pensando em como estar ali era chato e em como já estava atrasado para seu próximo compromisso. Pensava isso enquanto olhava (pela enésima vez) a plaquinha de “assentos preferenciais”. Inclusive, esses avisos nas paredes do metrô pareciam exercer um efeito hipnótico nos passageiros. Não era difícil ver duas ou mais pessoas com o olhar fixo nessas placas, analisando as palavras e os símbolos nelas contidos.
   Enfim, estava ele, assim como muitos outros, ligados no “modo-metrô”, quando a próxima estação foi anunciada no alto-falante. Ele estava parado na porta, quando a mesma se abriu e uma garotinha, dos seus dez anos disse, ao entrar:
- Com licença, moço?
   A pronúncia dessa última palavra sendo dirigida a ele lhe causou certa estranheza.
- Eu? Moço? – pensou.
Ora, até outro dia o chamavam de menino, rapaz... E agora, moço? O que acontecera? Ele continuava o mesmo!
Olhou-se no vidro da porta do metrô. Viu um homem. Barbudo, com uma pasta na mão e ar importante.
- Quem seria?
Parecia estar vendo seu reflexo pela primeira vez. Olhava assustado para aquele homem desconhecido que se encontrava do outro lado do vidro.
- Onde foi parar aquele menino?
Olhou para seu corpo e não se reconhecia. Não era ele. Não podia ser ele. Até que resolveu se olhar nos olhos. E viu... Ali sim estava o menino de outrora. Seus olhos não eram os de um idoso, cansados... Tampouco eram jovens, cheios de vivacidade, mas eram sim, seus olhos. Ficou feliz ao reencontrar, no fundo de seus olhos, o “seu menino”. Nunca a frase “Os olhos são o espelho da alma” fizera tanto sentido.
   Então um pensamento lhe ocorreu.
- Onde estava eu esse tempo todo? Como pude ser tolo em não ver, em não perceber o tempo passar?
Lembrou-se de sua infância, dos seus momentos tristes e felizes. Enfim, lembrou-se da sua vida.
Ficou tão perdido em seus pensamentos que acabou passando de sua estação de desembarque. E o metrô não voltaria para a estação anterior, assim como sua vida não voltaria no tempo.
- Nunca mais olharei no espelho e verei aquele menino. – pensou.
   Chegou à conclusão que a vida era uma viagem de metrô e assim como ele avançava pelos trilhos, a vida avançava pelo tempo, deixando para trás fatos, lembranças e pessoas. A única diferença é que no metrô nós sabemos qual será a próxima estação. Já a vida, avança rumo a um destino todavia desconhecido e incerto.
   E ele não vira o metrô avançar. Não vira o tempo passar... Mas quem é que vê? A vida é um metrô para todos.
   Passageiros se levantam e o metrô vai parando. Ele também se prepara para descer na próxima estação. O alto-falante anuncia:
“Next stop: Saudade station”.
Daniel Bartholomeu
Enviado por Daniel Bartholomeu em 10/09/2006
Reeditado em 10/09/2006
Código do texto: T237092
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Sobre o autor
Daniel Bartholomeu
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 30 anos
48 textos (3764 leituras)
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Daniel Bartholomeu