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FALTA DE COMUNICAÇÃO

Na nossa pequena cidade, como em outras tantas espalhadas por esse imenso interiorzão, os pequenos comerciantes são muito crédulos e confiantes, pela amizade, conhecimento das familias, interesse em vender mais, e por isso permitem o "pendura". 

Na esquina de minha casa havia um bar desses como tantos outros da época. 

Como quase todos era composto de um balcão para bebidas, com tampo de pedra e sem esquecer, sobre o mesmo os imprescindíveis quatros potes : um com salsicha em vinagre, cebola em vinagre, batatinha em vinagre e puts, a famosa sardinha enrolada em cebola ( duas daquelas e uma pinga o bafo derrubava urubú). 

Um balcão compartimentado de vidros para os doces e balas; uma estufa com os croquetes da vida, coxinha ( ambas amanhecidas e fritas em óleo extremamente saturado, chegava a dar ânsia em vidro de sal de frutas ) , sanduiche de mortadela, sorvete de palito, uma prateleira com algumas garrafas e a indefectível mesa de bilhar, que no tempo as pessoas chamavam de "snooker", mas todo mundo só jogava por pontos, par ou impar ou mata-mata. Tinha, ainda, aos fundos o chamado reservado com duas mesas e seis cadeiras. 

A ponta dobalcão era chamada de "Cantinho dos mentirosos " , ali reuniam-se os pescadores, caçadores e outros contadores de bravatas.

Um casal era proprietário, mas geralmente quem atendia era a esposa. 

Mulher boa de conversa, como deve ser todo bom botequeiro, e ali, mais que no salão de barbeiro, sabia-se da vida do raimundo e de todo mundo. 

Na lousa o resultado do jogo do bicho, próximo jogo do time local. 

No balcão, estórias de pescador, quem jogou mal, quem ganhou a aposta no bilhar, quem andava com quem, quem casou e quem descasou, quem traía e quem era corneado. 

O que mais nos preocupava era que às vezes mesmo ficando uns dias sem frequentar o bar, e consequente, sem "dependurar" nada, a conta havia crescido do mesmo jeito. Foi aí que começamos a "assuntar" melhor.
Não deu outra! 

Mesmo voce não indo ao bar, ao passar à frente do mesmo e dizer "Bom dia", a senhora marcava uma pinga.
"Boa tarde", outra pinga. 

Inquirida quanto a isso, a mesma respondeu: 

- Voce passou... eu estava aqui, a pinga estava aqui... eu marquei,... se não bebeu foi porque voce não quis ! ! ! !
GDaun
Enviado por GDaun em 14/10/2006
Reeditado em 14/10/2006
Código do texto: T263919

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Sobre o autor
GDaun
Lupércio - São Paulo - Brasil, 72 anos
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