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De volta...e para sempre.

Bate na porta titubiando, na incerteza de ser bem recebido. Há mais de dez anos Jorge deixara a casa dos pais. Em busca de um futuro mais promissor e cheio de sonhos na cabeça, ele partiu para a capital na tentativa de cursar uma faculdade. A contragosto dos pais e sob uma atmosfera densa e repleta de desavenças, gritos e desaforos, o jovem rapaz deixa a pequena e pacata cidade onde nascera, para cair no labirinto sinuoso, espelhado e traiçoeiro que é a vida.

Vindo de uma família simples que vivia da agricultura, Jorge cresceu rodeado de pés de café, milho, gado leiteiro, galinhas caipiras, galinhas da angola. Em certa ocasião seu pai, Pascoale, muito desenvolto e experiente com assuntos do campo, deu de criar cabras. As pobrezinhas pareciam vindas do céu. Todas sem exceção, brancas como nuvens, de olhos amarelados, como é comum desses animais. Cada uma delas, das cinco cabrinhas, carregava um sininho no pescoço, porque assim; soltas no pasto seriam facilmente identificadas pelo barulho. Cada movimento, perto ou distante, seria rastreado. Pascoale sabia mesmo das coisas... Homem forte apesar da idade, nascido no Brasil, mas filho de pai e mãe italianos, ele aprendera as artes do plantio desde cedo. Nunca renegou suas raízes e sempre fez cumprir a promessa de seu pai: “Fazer a vida no Brasil, plantando, colhendo... dando de comer a sua família sempre e no futuro; ver seus netos empunhando a mesma enxada que um dia ele, jovem, no vigor de suas forças, empunhou pela primeira vez”.  Mal sabia o velho homem que o futuro não seria exatamente assim. Pascoale, teimoso e obstinado, jurou no leito de morte do pai, que o sonho dele iria se realizar. Fez a promessa ao pé do ouvido do velho; palavras que este ouviu por último, certamente, e já não discernia mais o real significado. Como em toda história que se preza, essa promessa é fundamental para o desenrolar do drama que viveu Jorge.

Estático na porta de sua velha casa, Jorge se lembrava de toda sua vida até então. Como num flash-back, imagens de cor sépia, apagadas e modificadas pelo tempo, iam se desnudando em sua cabeça, como num filme. Lembrou-se então da briga que ele e o pai Pascoale tiveram um dia antes de sua partida. Havia ficado definido que Jorge tentaria uma outra sorte, diferente daquela sonhada pelo pai e o avô. Definição essa que trouxe a família muitos conflitos.

Pascoale era de origem simples, mas não pobre. O homem sabia como ganhar dinheiro e administrar as finanças do pequeno sitio, que então virara uma fazenda. Com uma imensa casa cede, um curral de médio porte para as vacas leiteiras, um pequeno galinheiro que comportava as galinhas caipiras; usadas antes de mais nada por seus ovos; cinco mil pés de café e kilômetros, a perder de vista, de um maravilhoso milharal, Pascoale ganhava muito bem a vida. Proporcionou o ensino fundamental e médio ao filho, entre outras coisas como viagens freqüentes a capital; sua familia podia ver do bom e do melhor. Filmes no cinema, lojas luxuosas, teatros, discos e toda sorte de eletrônicos. A cada dois meses a família deixava a roça e partia rumo a cidade grande. Sete dias de diversão e novidades. Coisas de encher os olhos e de dar água na boca. Do ponto de vista de Pascoale, Jorge tinha tudo e deveria dar continuidade ao que sua família construíra. Por isso a revolta e o coração ferido do pai, ao ver o filho apunhalá-lo pelas costas, desdenhar tudo o que o suor de suas mãos cansadas haviam erguido, trair suas raízes, seus princípios. Jorge abdicava do pai, da mãe e de todos os vinte e um anos que vivera até ali. Era inconcebível que um filho deixasse um pai nessa situação, pelo menos na velha Itália, esse erro não merece perdão.

Foram mais de quarenta minutos, Jorge se lembra bem. O pai chegou a ficar vermelho e com as veias do pescoço saltadas como se fosse ter um infarto ou coisa assim. Gritava em português, mas a grande maioria das palavras lhe escapava em Italiano. Levado pelo calor da hora o velho pula por sobre o filho, e espalmando-lhe a mão sobre a face, pede incessantemente que não vá, que não cometa esse erro. Uma mistura de fúria e súplica. O velho já sem forças se ajoelha, olha para Jorge, como se fosse a última vez e se despede, dalí mesmo, sem se levantar. A mãe, com os olhos inundados de lágrimas e um terço preso aos dedos, beija o filho na testa, benze o rapaz com o sinal da cruz e pede a Deus que tenha misericórdia e que olhe sempre pela felicidade de Jorge. O jovem levanta do chão a velha mala, compacta de tamanho médio, onde enfiara algumas mudas de roupa, meia dúzia de casacos e pertences pessoais; entre eles uma pequena imagem de São Judas Tadeu, seu santo protetor; e sai porta a fora. Tomado de sentimentos controversos, Jorge cai no choro à medida que atinge a escuridão da estrada. Soluçante e quase sem enxergar, em virtude das lágrimas que lhe saltavam dos olhos; ele se despede de tudo aquilo, dizendo a si mesmo que venceria, que voltaria vitorioso e que provaria ao pai o quanto estava certo.

Ainda estático a porta de sua velha casa, Jorge recobra a consciência e olha em volta. Depois de tocar a campainha da casa diversas vezes, sem escutar nenhum barulho sequer vindo de dentro da casa, ele bate palmas, uma, duas, três vezes. A casa parece estar vazia. Não há roupas estendidas no varal, nem sinal do velho pastor Brutus, todo negro com olhos cor de mel. Não é de se estranhar...Depois de dez anos, talvez o cão estivesse morto, já não era tão jovem assim quando Jorge se foi. Uma certa angústia toma conta do homem. Não é possível que seus pais tenham mudado sem dizer nada. Jorge não falou mais com o pai, só tinha notícias dele através da mãe, que passou todos esses anos se correspondendo com o filho. Já fazia alguns meses, é fato, que Jorge não recebia cartas da mãe. O que era de se estranhar...nem sequer os telefonemas que Jorge fez foram atendidos. Um sentimento de apreensão e quase pânico se instalam em seu coração... “Não é possível que eles estejam mortos...” pensa Jorge com o coração na garganta...e tentando se manter sob controle...notícia ruim corre rápido...ele teria sido avisado...mas como? A fazenda ficava longe da cidadezinha próxima, não se avizinhava com propriedade alguma e há 10 anos, Jorge não dava as caras por lá... Embarcando em uma viagem quase real, Jorge começa a se dar conta de tudo o que vivera até aqui.

“Dez anos longe de minha família, meu único e mais real elo com o mundo, com o meu passado. Meu pai e minha mãe, pessoas que me conhecem verdadeiramente, profundamente, como ninguém; nem meus amigos e nem todas as mulheres que tive, os amores que vivi; me conhecem assim. Amor incondicional, acima de todas as coisas, dos meus erros e dos meus acertos. Perdão que eu vim buscar. Feitos e sucessos que gostaria tanto de mostrar, de compartilhar. Meu Deus, traga meus pais de volta para mim, por um dia, um instante...que seja o suficiente para que eu diga o quanto os amo, e que nunca deixei de amá-los. Diga-lhes que estou pedindo perdão e que não quero morrer me sentindo assim, pequeno, mesquinho, fracassado.  Fracasso de não ter tido tempo, de não ter tido coragem e não ter tido discernimento...”

Nesse momento, de joelhos e aos prantos, olhos cerrados como que fazendo força para que seus pedidos se tornassem realidade, completamente tomado pelo sentimento prematuro de perda...única e exclusivamente por ter pensado na possibilidade de morte dos pais, Jorge sente um toque leve em seus ombros. Abre os olhos lentamente, enxugando o pranto e tentando se recompor dos momentos anteriores. Ergue-se ainda de costas para a tal mão que lhe tocou o ombro. Vira-se lentamente e vê o rosto do pai. Mais velho, com a pele mais curtida pelo sol, barba e bigode brancos assim como o pouco cabelo que o chapelão de couro deixava aparecer. Mais magro ou franzino não sabia ao certo. Logicamente não era mais aquele homem forte e jovial de dez anos atrás, mas era ele, em carne e osso, ali parado bem diante dele. Passaram-se alguns segundos até que os dois se olhassem e se reconhecessem, instintivamente, como pai e filho. Se agarraram num abraço apertado e longo, que deveria recuperar dez anos de saudades...

A Mãe de Jorge falecera há alguns meses, razão pela qual as cartas pararam de chegar e alguns telefonemas não terem sido atendidos. A notícia do falecimento nunca chegara a Jorge porque o pai, não sabendo da troca de correspondência, nunca teve certeza do paradeiro do filho. Tomado por um sentimento de raiva, tristeza e paralisia, Pascoale não havia mexido em uma peça de roupa sequer da esposa...dormia ainda no mesmo lado da cama, seguia ainda a mesma rotina que seguira há 35 anos...só que então, acompanhado da solidão silenciosa e profunda.

Ele tinha agora a companhia do filho, que viera de longe trazendo na bagagem dores e mágoas, que só os braços do pai curariam; esperanças e otimismo, que de muito serviriam em momento duro como esse. Jorge trazia nos olhos o mesmo brilho que o velho Pascoale um dia teve. Olhando para o pai, ele viu pedacinhos de si mesmo, aqui e ali, vindo a tona. Teve a certeza de que havia voltado para seu verdadeiro lar e que, dessa vez, seria para sempre.
Mari Mérola
Enviado por Mari Mérola em 25/09/2006
Reeditado em 26/09/2006
Código do texto: T248954
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Sobre a autora
Mari Mérola
São Paulo - São Paulo - Brasil
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