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Uma boa estréia na vida

                                                 
É uma pena que se chegue, finalmente, a uma compreensão do que seja a vida em idade avançada, já muito próximo ao fim inevitável. Seria essa compreensão uma espécie de conformismo, uma paz advinda do abandono total de qualquer expectativa de saída em face do fim que se avizinha? Ora, pois, que se for, a tão propalada sabedoria dos idosos não passa de uma derrota, em que, simplesmente se desiste de lutar, e que a paz se adquire no exato momento em que se admite a derrota. Pois toda e qualquer luta contra a vida é inútil e apenas pode gerar sofrimento; então o mais adequado é parar de se debater e deixar-se levar pelas suas correntes que, aleatoriamente ou não, transportam rumo a um futuro incerto. Cumpre notar que tal disposição pode ocorrer em qualquer idade, e somos hábeis se aprendemos a boiar como madeiras em que a vida se extinguiu. Temos sorte se conseguirmos montar numa canoa. E, mais sorte ainda, se embarcarmos num transatlântico que não se chame Titanic... Ou na primeira classe de um Concorde, caso isso ocorra em idade tenra e mantendo-se os olhos abertos para que alguma coisa de sólida seja adquirida para sempre.

Embarcar num “avião” foi, propriamente, uma sorte para Gustavo, jovem estudante de vestibular, que conheceu Madalena, senhora desquitada de vinte e oito anos, em um ônibus. Afinal, é o sonho de qualquer homem, qualquer que seja a sua idade, conquistar uma mulher de vinte e oito anos, marco temporal que parece dar às mulheres toda a sua pujança. Para os jovens de dezoito anos, como Gustavo, ela parece ser uma mulher vivida e experiente, capaz de assegurar um eficaz aprendizado. Para os mais idosos, o motivo é um pouco semelhante, acrescendo-se o viço, a beleza e a juventude que aos seus olhos elas tem.

Tão logo a viu subir no ônibus, levantou-se e ofereceu, educadamente, o seu lugar para que sentasse. Viu, por debaixo do seu boné, um tufo de cabelos dourados, e uma certa umidade em seus olhos castanhos. Estaria chorando? Adivinhou, do alto, os seus seios firmes, cuja linha central divisória aparecia como uma espécie de sinal de trânsito em forma de seta, indicativa da direção única, e sentiu o seu perfume doce. Estava tão entretido em admirá-la, que perdeu o ponto de descida, na Praça Quinze. Quando deu por si, já estava na Escola de Circo, próximo à Praça da Bandeira.

Desceram, coincidentemente, juntos, na Praça da Bandeira, e Gustavo nunca teria encontrado coragem suficiente para interpelá-la, como um conquistador tão seguro de si, se a moça não estivesse em dificuldades para carregar uma grande mala, o que apenas conseguia com muito esforço, usando ambas as mãos. Sim, chorava francamente, sem esconder as lágrimas que desciam como pontos de luz, esbarrando na pesada mala com os joelhos, à medida que dava pequenos passos.

Diante de tanta dificuldade, Gustavo ofereceu-se, cavalheirescamente, para carregar a mala na travessia da larga avenida por onde o metal dos carros se arremessava como pontas de lança em uma batalha.

A travessia pareceu durar uma eternidade; quando chegaram do outro lado, não eram mais uma jovem mulher aparentemente desesperada e um rapaz de dezoito anos, e sim um casal cheio de solidariedade, tal como uma casa em que as paredes se sustentam entre si, tanto que continuariam juntos até o destino da moça, o apartamento de uma amiga, no final da rua Mariz e Barros; Gustavo iria mais longe, se fosse necessário...

Naquele curto trajeto, Madalena parou de chorar; sem mais lágrimas, os seus soluços se transformaram em fungadas periódicas, como uma manifestação alérgica devida à fumaça dos automóveis, à poeira ou ao vento frio da manhã, que varria a praça, considerada uma das mais feias do mundo, onde, na realidade, não há espaço para pessoas, ou jardins, ou brinquedos para crianças, mas tão somente pistas de rolamento de veículos, que estão sempre atulhadas. É como uma íngua na circulação vital da cidade.

Naquele dia, Gustavo não foi à aula. Para dizer o mínimo, nem retornou para casa. Parecia que a missão que a vida lhe reservara, e que estava oculta até então, era simplesmente vê-la e permanecer com ela o tempo todo, sentir o seu perfume e ter ganas de passar as mãos em seus cabelos dourados. As suas lágrimas recentes foram provocadas pelo namorado, ou noivo, ou amante, um sujeito grosseiro que a havia expulsado de casa quando soube que ela estava grávida. Eis que nesse ponto se unem o desejo de servir e de proteger com a necessidade de gravitar em torno de um ser que, como átomos e moléculas que se unem com a proximidade, o atraía irresistivelmente. Lembrou vagamente de uma prova de química que teria que fazer naquele dia, e para onde estava se dirigindo, quando foi desviado de seu caminho por uma força tão mais poderosa.

Permaneceram juntos por vários meses. A sua barriga, de início imperceptível, foi se expandindo, dia a dia; uma pequena gota de vida lutava por sua existência. Gustavo aprendeu naquele pequeno apartamento, na rua Mariz e Barros, todas as lições que perdia faltando às aulas. Aprendia a Física com as alavancas de seus braços, com as colunas de suas pernas, a Matemática na circunferência de seu ventre, escrevia redações na superfície daquela barriga que se ampliava, e os mistérios da Biologia em seus pelos e glândulas que ingurgitavam a cada dia, no incessante trabalho de fabricação da vida. Olhando-os, sós, na hora do jantar, era impossível não se emocionar por toda a humanidade sofredora, tão frágil e, ao mesmo tempo, tão cheia de energia e esperança no futuro; um garoto de dezoito anos e uma mulher abandonada ousavam manter uma vida que cresce.

Mas o momento estava chegando; a ansiedade crescia, junto com a barriga. Gustavo achava que permaneceriam juntos para sempre. Mas Madalena sabia que seria impossível. Duas crianças para cuidar, era demais. Além disso, o pai da criança a havia procurado, queria se reconciliar antes do nascimento.

Gustavo fez o impossível para manter-se calmo e não explodir em um choro incontido. Tinha que dar uma demonstração de maturidade, que, para ele, significava ficar impassível - achava que adultos não choram - escutando a notícia da separação inquestionável. Só chorou depois, quando estava sozinho, na rua.
Enfrentaram bravamente as provas.


***
Quando depois falaram, foi por telefone. O neném já havia nascido.
- Botei o nome de Gustavo, disse ela.
Gustavo sentiu-se emocionado com a homenagem.
- E as provas, passou?
Gustavo quase mentiu, para não preocupa-la. Mas acabou confessando:
- O vestibular? Ainda não passei, estou esperando a reclassificação.
- Pois comigo você foi completamente aprovado!

Era uma gentileza. As suas notas foram péssimas, dificilmente passaria neste ano. Mas com ela obtivera notas ótimas, certamente uma boa estréia na vida.

A Praça da Bandeira continua feia como sempre foi; mas Gustavo a acha linda, e percorre com os olhos a travessia, até a rua Mariz e Barros, esperando ver mães brincando com seus filhos nos brinquedos inexistentes, sempre que o seu ônibus atravessa aquela íngua congesta de carros e de recordações.

     



   
Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 14/09/2006
Código do texto: T240001

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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