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Vida de Bancária
Tere Penhabe

20.09.1976!!! Grande dia esse! Foi quando eu comecei minha árdua carreira de bancária, aliás, na época, economiária, porque a Nossa Caixa ainda não era banco.
Certa de que enriqueceria em pouco tempo, e mais certa ainda de que havia finalmente encontrado o mapa da mina para a felicidade, lá fui eu para o meu novo e almejado emprego.
Fui apresentada à meia dúzia de gatos pingados, no sentido literal da palavra, porque eram aqueles funcionários públicos antigos, que usavam monossílabos para falar com o cliente, sem nenhuma empolgação pelo trabalho e muito menos pela entrada de novos funcionários, que poderiam lhes "tomar o lugar".
A minha inimiga número um foi a última a ser apresentada: a Ascota.
Já ouviram falar desse monstro chamado “Ascota”? Se não ouviram, não perguntem, é um conselho que eu lhes dou, de bom coração.
Era uma coisa grande, sabe? Mas tão grande, que nem de braços abertos eu conseguia alcançar toda a frente da danada daquela máquina. E quando a gente apertava alguma coisa errada, ela dava um pulo e voltava galopando feito uma doida para o lado da gente. O coração disparava e parecia que ia sair pela boca. Eu até acho que é por isso que agora os médicos estão dizendo que estou com algumas lesõezinhas no coração. Só pode ser detrito remanescente da Ascota. Sim, porque aquilo me acompanhava dia e noite, estivesse eu acordada ou dormindo, ela estava do meu lado...BUM...bum... BUM... era o "barulhinho" que ela fazia quando creditava ou debitava algum valor na conta de um cliente. Bin Laden com certeza teria gostado daquilo...
E sabe o que diziam pra gente? Que a Ascota era a “precursora do computador”; que depois dela, teríamos a máquina inteligente, que faria tudo sozinha, sem precisar de nós.
Isso me deixava mais apavorada ainda, porque eu já antevia a correria que seria para me esconder no banheiro, quando esse tal de computador resolvesse me grudar pelo pescoço... sim, porque se aquele trambolhão ali, que não era inteligente nem nada, já estava massacrando meu pobre coração de sustos, o que não faria o sucessor dela?
Assim foi seguindo a vida, uma briga de foice entre eu e a tal da Ascota, mas para minha alegria, rapidamente fiquei livre dela, porque ninguém queria mexer com dinheiro, e precisavam de um caixa. Quando me perguntaram, aceitei prontamente, sem nem saber detalhes. Eu mexeria até num ninho de serpentes, pra ficar livre da tal Ascota...
Ah, mas aí a coisa mudou! Aquilo sim era felicidade, minha gente! Eu
trabalhava das sete de manhã às dez da noite, para encontrar todas as diferenças produzidas pela tal ascota, mas não importava, desde que eu ficasse longe dela, era a glória para mim.
Muitas vezes, depois das dez, ainda passávamos na lanchonete do Pinguim, para comemorar mais um fechamento de caixa. Fechar o caixa equivalia a ser membro do AA... tinha que viver um dia de cada vez, porque nunca sabíamos o que aconteceria amanhã. O amanhã a Deus pertence, mas lá, pertencia à Ascota. Ia depender dos trancos que ela desse, da mãozinha ordinária que ia apertar alguma tecla errada, para termos o fechamento do dia, às 19... 20...21 ou sabe-se lá a que horas da noite. .
Quando ninguém errava, tudo batia certinho, mas ninguém acreditava, e vasculhava-se tudo para encontrar os acertos todos e ver se estavam certos mesmo.
Mas a gente era feliz! Como a gente era feliz!
Alguns colegas ainda ousavam sonhar com o tal do computador, mas eu, desde o medo que senti de ser estrangulada por ele, nunca tive essa ousadia não. Apaixonei-me pela Ascota. Fiquei tão amiga da infeliz, que tudo que dava errado lá, prontamente me chamavam, como se fôssemos velhas conhecidas... e me perguntavam como eu tinha conseguido entender aquilo em tão pouco tempo.
E eu respondia: -Elementar, meus caros...quando você não pode com o inimigo, junte-se a ele!
Era exatamente o que eu tinha feito, e lá do outro lado da agência, eu sabia, por um trim mais afoito dela, quando tinha alguém fazendo “kaka”. Eu corria para acudir, porque na hora era mais fácil detectar o erro, e nunca falhava! Bastava uma olhadinha, pra ver a “bestagem” que haviam feito...e como faziam!
Mas foram bons tempos, com certeza! Até que um dia, anunciaram a chegada dos computadores... e lá se foi meu sono para o brejo.
Nos 20 ou 30 dias que antecederam a implantação, meus pesadelos foram horríveis. Eu cheguei a pensar em procurar a psicóloga, porque aquilo me dominava a noite inteira...
Eram dragões e mais dragões, verdes, marrons, todos cheio de labaredas por todos os lados queimando o cofre, queimando minhas clientes na fila... um horror!
Mas eu aprendi a gostar dos tais "bichos" também. Eles não eram tão horríveis quanto se apregoava. E mesmo sendo mais burros que nós, ajudavam bastante.
Eu digo que eram mais burros que nós, insípidos seres humanos, porque a idéia que eu tinha de computador era mais ou menos parecido com uma britadeira, onde você ia jogando os papéis do lado de cá, e pegava tudo prontinho do lado de lá...rs
Quando eu descobri que não era bem assim, fiquei um tantinho decepcionada, e a decepção aumentou bastante com o passar dos dias, quando descobri que precisávamos conferir e corrigir tudo que "ele" fazia, os erros que cometia, e que não eram poucos. Só muito tempo depois é que vim a descobrir, que os responsáveis pelos erros, eram “asnos” bem parecidos conosco mesmo.
Bom, a minha amada Ascota, um dia virou entulho e foi levada embora. Fiquei triste, quase chorei nesse dia, porque eu me apeguei aquele trambolhão. Desde essa época, eu compreendi melhor o que dizem sobre o amor e o ódio serem sentimentos irmãos.
Mas uma grande lição, eu tirei dessa minha passagem: diante de uma grande dificuldade, para vencê-la, é muito mais fácil, se você olhar para ela com carinho e boa vontade.
O medo e a prevenção, só fazem atrapalhar. Com eles, eu e a minha querida Ascota, jamais teríamos escrito esta história bonita de alegria e boas condições de trabalho.

Itanhaém, 22.04.2004_12:30 hs 
www.amoremversoeprosa.com

Tere Penhabe
Enviado por Tere Penhabe em 20/09/2006
Código do texto: T244789

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Sobre a autora
Tere Penhabe
Santos - São Paulo - Brasil, 61 anos
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Tere Penhabe