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A venda do fusca azul claro - Final alternativo.

Estavam parados em frente a um prédio de um conjunto habitacional o jovem casal que queria vender o fusca azul claro e o casal que queria comprar o fusca azul claro. A conversa não variava muito, os que queriam comprar desejavam saber detalhes do carro: quantos donos ele já havia tido, se já havia batido alguma vez, se havia algum problema com ele, porque o jovem casal desejava vendê-lo, qual era o seu ano de fabricação e blá blá blá.

O jovem casal mais do que vender o fusca azul claro, já velhinho e desgastado com o tempo, queria se livrar dele. A única coisa que tinham era o carro e um bebê de uns 4 anos, visto que não tinham emprego, não tinham dinheiro e, tecnicamente, não tinham casa, pois moravam na casa dos pais da jovem menina. O fusquinha azul, tão útil nos passeios matinais de domingo, estava dando muitas despesas, sempre tinha alguma coisa que quebrava nele. Uma piada circulava pela família: “Esse carro tem problema de junta... Junta tudo e joga fora”.
 
Lógico que não jogariam o carro fora. Ele estava pode, batido, amassado, encardido, sujo... Mas era deles! O máximo a que se chegou foi tentar vendê-lo para um ferro-velho (seria isso o máximo ou o mínimo?), mas o dono do estabelecimento disse que não comprava porcarias... Então, aproveitando que já estavam por ali, compraram uma chapa de alumínio para servir de teto solar, pois o que estava sendo usado no fusca azul claro (uma espécie de piso para gaiolas de passarinho) tinha sido pego de volta pela mãe da menina, que comprara um papagaio na feira e precisaria do “artefato” de volta para usar na gaiola.

Voltando à conversa da venda do fusca azul, enquanto o jovem casal de vendedores fazia de tudo para valorizar o seu carrinho, o casal de compradores fazia exatamente o contrário. Tudo bem que o carro estava cheio de rachaduras, amassados, pedaços caindo, mas não precisava humilhar a ponto de chamar o pobrezinho de “lata-velha”. Ora, isso doía, afinal o jovem casal passou bons momentos ali.

Ali que seu lindo bebê fora concebido (tudo bem, o banco de trás de um fusca não é o ideal para um momento máximo de intimidade), foi também no fusca que a jovem menina fora levada para a igreja (tudo bem também que a cauda do seu vestido alugado ficou toda suja de graxa).

Hum, a negociação... De repente, não eram apenas quatro pessoas ali presentes a negociar. Vizinhos e transeuntes foram se agrupando, cada um dava seu palpite, cada um apontava mais um defeito do carro... E o jovem casal tentava contornar tudo, queriam de todo modo se desfazer do fusquinha e ganhar algum dinheiro, já estava difícil a situação de serem mantidos pelos pais da moça. Repentinamente, no meio da confusão, a jovem deixou de ouvir todo o burburinho à sua volta e só ouviu o que veio da boca de uma senhora: “lembra que eles capotaram com esse carro quando estavam indo para a maternidade? Nossa, quase morreram...também, com esse carro velho e com esse moleque irresponsável dirigindo”.

Para a moça, apenas parte disso era verdade. Realmente capotaram com o carro a caminho da maternidade, mas o seu jovem marido não era irresponsável. Para ela não importava o fato de ele ter ficado bebendo depois do futebol mesmo sabendo que ela estava em trabalho de parto. O amor dos dois continuava grande como nos primeiros dias de namoro. Ele ainda recitava poesias no ouvido dela, ela ainda ficava olhando todas as noites para as estrelas de plástico do teto do seu quarto pensando nele...

A negociação estava avançada. O casal comprador retirou-se a um cantinho para uma conversa em particular. Sorrisos iam de orelha a orelha no jovem casal de vendedores. De repente, o filhinho deles, aparece de mãos dadas com o avô. A mãe o pega no colo, pergunta se ele havia tomado café da manhã, o pai o afaga levemente. O casal de compradores se aproxima, o homem vem contando dinheiro. Perguntam se é possível um abatimento no preço final do “automóvel” (as aspas servem para demonstrar a ironia na voz da mulher ao se referir assim ao carro). Mesmo a contragosto, o jovem casal aceita e cede um pequeno abatimento. Iam se livrar daquela “lata-velha”!

Receberam o dinheiro, contaram e o colocaram no bolso. O casal de compradores entrou no carro com certa dificuldade, eram gordos, ligaram o carro também com dificuldade, a parte mecânica era uma porcaria, e foram se distanciando pouco a pouco. O filho do jovem casal não entendia direito o que acontecia e desabou a chorar apontando para o carro. Os pais fizeram o mesmo, mas sem apontar para o carro.

O choro dos dois crescia, inconscientemente movimentos de suas mãos apontavam para o carro. Cada momento dentro dele e cada momento proporcionado por ele era lembrado em pequenos flashes. Valia a pena deixar toda aquela linda história por uma merreca? O que ganharam em troca do fusquinha mal dava para comprar um liquidificador, um forninho elétrico e um fogo de duas bocas. Blé! Era o que vinha à cabeça deles. Resolveram agir com o coração, deixaram o bebê no chão, próximo ao portão do prédio, correram atrás do carro e rapidamente o alcançaram já que os inúmeros quebra-molas associados com a ruindade do motor do carro provocavam uma grande lentidão no azulzinho.

Bateram desesperadamente nas janelas do carro, sem entender direito o que se passava, o casal de gordos assustou-se e abriram as portas dele, já que as janelas estavam emperradas. Desfizeram o negócio ali no meio da rua mesmo, com vizinhos e transeuntes olhando atônitos para o que ocorria. Mandaram algumas pessoas que estavam buzinando exaustivamente irem para aquele lugar, entraram no carro e o levaram até a porta do prédio. O bebê agora sorria, transferindo sua felicidade para todos à volta.


Diogo Comba
Enviado por Diogo Comba em 04/10/2006
Reeditado em 19/04/2008
Código do texto: T256358

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Sobre o autor
Diogo Comba
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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