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VENTO SUL

Ele chora. A pele é máscula, curtida pelo sol do meio-dia. Já brigou sem motivos, teve muitas mulheres, teve filhos. A infância foi de moleque de rua, sem grandes preocupações; começou a trabalhar com doze anos.
Não consegue segurar aquelas lágrimas ridículas que molham seu rosto impiedosamente. As quatro paredes são testemunhas dessa fragilidade masculina. Alguns pares de olhos o observam e parecem sofrer no mesmo nível. São quatro fêmeas caninas que compartilham às vezes a cama, muitas vezes a comida dividida em proporções comunistas.
O vermelho dos olhos lembra sangue e guerra de um tempo que se foi e jamais voltará. O tempo da segurança, do trabalho, do dinheiro, da família, do sucesso. O tempo é assustador, pois no momento que passa, não é mais capaz de retornar um olhar de piedade sobre os homens, e, muitas vezes retira até as lembranças que foram reais.
As lágrimas dão uma trégua e as lembranças fluem:
“Era fevereiro. Fui escalado para trabalhar no carnaval. O ano era de... não consigo precisar, só sei que a grande passarela era na Rua Quinze, e a multidão cantava e dançava na passagem e no intervalo de cada Escola de Samba. A alegria era muita, tantas mulheres lindas, muitas me cercavam, davam telefones, queriam no mínimo, uma aventura. Valeria a pena? Fone nos ouvidos, muitos dos assédios, nem registrei na memória, nem sei o porquê.
Era feliz, mas não tinha essa noção, voltava para casa cansado, tantos filhos pequenos, dependentes, carentes de um pai. Sozinho, tinha que lavar fraldas, preparar comida, arrumar a casa. Não tinha mais mulher. Dormia e já era hora de retornar ao trabalho.
Gostaria de pular esta vala profunda, mas não consigo. Um filho adolescente morto, tudo se apaga. Quantas condolências recebi, todas seriam de amigos? Nada do que eu pudesse fazer ou dizer modificaria esta situação. Existiria um motivo? Talvez, nunca saberei.
A música pode ser calmante e também foi meu caminho profissional. Muito trabalho para construir, para ajudar - parentes, sogros, cunhados, agregados. A cada aniversário, finais de ano, muita festa, muita bebida, muita alegria. Na maioria das vezes, briga, confusão e montanhas de louça para lavar. O tempo não me deu trégua, e não tive o aprendizado da solidão. Quando percebi, todos se foram, porém, fiquei com dívidas, tantas, que por momentos pensei em sair de cena. Onde estariam os amigos de outrora?
Então o valor de uma outra vida fez-me repensar meu viver. Seria a possibilidade de um novo amor? Quanto medo e quanta insegurança senti. Apego, nunca mais. O coração virou couraça, rocha que nada o fará amolecer.
Mas a simplicidade, a coragem e a persistência foram chegando de mansinho e se instalando, em minha casa, em meu íntimo, em meu corpo e minha alma, como fugir? Talvez para a Ilha dos Marinheiros e ficar o resto de meus dias, entre peixes, mar, marés, vento sul e os cães, que não falam, não mentem jamais, são fiéis até a morte e se contentam com migalhas.
Foi um reencontro do passado distante. Ela agora, mulher, também sofrida e só. Por que não tentar? Vislumbro algo muito bom, afinal quem disse que a vida é feita só de tragédias? Além disso, ela também gosta de animais, de mares e do vento sul, e eu não preciso mais me esconder. Então disse a ela: “Pra mim, tu tens muito valor!” Ela também chorou, naquele dia sombrio.
O sono é um antídoto contra a dor, mas às vezes a fórmula vem errada e os pesadelos também danificam a alma. O homem estaria acordado? É o telefone. Afinal, hoje é segunda ou domingo? Não importa ter que esperar, um fim de semana, um mês, uma eternidade, porque ela virá. Passo manso, olhar tranqüilo, aconchego para o corpo e para a alma. Quando os cães latirem, ela estará chegando, pois diante de um grande amor, o tempo encolhe-se e não é nada.
Ela também pediu: nem bebida, nem calmante, temos que ser fortes diante da vida, da dor e da solidão e até mesmo da morte. A garrafa ficará lacrada e a caixa com tarja preta voará para o lixo. Pode confiar, ela virá.
O coração dele acelera, pela fresta da janela ele espia e sente na pele que o vento é sul. Está ótimo para uma pescaria.
Rosa Dias
Enviado por Rosa Dias em 07/10/2006
Código do texto: T258590
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Sobre a autora
Rosa Dias
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil, 59 anos
39 textos (6677 leituras)
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Rosa Dias