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Para dizer (a) Deus

"Velho tolo, idiota, estúpido. Você não merecia estar respirando, imbecil", assim fui praguejando contra mim mesmo durante a viagem de mais de 1.000 quilômetros que me separavam de minha esposa, que convalescia no Hospital. A cada parada que fazia com meu caminhão, ligava para minha filha e perguntava como estava a mãe dela. "Tá mal, pai. Vem logo. Talvez só assim ela melhore", e logo a minha pequena Thaís se entregava ao choro. Pequena é modo de dizer, era uma moça de mais de 20 anos. Mas, para mim, parecia ter os mesmos 07 anos de quando chorava de saudades quando eu viajava. Eu e Ana estávamos juntos há quase 40 anos e ainda não havíamos nos casado. Queria mudar isso. Agora que estava aposentado, iria sossegar ao lado de meu velho amor. No entanto, aceitei um último trabalho para comprar uma aliança de brilhantes. Iria me casar com ela, o amor de minha vida. Eu, um velho de 60 anos, iria subir ao altar para dizer que iria, sim, amar e ser fiel a minha esposa pelo resto da vida. E era só o que eu tinha, um resto de vida. No entanto, a notícia de que Ana estava numa UTI entre a vida e a morte me atingiu como um caminhão.

Ao entrar ao Hospital, Thaís veio chorando me abraçar. Chorava como criança, a minha pequena Thaís. Fui até o quarto e lá estava Ana, em volta de aparelhos, quase sem respirar. Senti o peso do mundo caindo sobre mim. Cheguei até Ana e acariciei o seu rosto. Ela abriu de leve os olhos e apenas sorriu. Logo, sumiu o brilho de seus olhos. Eu a abracei fortemente, tentando evitar que fosse arrancada de mim. Gritei-lhe declarações de amor eterno, pedi para que fosse forte, para que não partisse, implorei para que Deus fosse piedoso, clamei por perdão, falei coisas que nunca disse, de quanto a amava. Foi tudo em vão. Os médicos disseram que ela deveria ter morrido há horas, mas esperou por mim, talvez para um último adeus. Ela aguardou minhas palavras, do único e verdadeiro amor que a vida lhe ofereceu, para então partir. Pedi para que Deus me levasse junto, pois não iria suportar tamanha dor. Até que senti a mão de Thaís sobre meu ombro. E no abraço de minha filha, chorei como uma criança de 07 anos...
Márcio Brasil
Enviado por Márcio Brasil em 13/09/2006
Código do texto: T239101

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Sobre o autor
Márcio Brasil
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil
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