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Fuga

Eu já estava livre, e nada tinha para fazer. A manhã estava linda, o sol esquentava sutilmente, o tempo estava frio... O vento soprava entre as árvores, e eu aproveitei para ir andar por aí... Talvez para tentar esquecer tudo sobre nós dois, ou talvez para tentar voltar, ou ainda, para tentar te encontrar, de repente.
Ir para onde? Qualquer lugar... Não importava qual.
Comecei passando pelos lugares que costumávamos ir juntos... Lembra-se deles?... As praças abandonadas, as ruas silenciosas, as casas escondidas entre as árvores... A única diferença é que agora estava sozinha.
E qualquer música na minha cabeça, e ela não era "nossa" até a noite de ontem, mas eu acho que tem um pouco a ver com a gente... "Hold me now, warm my heart... Stay with me and let the love start...", era algo mais ou menos assim. Eu sei que tu vais entendê-la quando ler este texto.
E enquanto a música tocava, eu ia passando calmamente pelos nossos lugares... Parecia que eles eram lugares estranhos, que eles tinham mudado... "Essa casa estava aí antes? Será que foi alguma tinta que passaram nesses bancos?"... Mas não era nada disso.
Talvez o motivo para tanta estranheza viesse de mim. Tu já não estavas mais ao meu lado com teu sorriso, eu já não olhava mais para ti com olhar apaixonado, como também não olhava assim para esses lugares... O que é triste, e eu sei que sentirei falta por muito tempo ainda.
Eu ia caminhando, devagar, enquanto via cada canto, cada casa, cada árvore... Um gato na esquina, preto, me encarando... Eu paro para olhar ele também... Penso que tu farias o mesmo, e abro um sorriso.
Mas não estava tudo tão calmo e feliz dentro de mim. Eu me sentia queimando, me sentia morrendo, sendo consumida por um sonho que corrompe minha visão, dificulta meu bom senso e dilacera meus dias...
-Bem, o que importa? Ele não está aqui mesmo.. Se eu quiser, posso chorar agora... Ninguém daqui me conhece, e eu provavelmente não verei tão cedo essas pessoas... Ou não serei reconhecida.
Eu olho para o céu - Realmente, o dia está lindo hoje - digo e depois suspiro, me sentindo só por não estares aqui.
Eu caminhei por tanto tempo nesta manhã... Eu ainda não sei o que procurava, e se encontrei, perdi novamente... Talvez eu procurasse pelas nossas lembranças, ou pela tua imagem petrificada em algum lugar...
Enquanto andava parei em uma casa que estava para vender. Ela era linda, e eu ia entrar nela, mas vi que a porta estava trancada... Tinhas que ver como é bela. O pátio da frente tinha algumas árvores que o deixavam escuro, onde apenas alguns raios de sol entravam pelo espaço entre as folhas... Lindo mesmo.
Eu deixei que minhas pernas me levassem, e ia passando por lugares que eu não tinha visto ainda.. .E enquanto isso eu lutava com as lágrimas... Era como se eu estivesse refazendo nossos passos... Andar por lá ainda me deixava comovida.
Eu não lembro bem o que eu pensava enquanto andava... Será que eu pensava em alguma coisa?... Se sim, era em tudo o que eu deixei de fazer, em relação a nós... Estava pensando em você, no que eu pensei que tu eras, nos meus sonhos... E eu lembro das tuas palavras, das tuas tentativas de um possível retorno... "Eram sinceras?"... Eu constantemente me pergunto sobre isso, mas ainda não achei a resposta.
Bem, de qualquer forma, não temos mais nada o que fazer... Isso é uma pena, porque eu realmente gostaria de estar ao teu lado... Exatamente agora, e também antes, enquanto eu andava por aí.

E um, dois, três pássaros param na minha frente... Eles notam minha presença e voam para longe, enquanto eu caminho entre eles. Essa paz melancólica me deixa pior do que eu estava quando saí...
Mas às vezes ela é cortada: por algum gato na esquina, algum cachorro que late nos meus ouvidos e eu levo um susto... Ou algum bebê que me vê passando e abre um sorriso enquanto aponta na minha direção, dizendo: Nenê! Nenê!... - e a mãe responde - Não filha, é moça, não nenê... - e então ela diz: Moça, moça!... E me vigia atravessando a rua.
Bem, eu até poderia dizer que a manhã foi boa... Foi boa sim, fora quando eu passava por uma rua movimentada de mais, aquele barulho irritante de carros e ônibus para tudo quanto é lado, aquelas pessoas estranhas, andando apressadas para o trabalho, para a escola... E eu ali, alheia a qualquer um deles, andando devagar - quase parando, na verdade - Uma exceção estranha no meio da bagunça que é essa cidade grande...

Mas por outro lado ela foi triste... Pois quando eu tomei o caminho da volta, e quando eu subi no ônibus, eu voltei para o que é real... Eu vi pessoas compartilhando um lugar em comum, sem nem ao menos um sorriso... Vi como é difícil para nós nos comunicarmos, em dias modernos como hoje... As pessoas se tratam como estranhas, mas se vêem todos os dias, e nós, tu e eu, que nunca nos vemos, nos conhecemos tão bem... Também vi a minha situação deprimente: Eu estou aqui, sozinha no meio desses estranhos hostis, cheia de assuntos pendentes... Com alguns deles eu nem me importo, mas já com outros, como é o nosso caso...
Olha, da tua parte pode até ser que nem estejas aí para o que aconteceu, acontece e acontecerá comigo enquanto eu continuar andando sozinha, guardando palavras, tentando decifrar as entrelinhas nas tuas falas, o mistério nos teus olhos... Pode ser que eu prossiga com isso por muito tempo ainda, e pode ser que nem te importes com o que acontece comigo... Mas eu estou tão distante dos teus pensamentos, das tuas vontades e dos teus atos... Por que me importaria com o que tu irias pensar? Eu nem me importo se vais ler isso aqui, e se algum dia ler, talvez eu já tenha - e eu espero que sim - esquecido tudo... Mas eu acho que vai ser difícil, enquanto as pedras ainda estiverem em meu caminho...
Mas voltando ao dia:
Não sei bem o que aconteceu enquanto eu andava ao redor... Parecia que eu estava longe dali... Longe de mim, viajando por algum lugar distante... Longe da minha casa, dos meus amigos... Nem lembrava deles, não lembrava de ninguém, nem pensei tanto no meu avô, que está no hospital, embora volta e meia eu me pensasse nele... Eu estava tão perto de nós, do nosso passado... Eu me sentia bem e mal ao mesmo tempo, feliz e triste, calma e ansiosa... Tudo tão igual e tão diferente... Tudo é passado, e são as mesmas "pedras no caminho", tudo o que eu não consigo dizer, e isso é parte de minhas orações...
E quando eu cheguei em casa estava exausta. Não consegui almoçar direito, e nem jantei também... Fui me deitar essa tarde... E dormi quase a tarde inteira para dizer a verdade. Não lembro o que eu sonhei, mas acordei um pouco melhor.
Eu liguei o computador, e agora estou aqui escrevendo...
Eu reli o que escrevi ontem à noite... O conto ficou bom, mas eu não vou postar ele, e te deixarei na curiosidade... A não ser que me peça ele, não irei te mostrar... Ah, ele fala sobre nós.
E de novo eu viajo... Eu escuto umas músicas, arrumo algumas palavras, erros de acentuação, concordância... Tento chegar à perfeição, mas a maior perfeição que encontro são essas folhas em branco, o coração repleto de sentimentos inexpressíveis, o silêncio constante lá fora, e nossas vozes e palavras não ditas aqui dentro... Assim eu encontro perfeição...
Ou também o silêncio quebrado só pelo vento batendo nas árvores, soprando em meus ouvidos, sussurrando nosso passado... Ou os pássaros que cantavam enquanto eu andava pelas ruas nesta manhã, as vozes infantis... Ou seria a minha?
Eu não sei bem o que aconteceu... Será que é a música que toca?... Bem, ela me lembra de nós, dos meus dias sem te ver, das nossas tardes frias, intocáveis... Todas essas músicas lembram da gente. Ah, ela também me lembra de que eu nunca imaginei que ficaria assim algum dia, mas também que isso é uma grande mentira.
As lágrimas se acalmaram... Com muito custo, ainda mais depois que eu "reencontrei" uma imagem no computador... Não sei se lembras dela... Era um desenho, onde tinha um casal de mãos dadas e no céu, voando... (mas eles não tinham asas)... Ela consegue expressar como eu me sentia antigamente. E a cada imagem que passava eram lembranças, só lembranças... Tudo por aqui são só lembranças nossas, gritando... Elas gritam tanto que eu não consigo ouvir mais nada agora... As vozes nas músicas, a tua voz, o meu choro, minha voz te dizendo como eu me sentia, tua voz ignorando os fatos, tuas palavras ignorando-me, e meus sentimentos...
Mas as lágrimas cessaram, isso é o que importa. Não sei até quando vou mantê-las assim, já aviso. Não sei se vou conseguir dormir direito essa noite, e nem como vou estar amanhã... Eu tenho convites para sair, mas não tenho vontade... Tem tantas coisas passando pela minha cabeça, e não são boas, são todas ruins... Eu me sinto pesada, me sinto inútil, imóvel, como pedra...
Se ao menos eu sonhasse contigo... Eu já pedi tantas vezes para que viesse... Para eu poder desabafar, como eu preciso agora... Estou escutando algo como "My lover's gone"... Concordo. E não és só tu quem se foi como eu também, como todos os meus sonhos e todas as minhas esperanças... Esperança de te ver como realmente és, de te ter de volta, de ser feliz de novo... Esperança de manter acesa a chama que esquentava meus dias, o meu amor por ti... Tudo isso se foi, e o que sobra aqui é uma carcaça, restos do que eu já fui, do que eu já sonhei, e todas as viagens desse dia só me fizeram acordar... Todos os sonhos apenas reforçaram a minha realidade, fizeram eu me "conformar" - embora eu não tenha sinceramente conseguido isso ainda... - e saber que você se foi para sempre, que estás longe de mais do meu alcance, dos meus abraços e das minhas mãos...
Não! Não pense que lamento tua falta, que eu sinto saudades tuas, que eu te amo... Eu amo tudo aquilo que tu nunca foste, tudo aquilo que eu sonhei encontrar em ti, e ainda tudo aquilo que costumávamos ser juntos, e não o que somos agora, quando separados... Eu demorei muito para perceber isso, ou para aceitar... E já tentei lutar contra isso, mas estaria lutando apenas contra mim mesma...
Mas, apesar de tudo isso não ser a realidade e nem chegar perto dela, eu vi enquanto eu andava - e a caminhada ajudou em alguma coisa, afinal - que eu posso usá-lo, usar todas essas lembranças, imagens de nós dois, e formar um templo, uma casa, uma proteção... Talvez algo para me dar um motivo para existir, algum lugar para onde fugir, ou ao menos algum sentimentos - por pior e mais triste que ele possa ser - nessa minha vida monótona, nisso que restou de mim... Um lugar para onde fugir, só meu... Eu não te encontrarei lá, não mais... Mas eu encontrarei todos os meus sonhos e espelhos quebrados, minhas memórias... Enquanto eu ainda lembrar disso, eu posso suportar esse peso... O peso que é saber que não tenho mais sonhos, que não tenho mais você, nem amor... E que toda a minha esperança se foi.

"Lidar com a realidade nem sempre foi fácil para todo mundo... Eles podem até dizer, se quiserem, que o pior é viver um sonho do que abraçar a realidade... Mas se a vida não me dá a sensação de estar vivendo, de que eu sinto algo, então o que resta para mim? Tudo isso é deprimente, eu sei... Mas o pior é quem foge do real ou que nega que faz isso? Ora, todo mundo foge das verdades algumas vezes, e eu não estou prejudicando ninguém além de mim mesma... Como eu também sei que você não se importa tanto comigo a ponto de ficar mal por causa disso."

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Alecrim Crim
Enviado por Alecrim Crim em 21/09/2006
Código do texto: T245929

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Sobre a autora
Alecrim Crim
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 27 anos
374 textos (14622 leituras)
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Alecrim Crim