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A Moeda.

Na rua caminha um rapaz esbelto, alto, forte, com pompa pra cima de estudante de engenharia. Sozinho. Passa apressado pela faixa de trânsito. Olha as horas mecanicamente. Atraso especulado em vinte minutos.

- Ô tio, dá um trocado? Moleque de rua pobre, mistura de preto com branco com mulato. Brasileiro. Pobre perdido, limitado, ferrado.

“Não dá pra saber se ele se veste como um trapo ou se é ele o trapo” pensa o rapaz bem vestido, aprumado. Coloca a mão no bolso. Duas moedas de mesmo valor. Troco insignificante, desnecessário, ignorado. Tira uma e entrega ao moleque moribundo, sujo de graxa negra na testa.

- Valeu aê tio! sai correndo o moleque atrás de nova vítima.

“A outra eu dou ao próximo quando achar”. Pega ônibus lotado. Transpiração, desconforto, confusão, tudo junto numa orquestra em total desarmonia. Cabeça estourando. “Essa merda que não anda?”. Relógio correndo. “Não rola fazer um lanche antes”. Chega ao ponto. Desce do ônibus com baque no chão e cabeça girando.

- Dá um dinheiro pelo amor de Deus! Outro moleque fedido, fodido.

- Tenho não, foi mal!

Deixa o moleque para trás.”Atrasado”. Sai correndo entre pessoas de fisionomia desconhecida. Chega ao prédio de classe média hipócrita em que mora. 2º andar.

Abre a porta, vai ao quarto, escolhe roupa, esvazia os bolsos. “Maldita moeda, mas esmola não resolve nada”. Troca de roupa, escova os dentes, trato no cabelo desgrenhado de tanto levar sol.”Cadê os livros?”. Bagunça geral, busca desesperada. “Mas não dar também não resolve muita coisa”. Volta ao quarto. Moeda em cima do criado mudo. “Remorso por uma besteira dessa é uma droga mesmo”. Pega a moeda. Larga a moeda.”Cadê meu relógio?”. Olha a janela. “Dou a alguém quando voltar da aula”. Pega a moeda. Vai à janela. “Vamos pela sorte”.

Joga a moeda pela janela e sorri.
TMB
Enviado por TMB em 18/10/2006
Reeditado em 18/10/2006
Código do texto: T267405
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Sobre a autora
TMB
Maceió - Alagoas - Brasil, 25 anos
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