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Joâo, no meio da noite

Quando acordasse falaria. Não poderiam continuar juntos. Queria retomar a sua vida; voltar a velha rotina de segurança e tranqüilidade. E assim foi. Abriu seu coração com ele, chorou, sorriu, ficou arrependida, o abraçou, para voltar a afirmar a sua decisão final: queria a separação, ele teria que ir embora.

- Puxa, Violete, como tu me entendes! É exatamente o que eu queria, mas não tinha coragem de falar...

Achava que uma outra rejeição o jogaria definitivamente no rol dos imprestáveis; tinha que arrumar um jeito de negar a rejeição. O que aconteceu depois foi uma tragédia; completou o movimento com uma frase que misturava crueldade com vingança;

- Estou mesmo querendo ter uns filhos, como todo mundo, ter uma família normal.

Violete explodiu num choro incontido e com muitos soluços; então o cretino queria ter filhos; e para isso ela não servia, era uma velha; servia apenas para garantir a sua boa vida irresponsável.

- Você não acha que é muito tarde para isso? Você não é nenhum garotinho. E alem disso, nem consegue ganhar a vida. Vai botar mais uns miseráveis no mundo. E depois abandoná-los?
- Olha, Violete, podemos nos separar numa boa, sem brigas, por favor.
- Sem brigas! A nossa vida toda foi uma grande briga! Vamos até o fim; agora você vai ter que escutar!
- Ora, tivemos alguns momentos bons; mas sabíamos que era tudo uma brincadeira, desde o inicio. E agora tu não queres mais brincar. Tudo bem, vou procurar minha turma.
- Pra mim nunca foi uma brincadeira. Tirei você do lixo; cuidei de você, consertei sua boca; arrumei trabalho para você, que você nunca se interessou em manter. Sabe por que? Porque é um cretino, imprestável.
- Não me dou bem com horários comerciais. Além disso, cansei de tocar porcaria. Só trabalho por prazer.

Os argumentos foram colocados, os prós e os contras; ambos tinham suas razões e argumentos. Cessaram os ataques; agora as preocupações. Com uma pontinha de ciúmes, Violete perguntou:

- E aonde você vai arrumar uma mulher para lhe agüentar?
- Estou providenciando.

Tantas vezes brigaram e nada aconteceu. Agora parecia sério; como uma barragem que cede, corroída por formigas, a situação se resolveu naturalmente; porque todas as possibilidades foram esgotadas.

João arrumou suas coisas, e no meio da noite se preparou para sair.

- Não precisa ir agora. Pode dormir aqui. Vai amanhã.

Mas ele preferiu ir. Quando o elevador chegou, ela ainda encontrou forças para dizer, docemente.
- Qualquer coisa, me ligue.

Ligo nada, ligo nunca mais; uma vez flamengo, para sempre camarada. Graças, me livrei dessa chata; tem sorte de não pedir pensão alimentícia; não, isso eu não faria, é muita sacanagem; não quero mais nada com ela, nem um processo judicial que nos una para sempre, laços indissolúveis, é o cacete.

 Chuva cacete, né? Agora voltar pro lixo, que é o meu lugar, pra zona de baixo meretrício, para o baixo Leblon, para o bas fond, o baixo fundo, a Barra Funda, a barra do pela aí; mas, por enquanto, ainda tenho uma grana guardada na meia; cuidado com os assaltantes, mas eles sabem reconhecer um artista; pior são os pivetes, que não sabem coisa alguma, nem reconhecem ninguém; são uns incompetentes, não se pode mais morar nas ruas, é muito perigoso, e eu cheio de malas, e embrulhos, devia ter deixado pra trás, vou deixar no boteco do Mané.

 Mas com o Beni foi assim, o ladrão pediu o seu relógio e ele não deu; no ônibus; tinha muita gente e muito relógio pra eles roubarem; e o ladrão disse “vou livrar a sua cara porque você tem cara de cantor”; viu, eles sabem reconhecer um artista; e um artista está sempre onde o povo está. E eu vou pra onde? Desgraçada, me botar pra fora, no meio da noite, gorda safada, e eu querendo satisfazê-la, com aquela xoxota enorme, precisa de um jumento, desgraçada, os peitões sufocantes, o avental de banhas; mas até que era perfumada; limpa ele é; e tem uns braços que Machado ia adorar; ele é que podia montar nela, como num hipopótamo; Sair cavalgando a gorda, agarrado naqueles peitões; Vai, Machado, anda gorda; e depois ela crescia, ficava enorme, como naquele filme do Fellini, que a mulher saí do anuncio de leite, a Anita Ekberg, gostosa como o que, aquilo é que é mulher, grande, com uns peitos duros e cheios de leite; até que a gorda não é tão ruim assim; ainda tem um pouco de suco nela; Machado podia beber um pouco de suco na sua peitaria. Vai, Machadinho, mama, que eu deixo! Você é como nós; não teve filhos; não deixou a ninguém; o legado; a nossa miséria; é por isso que inventou a academia; para ter quem carregasse o seu caixão; um monte de velhinhos, todos prontos para pegar na alça do caixão; É porque Machado estava preocupado com o seu enterro; onze amigos; chuva cacete que peneirava; discursos à beira da cova. Mas eu queria ter filhos; quero legar tudo; quem sou eu para decidir, ser um deus ao avesso, um deus da não criação? Muita pretensão; ou muita incompetência: fugir daquilo para o que fomos programados. A violência, a confusão, a fome, os filhos, pra quê tê-los? Tê-los, tê-los, sim, é o mínimo que podemos fazer para incomodar os poderosos; encher o mundo de filhos, para que eles exijam a sua cota, no futuro; vamos socializar um pouco de miséria, que a riqueza já tem dono; eles estão doidos pra nos esterilizar, já não precisam de mão de obra, tem robôs e chineses para trabalhar barato; e nós com problemas trabalhistas a lhes encher o saco; Mas que se danem os malditos, os que vieram pra se locupletar, vamos querer a nossa parte, a nossa cota de miséria, porque não? As mulheres estão aí, querendo ter filhos, muitos óvulos prontos para brotar, muitos úteros prontos para crescer. Como sementes de capim. Caules de mandioca; é só colocar na terra que brota. Não precisa nem cuidar. Brota e cresce, sem cuidado; vai em frente, tomando o espaço, ganhando o mundo, ocupando tudo. É por isso que eles querem nos esterilizar, e nos jogar num beco sem saída; para que achemos que não vale a pena; para que o mundo fique só pra eles. Mas não vão conseguir, não vão.

 Filhos porque quí-los... E ninguém tem nada com isso.




Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 18/09/2006
Reeditado em 18/09/2006
Código do texto: T243055

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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