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Por hora é o que me basta

Por hora é o que me basta. Na varanda do meu apartamento, enquanto observo o quadro noturno da grande cidade se desenhar, penso o que seria de mim sem essa taça de vinho na mão, justo hoje que o calor noturno se faz algoz da minha tranqüilidade. Aqui do 11º andar, os sons de terra são muitos: carros, motos, ônibus, cachorros, até vozes eu ouço, e penso que a quarta capital do país é ainda uma província, com todos os seus rostos familiares, com amigos em comum, com todo o mesmo circuito batido de grupos e desagregados.
 
Hoje de manhã acordei, como de costume, com a minha carranca matinal, tomei banho, dentes, perfume, roupas, sapatos e café puro. Dirigi meu carro pelos igarapés de asfalto, e logo mais à frente vejo o corpo do Fabio estendido no chão com o crânio aberto. Atropelaram o miserável. Fabio foi meu vizinho durante alguns anos no bairro que morei durante a minha infância e adolescência. Foi viciado, adorava fumar maconha na beira da praia, e chegou a ser preso por causa disso. A ultima noticia que tive do Fabio era que tinha se convertido ou protestantismo, largado o vicio, casado e tido uma filha. Nunca uma tragédia é justa, lamentei. Nunca fomos nem colegas, no máximo vizinhos. Mundo cão esse.

Cheguei no escritório atrasado por causa do trânsito, a engenharia de tráfego daqui é carente de inteligência, apesar da grande tecnologia empregada. Mais café com açúcar para ligar o juízo e matar alguns leões. Preparo alguns papéis para uma apresentação logo mais as 10:00h, para uma potencial e especial cliente, uma emergente empresária que não sabe onde gastar seu dinheiro.  Tudo teria sido comum se a empresária não fosse uma ex-amante satisfeita. Surpresos os dois, nos cumprimentamos de forma alegremente saudosa e fomos aos negócios. E como era de se esperar a proposta foi aceita e o contrato fechado, ela ficou de me ligar para discutir um possível aditivo ao pacote contratado. Mundo pequeno o nosso.

A tarde se arrastava, sem clientes, com alguns leões abatidos, decidi me conceder uma folga. Passei na casa do Fabio onde todos aguardavam a chegada do corpo que seria velado por toda à noite. Cumprimentei o Sr. Emanuel, pai do morto, e consegui ver a dor estampada nos olhos daquele homem. Dizem que não existe dor maior que a perda de um filho, e naquela hora os olhos do Pai do Fabio pareciam ter toda a dor que o mundo já sentiu.

Nunca gostei de velórios, e acho que no fundo minha ida ali foi uma desculpa, queria ver meu bairro, ver os rostos do passado que até hoje ainda são presentes nas minhas lembranças, minha rua, minha Casa. Naquela casa na periferia vivi os melhores anos da minha vida, éramos pobres, muito nos faltou por muito tempo, mas nunca passamos fome e só o que nos fazia a falta era o dinheiro, por que amor tinha de sobra. Papai e Mamãe sempre nos supriram, eu e meus dois irmãos, com um ambiente familiar excepcional, apesar das dificuldades. Depois que fui embora daquele bairro, nunca consegui olhar pra minha casa e não sentir os olhos cheios d’água, era como se a qualquer momento fosse ver Papai saindo pela porta me chamando para sentar a mesa com ele, Mamãe e meus irmãos. Mundo saudoso esse meu.

Agora a varanda ficou pequena pra tanta coisa, é muito que nem cabe nesse apartamento imenso. Sou um homem feliz, um profissional realizado, um filho amado, mas alguma coisa maior me sustenta. Sinto as mãos nos meus ombros e recebo um beijo morno e lascivo da minha esposa. Nem vi quando chegou em casa, assim como não notei quando me tomou, quando me aprisionou perto dela. Deus como eu amo essa mulher! Ela sim é a melhor lembrança e o melhor momento da minha vida.
Hugo Eduardo
Enviado por Hugo Eduardo em 06/10/2006
Reeditado em 06/10/2006
Código do texto: T257723
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Sobre o autor
Hugo Eduardo
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
28 textos (1448 leituras)
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