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Asas partidas



Dez horas da noite , buzinas e alto-falantes a todo volume anunciam o sábado. Fez calor o dia todo e agora um vento andarilho brinca com os galhos das árvores.

Celso está no apartamento, último andar. Seus companheiros são o ronronar do refrigerador e a tevê sintonizada num canal qualquer.

Sábado, bem que podia descer. Deixar seus pés traçarem um mapa desvairado pelas ruas. No entanto, aceita sua prisão domiciliar, sua solidão.

Do hall vêm ruídos abafados. Como um detetive, encosta o rosto no olho mágico e observa.Um casal jovem se abraça próximo às escadas.As mãos do rapaz procuram os seios da moça, descem mais e se quedam úmidas. A mulher suspira e morde a orelha do rapaz. As cenas se sucedem, alheias ao liga-desliga das luzes automáticas. Celso resolve se desligar do quadro e desgruda-se da porta.

Volta a seu mundo e deixa o corpo se recostar no sofá. Fecha os olhos. Em sua tela mental, o cotidiano é exibido em fotogramas, num ritmo de slow-motion. Recorda-se de sua timidez, do contato monossilábico com os vizinhos, com os colegas de emprego.Desvia-se destes pensamentos e se distrai olhando a tevê. Um filme antigo mostra um cow-boy valente, porém solitário. Rejeita a identificação implícita.

Este apartamento é seu mundo.Lembra um refúgio, imune ao ataque das forças ocultas que vão, cotidianamente, apodrecendo suas esperanças.Abre uma garrafa de uísque e serve-se de uma dose dupla. Uma sensação boa e quente percorre seu corpo. Renova a dose. Em breve, o volume da garrafa vai descendo, torna-se um reservatório vazio. De bebida e de ilusões.

Agora o teto parece girar, é um carrossel. Rodopiam juntas suas angústias, o pôster da banda de rock, os livros de Hermann Hesse, sua solidão.A estas altas horas as pessoas devem estar se amando, dormindo, esquecendo a morte nos bares.

A madrugada vem e lhe beija o corpo quase enregelado. O canal de tevê já saiu do ar. Jaz sepultada no carpete, a garrafa de uísque vazia.Ele rasteja no chão.Rola. Como um animal abre os braços. Asas. Quer voar acima destes prédios, desta madrugada, para receber o novo dia. Domingo.

Ricardo Mainieri
Enviado por Ricardo Mainieri em 14/09/2006
Reeditado em 02/03/2007
Código do texto: T240008
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ricardo Mainieri
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
1919 textos (29385 leituras)
1 e-livros (105 leituras)
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Ricardo Mainieri