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Resgate sua criança

No  mundo conturbado que transcendi a capacidade  de entender atual,
aquela mulher se deixa elevar por uma “voz firme”, a um caminho
que não lhe é estranho.
Movida pelas emoções, ela sobe uma longa escada de uma pequena e velha casa branca amarelada pelo tempo, de paredes trincadas, rebocos deformados.
Não entendia o que fazia ali depois de tantos anos, mas ali estava e a sensação de estar ali, era agradável e segura.

Ouve a “voz firme” que lhe comanda ao longe pedindo a que procurasse pela sua criança.  Sem qualquer receio ela obedece á voz.
Vê-se  em uma  sala onde tem apenas uma velha mesa sem cadeiras, talvez tenha sido ganhada ou  pega em algum local abandonada. No chão crianças pequenas sentadas comendo em antigos pratos esmaltados.
Apesar de sentir uma saudade invadir seu corpo, vê que  sua criança não está ali.

Como em sonhos, já se vê na cozinha... nota-se que o piso era  chão de  terra socada. Ao lado esquerdo um fogão de lenha acesso e uma senhora cantarolava distraidamente.
Um sentimento de desejo em abraçar aquela senhora era enorme, mas sente uma ausência no coração, lembranças vazias, uma dor intensa faz seus olhos lagrimar...

Sem entender a mulher atravessa uma porta aberta e se vê em um espaço aberto de terra (conhecido como terreiro no interior), nota-se um quartinho pequeno branco, uma velha porta de madeira esburacada entreaberta.
Lembra-se que ali era o banheiro fora da velha casa.

Ao longe risos de uma criança vem ao seu ouvido, ela se vira e vê uma garotinha correr ao seu encontro.  Movida pela emoção a mulher se abaixa para receber a criança.  Ao chegar a sua frente, a mulher nota uma menina de mais ou menos 4  ou 5 anos, cabelos loiros como o sol ao longo dos ombros com pequenos cachos, franjinha, de vestido surrado e velho, sapatinho preto rasgado , mas com um sorriso encantador.

Novamente ela ouve a “voz firme” ao longe dizer:
Abrace-a... está criança é você!

A mulher abriu os braços acolheu aquela pequena criatura, sentindo-se maravilhosamente aconchegantes aqueles pequenos braçinhos ao redor de seu pescoço, coraçãozinho dela batendo juntamente com o seu.
Seus olhos fluoram lagrimas... sente-se que poderia ficar ali uma eternidade.
Aquele abraço lhe daria a sobrevivência que precisava.
De repente a criança solta-lhe, e volta a brincar.

A mulher ali ficou a abservar a pequena menina feliz, ela não tinha qualquer pensamento sobre o seu futuro, a trajetória que viria pela sua vida.
Notara que aquela garotinha tinha algo semelhante a ela.
Não se lembra quanto tempo ficara ali, mas foram momentos de paz, equilíbrio e lucidez.

Novamente a “voz firme” pede à mulher que retorne, mas ela se mantém firme no local vendo a criança feliz, ela não quer retornar...
De repente a mulher sente algo agradável passar-lhe pelo rosto, nos ombros ao longo do braço lhe confortando.
Percebe que voltar não parecia tão ruim,  afinal a “voz firme”  que  a chamava a fazia sentir segura.

Resolve voltar...quando sente uma mãozinha pegar-lhe á sua mão, ao olhar vê a linda criança, que lhe pergunta?
- Você já vai? A mulher com a voz embargada, balança a cabeça afirmativamente.
- Mas não pode me deixar aqui, eu te faço feliz...
- Você ainda não percebeu que eu sou você?
- Eu nunca deixei você, simplesmente você me colocou no cantinho de seu coração.

Novamente  ela ouve a “voz firme” pronunciar seu nome com suavidade e ela se sente segura e sai...
Uma claridade aos poucos vem chegando aos seus olhos, ela pisca fortalecendo sua visão.
De repente nota-se que estava deitada em uma maca e de volta ao seu mundo atual.
Ali se manteve,  por alguns minutos respondendo o que a “voz firme” lhe perguntava.  Às vezes, sorria, chorava mas se sentia leve e calma, pois estivera com sua “criança feliz”.

E onde "ela" estaria agora?
Será que ela teria ficado com as crianças na sala?
Teria vindo junto com ela e estava novamente dentro do seu coração?
Não quis entrar em detalhes, queria apenas manter aqueles momentos ainda vividos dentro de si...


A casa velha?  Onde vivi minha infância.
As crianças na sala?  Meus irmãos
A senhora no fogão?  Minha MÃE
A criança?  Sou eu
A mulher?  Sou eu
A “voz firme”?  Meu psicólogo.


(Texto real acontecido em 05 de setembro de 2006)
Deixo aqui registrado meu eterno agradecimento ao meu psicólogo, que me fez sentir criança novamente e descobrir que: “Um dos maiores erros do ser humano é tentar tirar da cabeça quilo que não sai do coração.”

Publicado também no site:
http://nelmaracosmo.com/forum/viewtopic.php?p=1221&highlight=#1221


     
Musica: Vamos construir
Cantora: Sandy e Junior
Cida Janes
Enviado por Cida Janes em 16/09/2006
Reeditado em 21/03/2008
Código do texto: T241593
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Cida Janes
São Bernardo do Campo - São Paulo - Brasil, 51 anos
89 textos (54389 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 10:05)
Cida Janes