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A complicada vida a dois

Não, eles não viveram felizes para sempre. O happy end das centenas de filmes açucarados que haviam assistido juntos, não parecia fazer parte daquele jovem casal. Quando se apaixonaram, Thaís e Fernando acreditavam ter nascido um para o outro. A maneira como a língua dele se acomodava tão bem dentro da boca dela (sem que se ela se enojasse disso), era como uma revelação: tinha encontrado a sua alma gêmea. E foi assim que dividiram suas vidas, acreditando que faziam parte de um plano celestial, joguetes do destino, colocados frente-a-frente em determinado momento de suas existências para cumprir um propósito universal. Pura besteira.
Depois de tantos anos juntos, o casamento havia perdido aquele status de ser abençoado por Deus e bonito por natureza. Na verdade, era como se o criador quisesse castigar aquelas duas pessoas, tão cheias de defeitos, unindo-as na intenção de que defrontassem os seus pormenores e percebessem o quanto podiam ser irritantes. A maneira como Fernando acordava todos os dias com um mau-humor transbordante, junto com a saliva no canto da boca; a mania que Thaís tinha de querer tudo nos devidos lugares, iniciando uma 3ª Guerra Mundial se encontrasse uma gaveta entreaberta, sapatos na sala, fôrmas de gelo sem água...
Não existia mais paciência entre eles. Paz-ciência, a ciência da paz. Viviam em conflitos constantes. Até o modo de Fernando rir das piadas sem graça de programas humorísticos, era motivo para que Thaís olhasse com desprezo para o marido. Já o sorriso dela, dificilmente era visto. Surgia como reflexos do sol em dias chuvosos de inverno, tão rápidos quanto melancólicos. Não que ela fosse mal-humorada, de maneira alguma. Gostava de viver, gostava de se divertir, apenas não queria fazer mais isso ao lado do marido. Talvez, temendo que ele pudesse estragar tudo com algum comentário desagradável, como tantas vezes fez.
Para Fernando, Thaís é quem tinha desencantado.
- Como a mulher de meus sonhos pode ter se transformado tanto?
Em que curva do caminho teria perdido aquela energia que ele tanto admirava? Era maravilhoso estar ao seu lado. Ele aguardava com ansiedade o momento de chegar do trabalho, surprendê-la com uma delicada flor e ver o seu sorriso iluminando tudo ao redor, mostrando que, sim, valia a pena estar vivo. Valia a pena amar outro ser humano. Mas que nada. Tudo o que viveram era como um castelo de areia. Bonito de se ver, mas fácil de ser destruído pelas intempéries.
Certa vez, Fernando leu que não existia ferida que o tempo não curasse. Assim, pensou que a crise entre os dois logo passaria. Outra besteira. Nada passava. Thaís resgatava erros do passado, no limbo das lembranças, para jogar na cara do marido, como se fosse um trunfo capaz de assegurar-lhe uma vitória em meio às constantes batalhas conjugais. A raiva era visível nos olhos de Fernando, cada vez que sua esposa sugeria que conversassem sobre a relação.
- Não dá mais, Fernando. Nós temos que fazer algo...
O desabafo, para ele, mais soava como uma acusação. Devia, sim, existir um culpado para o fim de tudo o que acreditavam, mas nenhum dos dois queria tomar para si essa responsabilidade. O casamento acabou. A convivência pacífica e racional se tornou impossível. Por isso era tão bom assistir aos filmes açucarados americanos, com seus finais tão perfeitos. Só assim, para acreditar que duas pessoas seriam capazes de dividir a mesma cama, acordar com mau hálito, usar a mesma escova e, ainda assim, serem felizes para sempre.
Para os amigos, Thaís e Fernando viraram estatística.
- Mais um casamento que não deu certo...
Tudo bem, agora é levantar a cabeça, tentar esquecer e procurar viver, sem precisar se deparar com toalhas molhadas em cima da cama, sapatos e meias espalhadas pela casa, fios de cabelo pelo sofá, CD's do Richard Claiderman. O difícil era conviver com aquela angústia que insistia em acordá-los no meio da madrugada, acompanhada de uma ou outra lembrança oriunda de um tempo em que eram felizes, seguido de um inevitável sentimento de culpa por não terem sido capazes de contornar seus problemas da forma mais singela: com um sincero pedido de desculpas, acompanhado de um beijo amoroso. Talvez aí residisse o "X" de toda a questão. A vida a dois era mesmo muito complicada para se tomar decisões tão simples.
Márcio Brasil
Enviado por Márcio Brasil em 14/09/2006
Código do texto: T239919

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Sobre o autor
Márcio Brasil
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil
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