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DIFERENTES MUNDOS





Foi na minha juventude. Posso afirmar que não menos de trinta anos. Eu ainda estava na ativa da Marinha, quando fui designado a fazer um curso em São Paulo. Os preços dos hotéis não eram tão baratos, e como eu estava sozinho, resolvi procurar um, onde as diárias fossem cômodas.
Embarquei na Novo Rio, pela Viação Cometa, às 14h e cheguei à terra da garoa numa noite fria de inverno. A chuva caía torrencialmente e eu deveria, além de encontrar um hotel com preços módicos, que não ficasse difícil a minha locomoção até o local onde o curso seria realizado.
Ao chegar à rodoviária, embarquei no metrô. Sem imaginar onde procurar acomodação, resolvi, quase às cegas, descer em uma estação, e, coincidência ou não, desci na Estação da Luz.
Bem próximo à estação, vi um letreiro luminoso onde lia-se Hotel Paulistano. Estando com duas malas e pouca opção de procura, pela chuva que inundava toda capital, dirigi-me ao hotel e falei ao recepcionista que desejava conhecer os apartamentos.
Um homem velho e preguiçoso, depois de gritar pelo nome de uma jovem, mandou que ela me acompanhasse até os apartamentos que ainda estavam vagos – e o que eu pude perceber, não eram além de dois velhos e mal tratados quartos.
Resolvi, mesmo com toda a simpatia da jovem, não ficar no quarto. Assim que desci, o homem que havia gritado pela jovem, cochilava com um cigarro preso entre os lábios e assustou-se. Depois de ter recobrado os sentidos, recebeu as chaves.
Dei alguns passos mas, preocupado pela minha segurança, resolvi voltar e hospedar-me no hotel por uma noite.  Preenchi a Ficha de Registro de Hóspedes.
Se, de início eu não desejava ficar naquele hotel, depois de observar as facilidades que eu teria em relação à locomoção até o local de curso, resolvi ficar ali mesmo. Permaneci no mesmo por duas semanas.
O simples hotel só oferecia o café da manhã, e enquanto eu degustava as poucas frutas e um pão, eu também ficava a observar o relógio da Estação da Luz. Ainda podia observar as pessoas... seus comportamentos. Nas mesas, que eram num total de seis no salão, a maioria das pessoas, que chegavam sempre sozinhas, pareciam de outro mundo. Eu sentia a solidão nas suas faces, a ambição por uma conquista vã e a incerteza dos seus quereres do sem saber o quê. E eu notava nitidamente que as suas ganâncias da vida, para elas, eram mais importantes do que as suas próprias vidas.
Seus olhares eram perdidos, seus gestos, às vezes bruscos, como a contradizerem as minhas discretas observações, morosos, sem vigores.
Depois do café, dirigia-me para o curso, só retornando no final de tarde. E ao cair da noite, a maioria daquelas pessoas chegavam e, com dificuldades, escalavam os lances das escadas a puxarem carroças cheias de apetrecho – refrigerantes e biscoitos. Quase todas aquelas pessoas eram ambulantes.
              Certa noite eu não consegui dormir. Um velho, do apartamento frente ao meu, gemia de dores. Não tínhamos trocado uma palavra sequer, mas, pelo o que pude perceber, tive conhecimento que ele ainda estava no hotel por ser aposentado, do contrário, estaria, no máximo, em algum albergue.
O outro apartamento, que ficava ao lado, uma mulher – eu tinha observado algo de anormal em relação das suas chegadas e saídas – a mesma não mantinha o ritual convencional da maioria dos hóspedes.
Ela era prostituta, como ela mesma veio mais tarde dizer ao convidar-me para um programa (que eu recusara) e a me dizer que aquele homem que gemia durante a noite, tinha câncer no estômago.
Eu, mesmo triste, me sentia debilitado sem nada poder fazer, ou por ser omisso. O que eu via com nitidez, era no rosto daquelas pessoas as dores do mundo.
Conhecendo depois o Chico, o velho e preguiçoso porteiro, fui saber que ele tinha deixado a família na Paraíba há quase vinte e cinco anos, sem nunca mais dar-lhes notícias – ele mesmo me falou, rindo e cuspindo no chão, chegando a mostrar seus encardidos dentes, como que a vangloriar-se da sua rudeza e desprezo por aqueles que tinham a incerteza da sua existência.
Parece exagero, mas uma velha, pálida, baixa, de touca, chale sobre os ombros e calça moletom –que parecia nunca tirá-la, era inquilina – segundo o velho Chico – , há mais de quinze anos.
Sendo militar da Marinha, e tendo contato com diversos tipos de pessoas e culturas diferentes, não imaginava que outros tipos de pessoas me chamariam a atenção, a não ser, lógico, por tantas peculiaridades que eu mesmo não sabia determinar ou que mesmo existissem.
Eu me sentia triste e arrasado psicologicamente. Aquelas pessoas tinham roubado algo muito importante de mim; tinham roubado, sem terem percebido, a minha alegria. Eu tinha deixado algo naquele velho hotel e desejava resgatá-lo, mas, como?!
Infelizmente, eu tive contato com tantas anomalias sociais, que de certa forma, para mim, foram muito importantes. Não no sentido de gostar de saber que meus irmãos sofrem, mas, no aprendizado. Se antes eu achava que a minha vida tinha sido difícil, vi que, sempre tem um alguém a transportar uma cruz que pesa muito mais que a nossa.
Depois do final de curso, prometi a mim mesmo que, se um dia eu voltasse a São Paulo, em férias, novamente me hospedaria no mesmo hotel para tentar entender aquelas pessoas. Para tentar criar um romance, sobre tantos filhos de Deus que não sabem que as suas ganâncias pela vida, não fazem parte da vida.
E, como que a buscar as tristes lembranças que eu lá tinha deixado, e não tendo tempo para escrever o sonhado romance, tentei criar este rascunho, não para conseguir esquecer os que sofrem e, sim – em desabafo – , para que eu continue a saber que as dores do mundo são fortes, e que eu não esqueça do meu projeto de relatar com mais detalhes e realidades o contraste social deste nosso tão rico e pobre Brasil.
Mas, ao mesmo tempo, ficarei mais triste se quando eu tiver tempo para relatar a crua realidade, lá chegar, encontrar outro velho na portaria do antigo hotel, e outras pessoas, que continuem a viver as dores que não cicatrizam, como se tivessem pego o bastão do sofrimento dos que não conseguiram chegar a LUGAR NENHUM, E A TRANSPORTÁ-LO EM SEUS OMBROS AS MISÉRIAS E SUAS FALTAS DE SONHOS!



Carlos Alberto de Carvalho (carlos carregoza)

Todos os meus trabalhos estão registrados na Biblioteca Nacional-RJ.
carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 22/09/2006
Código do texto: T246342
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
102 textos (5962 leituras)
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carlos Carregoza