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A mulher fumaça

A mulher fumaça

   — Sinto-me como se o vento pudesse levar o que sou como se fosse fumaça. — pensava Hebe naquela manhã ao mirar suas olheiras no espelho.
   Parecia que todo seu esforço para viver tranqüilamente era em vão. Com aquelas crises de ciúme desmedido seu namorado sugava toda sua energia. E nem era apaixonada por ele!
   — Ai, amiga! — lamentava-se para Carol — Quando estava sozinha sentia-me como um pássarinho voando pelos campos, pousando nas árvores e cantando o dia todo, mas agora... — não conseguia passar daí pois o pranto dava uma cotovelada na voz e saía primeiro.
   Ela sentia falta daqueles finais de semana tranqüilos que passava lendo e escrevendo. Ler e escrever: era quando voava, quando era livre.
   O que outros chamavam de solidão, ela chamava de sossego, mas precisava de um relacionamento, uma cumplicidade, um compromisso, um carinho mais assanhado, um abraço que não fosse de amigo, um olhar que dispensasse palavras... precisava de um homem só seu. Mas parecia ter ganhado o namorado numa rifa, no bingo ou de um amigo da onça, sem direito a escolher, trocar ou devolver.
   Joel — era esse o nome do “homem-ciúmes” — pegou-a pelo braço com tanta força, berrando palavrões só porque ela deu boa noite para o porteiro do prédio. Ficou tão magoada que chorou a noite toda.
   Ao olhar as manchas roxas em seu braço, Hebe abaixou a cabeça e deu-se conta de que agora sentia solidão. Sentiu-se como um emaranhado de coisa alguma, uma mulher chamada “Ninguém”, por isso acordou no dia seguinte sentindo-se como fumaça.
   Depois desse dia ninguém mais ouviu falar de Hebe. Alguns diziam que ela havia fugido de Joel, outros afirmavam que mudara-se para a casa dos pais — que morreram havia algum tempo —, algumas línguas de fogo juravam que Hebe havia assumido seu romance com Carol e os mais românticos diziam que ela metamorfoseara-se, tal qual uma borboleta, num lindo poema de asas coloridas.
   O certo é que ninguém sabe se ela virou passarinho ou fumaça.

Carlos Henrique Fernandes Gomes
Enviado por Carlos Henrique Fernandes Gomes em 19/09/2006
Reeditado em 22/09/2006
Código do texto: T244340
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Carlos Henrique Fernandes Gomes
São Paulo - São Paulo - Brasil, 45 anos
196 textos (12978 leituras)
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Carlos Henrique Fernandes Gomes