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A MINHA HISTÓRIA

Vivi numa pequena aldeia interior onde as pessoas para se deslocar aos centros de instrução tinham grandes dificuldades. As vias de comunicação não existiam e eu tinha uma enorme vontade de estudar, de ser útil.
- Mas como? –  interrogava-me constantemente.
Havia perdido o meu pai com quatro anos de idade, naquele grande incêndio  para salvar os animais que estavam na cabana. Aquela cena horrorosa que nunca mais esqueci, naquele monte sem comunicação a casa a arder... os bombeiros nem se falava da sua existência por ali, tão distante dos locais da cidade, onde havia sempre gente pronta  a socorrer e água canalisada com fartura . Era o pobre do meu avô velhinho a tirar baldes de água do poço e a minha mãe da cisterna, mas quando lá chegaram já as chamas tinham devorado todo o  rebanho e o meu pai morria agarrado aos animais que tanto adorava. Perdera tudo.
Com as economias que ainda restavam minha mãe deixou o monte e foi trabalhar numa cidade vizinha. Era uma mulher formosa, esbelta, decidida. Eu fiquei entregue aos cuidados da minha avó. Mais tarde fui para essa cidade e frequentei até à quarta classe a escola primária do local onde residia, numa casa modesta. Anos depois, consegui o magistério primário  no sonho  de ser professora. Todavia, quando me perguntavam o que eu gostaria de ser no futuro,  eu respondia:
                        - Eu quero ser bombeira! Talvez porque no meu cérebro infantil povoasse a ideia de ter perdido o meu pai,  naquela imensa fogueira,  incendiária cruel! Então desejava ser bombeira, porque entendia que assim podia salvar vidas humanas, “teres e haveres”. Mas naquele tempo as corporações de bombeiros, nem existiam na vila mais próxima, hoje cidade, com todas essas estruturas sociais de apoio.
               O tempo passou. Formei-me professora e regressei à terra onde nasci, hoje uma vila,  a pequena distância de uma grande cidade.
               As vagas não existiam ali, como era difícil a colocação em qualquer outro lugar, pela inexistência de concursos e de estabelecimentos de ensino.
               Comecei a exercer o voluntariado sem remuneração. Quantas crianças eu ensinei a ler, escrever e contar,  apenas no intuito de ajudar os outros. Minha mãe dizia-me sempre: “A quem Deus promete não falta”.
              Com muita luta e força de vontade comecei a frequentar uma corporação de bombeiros, onde se aprendia muitas coisas úteis, primeiros socorros e música. Foi uma boa escola de formação. Ali conheci um rapaz que abraçara a profissão de bombeiro, desde criança, pela mesma razão,  que eu sentira dentro de mim,  quando o queria ser também. Ele na sua carreira, tornou-se chefe da corporação, onde eu aprendi que o bombeiro é um irmão; Mais que um irmão tornou-se meu companheiro na vida. Casámos e comungamos do mesmo ideal que nos aproximou: ”faz dum amigo um teu irmão”.
Mais tarde, na minha profissão comecei a transmitir aos meus alunos que alguns também eram bombeiros voluntários, os conceitos presentes na solidariedade humana.
         Que tristeza eu sinto ao comparar a falta de cuidado daqueles que ainda provocam acidentes, com a ponta de um cigarro, por descuido ou por malvadez. Ser irmão e solidário com o seu povo,  são qualidades que nascem na alma. O bombeiro irmão é um bom exemplo a seguir.tudo isto. Mas ele que fora baleado na guerra enfrentou sempre a vida com a dignidade e nobreza da alma que torna os homens perfeitos. Resistiu a tudo, com a força do amor pelos seus e ensinou-os a preservar os valores da fé, do amor e a viver em paz.
            Como eu recordo o que ele nos contava dos tempos atrás vividos... e do seu destino de um homem do mar.
 Na esperança de melhores dias, emigrou para o estrangeiro, mas acometido por uma doença grave teve de regressar de novo a casa.
..........................................................................................Apesar das contrariedades da vida do mar, por vezes madrasta conseguiu salvar-se da doença que o apoquentara.  Foi um lutador e tentou fazer da vida um arco-íris de  paz e amor e aguardar com serenidade as voltas da vida – o nosso destino.


Maria José Fraqueza - Portugal
zezinha
Enviado por zezinha em 25/09/2006
Código do texto: T248984
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Sobre a autora
zezinha
Portugal, 80 anos
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