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Um dia de manhã!




É de manhã e dói-me a cabeça como nunca me doeu. Desbravo a estrada a conduzir pensamentos que por defeito nascem tortos. Pelo caminho deixo que as árvores me observem nas filas em que paro distante do outro veículo e meço uma medida de segurança que não pertence ao corpo mas à mente.
As árvores seguem-me mas não me lembro de nenhuma em especial, só sei que são árvores iguais às que tenho em ideias e quase iguais àquelas tu agora também imaginas.
Continuo com dores de cabeça e nem o verde dos semáforos me alivia o stress.
Entro mais adentro da estrada quando  à frente acordo na visão do corpo, um corpo deitado nos paralelos e cheio de sangue. Foi o meu corpo que o viu em primeiro lugar e  em segundo lugar a minha mente. Que me faz parar todos os pensamentos. E as minhas arvores também param, com o meu automóvel.
As pernas saltam fora do carro e levam o corpo para outro frio mais frio que o da chauffage ainda fria. Mas a mente é que as manda.
É na pressa de socorrer quem de mim precisa que a dor da minha cabeça corre comigo. Com curiosidade de  ver outra dor que não a minha. Queremos ver  uma dor  com sangue; algo que se possa imediatamente chamar dor. Enquanto isso, a dor que tem a minha mente suspeita que a dor da outra pessoa é maior do que a dela, mas não deixando, a dela, de ser dor  na mesma. Só não é igual à minha, mas a minha dor também é dor, lembra-me ao mesmo tempo o meu corpo de carne e ossos.
Na mão sacode-se o tilintar das chaves, a carteira não fala mas toca no joelho. Numa corrida de galgo e coelho, adianta-se às pernas e passa à frente do nariz. É quando a vejo. Todos vamos para junto da dor da senhora que, atropelada, está  deitada na cama de pedra dura, em cima de uma poça de sangue já morto.
- Que ninguém lhe toque! Falo mais alto que os barulhos de que me recordo.
Somos quatro: um homem que atropelou a mulher, a mulher atropelada, outra mulher, e eu. Mas as dores também olham para mim. Na verdade, sinto a minha dor quase caída por terra e, à dor da mulher, sinto-a intimidada, no sangue vermelho e depois mais escuro, quase negro. Que pára nas minhas mãos, molhando-as dolorosamente.
- Minha querida diga-me como se chama! - Pergunto à mulher da maior dor.
- mhmhmh mariiiiia zmzmzmzm - Balbucia ela.
- Minha querida Maria, fique quieta! - Digo-lhe eu, e quase que digo - também tu, dor, fica quieta. Porém, não o faço. Quando observo os outros seres, estes continuam brancos e mais mortos que as folhas das arvores que passam junto aos meus joelhos, quentes no sangue de uma outra dor.

Logo depois chega a polícia e a ambulância e a Maria e a sua dor vão-se embora, sem que falemos mais de como é a sua dor e como é a minha dor, e se sentimos as duas as mesmas perturbações, os mesmos sintomas, ou se, no fundo, as dores são todas diferentes, tal como as queixas, mas iguais no conhecimento comum. Através de ideias que cada um tem. Como quando pensamos nas árvores.




Ana Mª Costa




Ana Maria Costa
Enviado por Ana Maria Costa em 03/10/2006
Código do texto: T255182
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Sobre a autora
Ana Maria Costa
Portugal, 50 anos
152 textos (6923 leituras)
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Ana Maria Costa