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DAQUI A 25 ANOS

Minha mãe me bateu bastante. Lembro-me de muitas vezes em que levei tapas para todo lado, nas pernas, nos braços, nas mãos. Ela vinha com tudo para cima de mim e mandava a mão onde acertasse. Apanhei em todos os cômodos da casa: no meu quarto, no banheiro, na sala, na cozinha. E ela não só batia, ela gritava. Conforme ia soltando a mão, falava alto, muito alto, reclamava do que eu havia feito, me cobrava... e batia.

Eu era um garoto solitário. Meus pais se separaram mal eu acabara de completar dois anos. Ficamos sós, eu e minha mãe. E ela, com a responsabilidade de me criar praticamente sozinha. Não me lembro bem, mas morávamos numa casa grande, de dois andares, e depois mudamos para uma menor, com quintal grande, onde passei bons momentos da minha infância, apesar de não ter amigos para brincar.

Talvez pela grande responsabilidade ou por temperamento mesmo, minha mãe estava sempre nervosa, tensa, em estado de alerta e invariavelmente impaciente. Qualquer motivo, por mais irrelevante que fosse, penso hoje, ela perdia a calma e partia para a confusão. Brigava, gritava e às vezes batia. Sei que ela sofria com isso, tenho certeza, porque em muitas dessas ocasiões eu a vi chorando no quintal depois da briga.

Minha mãe sempre me amou, como jamais amaria ninguém nesse mundo. Ela brigava comigo por medo. Não suportava me imaginar um adulto indigno, sem formação, sem educação, drogado, alcoolizado, ou com valores morais completamente deturpados. Por isso um simples quarto desarrumado era motivo para uma super bronca. “Disciplina é tudo”, pensava ela. Até hoje não sei dizer se ela estava certa ou não. Apenas entendo suas apreensões, porque ela tomou toda essa responsabilidade para si.

E eu vi como tudo isso foi difícil. Na maior parte da minha infância minha mãe esteve desempregada. Entre os meus quatro e nove anos, minha mãe deve ter trabalhado uns dois. No restante do tempo, prestava serviço para algum cliente, de onde tirava pouco, mas ia remendando para garantir as despesas do mês. Houve uma época que até pensei que as coisas fossem melhorar de vez. Ela conseguiu um emprego muito legal, lembro muito bem da felicidade dela. A gente só se via à noite, mas eu nem ligava, porque a via sempre feliz. Mas, o contrato acabou de repente, e novamente vi minha mãe chorando pelos cantos, desesperada...

Tudo isso só fez aumentar meu amor por ela. Nunca fui de muitos beijos e abraços com minha mãe. Tinha verdadeira adoração pelo meu pai e eram para ele todas as minhas melhores demonstrações de afeto. Mas nessa fase comecei a mudar. Percebi, conforme ia crescendo e entendendo a vida a minha volta, que os sacrifícios da minha mãe eram incomparáveis às brincadeiras e passeios que meu pai me proporcionava nos finais de semana. E amei minha mãe, amei muito. Passei a me despedir com beijos ao sair para a escola e quando voltava pulava nos braços dela. Ficava agarrado a ela vendo TV, sem nem coragem de me mexer, para não atrapalhar aquele momento de aconchego. Dizia que a amava toda hora, todo dia.


Hoje estou com 33 anos. Neste momento em que escrevo estou sentado na porta de um hospital. Escrevo para ela, em homenagem a ela, a quem sempre vi diante do computador “construindo textos”. A formação jornalística e a paixão pela literatura lhe favoreceram a escrita. Agora, sabendo valorizar toda a sua trajetória, reconheço-lhe também o talento. Nunca prestei muita atenção ao que ela produzia naquelas noites na pequena sala, mas sei que era meio visceral o que ela fazia ali. Só já crescido, adulto, é que comecei a ler com interesse o que ela escreveu ao longo da vida e chorei em cima de muitas páginas de crônicas, contos, poesias...

Ela está lá em cima, firme e forte como uma rocha. Aliás, sempre foi assim, uma fortaleza. Chorona, escandalosa, mas forte, segura. E é assim que ela está agora, no terceiro andar do hospital. Eu não agüentei ficar lá e desci. Prefiro esperar de longe. Ela está mais acostumada a essas coisas, embora tenha passado por isso uma só vez. Me expulsou sem a menor docilidade, como sempre, mas, também como sempre, posso entendê-la.

Minha mãe está vendo meu filho nascer. Ficou no meu lugar, no centro cirúrgico. Como meu pai, optei por sair ao ar, respirar fora do hospital enquanto meu filho vem ao mundo. O tio está na sala de espera. Ele também nunca saiu de perto de mim, nem da minha mãe. Está com ela desde que eu tinha três anos, pouco depois da separação dos meus pais. Engraçado... eles optaram por ser namorados e namoram até hoje! E ele é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Foi um pouco tarefa dele fazer da minha mãe o que ela é hoje, o que me dá maior tranqüilidade de cuidar da minha mulher e do meu filho.

E é por tudo isso que escrevo. Pela mãe, pelo tio, por meu garoto que está chegando aí. Há 25 anos vi minha mãe sentada no computador escrevendo, em forma de conto, o que poderia acontecer agora conosco. Fiquei rodopiando em volta dela, esperando acabar, pedindo para que ela lesse para mim. Bom, está aí um pouco desta história, que me orgulho dela, que vou contar para meu filho, que vou levar para sempre. Por amor à minha mãe.
Giovana Damaceno
Enviado por Giovana Damaceno em 28/09/2006
Código do texto: T251404

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Sobre a autora
Giovana Damaceno
Volta Redonda - Rio de Janeiro - Brasil, 47 anos
106 textos (7956 leituras)
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Giovana Damaceno