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Romance de inverno

- Lembra daquela noite superfria de inverno em que tu tirou o teu casaco e me envolveu para que eu não me resfriasse e a gente continuasse no banco da praça, dando nome para as estrelas?, perguntou a esposa, após 10 anos de casamento, para o seu marido. Ele, que fazia o cálculo das despesas do mês, respondeu que não lembrava.
- Como não?, surpreendeu-se ela - Não acredito. Foi quando tu se declarou apaixonado...
Disse, tentando preencher a falha na memória dele.
- Olha, eu não lembro mesmo, mas se tu está dizendo..
Foi a resposta. Atônita, ela nada disse. Ele só analisava as despesas a serem cortadas. Ela resolveu tentar mais uma vez.
- Mas lembra o que aconteceu depois?
- Depois do quê?
Ele se impacientou com a impertinência da esposa, que atrapalhava a sua Matemática.
- Depois da declaração, ora. Não está ouvindo?
- Estou. Esse é o problema. Não vê que estou ocupado? Vai assistir a tua novela.
Resignada, ela foi saindo da sala, mas parou na porta e tornou a olhar para o marido. "Ele não pode ter esquecido", pensava. "Só nós dois estávamos lá. Se ele esqueceu, apenas eu mantenho a lembrança. Ninguém mais no mundo sabe disso. Se eu também vier a esquecer, algo lindo e único vai se apagar para sempre, como se nunca tivesse acontecido.
Ela lamentou que o tempo tenha sido impiedoso e que, além de trazer marcas, tenha apagado tantos momentos felizes. Não de sua mente, mas da pessoa que considerava o amor de sua vida. Ela olhava para ele: com um óculos de descanso, entre calculadora e papéis, a fronte tensa de preocupação e lembrou daquele garotão inconsequente por quem havia se apaixonado. Se ele estivesse aqui, certamente deixaria qualquer cálculo para depois e faria amor com ela em cima das contas do mês. No entanto, aquele garoto agora parecia sepultado, enforcado por uma gravata ou atropelado pela prestação do carro novo. Tinham hoje uma vida de luxo, diferente das inúmeras dificuldades dos primeiros anos. No entanto, o mais importante havia ficado para trás: a vida, a cumplicidade, a paixão desenfreada.
Ela não queria perder suas lembranças, nenhum dos momentos que viveu. Passou a relembrar de vários momentos felizes da vida a dois. Decidiu que iria escrever em seu diário, cada um deles, em detalhes para que os bons momentos se perpetuassem. Registrou principalmente os pequenos bons momentos, os diminutos, imperceptíveis, os fáceis de esquecer. Queria esmiuçar e compreender um universo de sentimentos existentes em microssegundos do dia-a-dia. Escreveu até cansar. Depois, foi até o marido que havia adormecido em cima das contas.
- Naquele noite, nós nos beijamos pela primeira vez...
Ela sussurou em seu ouvido, esperando que o subconsciente dele resgatasse a memória perdida e o fizesse lembrar de um tempo em que contar estrelas numa noite de inverno era a melhor coisa do mundo.
Márcio Brasil
Enviado por Márcio Brasil em 12/09/2006
Reeditado em 12/09/2006
Código do texto: T238263

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Sobre o autor
Márcio Brasil
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil
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Márcio Brasil