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Garimpeiros



Edivaldo alumia aqui. Minha lanterna pifô. Que hora é? Três e meia! Já é tarde, daqui a pouco o homem poca por aí. A noite passada foi mió. Achei um pedacinho de ouro bom e dez grama de ouro branco. Hoje foi muito ruim ainda não encontrei nada. Quanto já cavamos? Uma. Duas. Eu abri cinco. Um recorde. Cansativo é ter que voltar tampando tudo de novo. São dois trabalho. Mas isso é relativo, à vezes, se cava uma quadra inteira sem pocar com coisa alguma. Outro dia, se acha o danado solto na terra antes mesmo de cavar. Lá em Mina num lugarzim chamado Córgo da Prata ouro migrava era de morro pra morro. Ouro tava lá escondido na gema da terra, se cismava, saindo de um morro mudava pra outro, caindo do céu à noite feito estrela cadente. O povo só olhava. Pegar? Cê é doido. Nem na fantasia. Isso era na terras de Manelo Antonho. Gente ruim. Eles mesmos não cavava com medo de estragar a fazenda por causa dos bois. Ele me disse: esse alumiado de noite, estrela nada, estrela não cai assim não. É ouro. Quando eu era criança eu ficava horas garimpando com os olhos o ouro do céu. Já cheguei a ver seis facho de luz numa só noite que fincou na terra com a mesma velocidade que préa entra na toca. Depois vim pra cá. Esqueci. Isso viro mito. Mentira. Lá ninguém mais lembra disso, ri boas risadas quando a gente conta. Mas se eu contasse! O engraçado mesmo é aqui! Onde já viu um garimpo desses! No fundo tudo é mineral. O ruim é ter que trabalhar à noite, dormir de dia eu fico péssimo dói a lombada dos ombros. Você sente remorsos Edivaldo? Não sinta não. Isso aqui é terra.
Edivaldo a pá bateu em madeira. Nossa que caixão caro! É isso aí Edivaldo! Aqui tem pedra grande! Vem põe a luz aqui mais perto. Nossa que meu coração tá disparado. Será que a pedra é boa. Tá difícil de abrir a tampa. Me ajuda aqui. Força aquela parte com sua pá. Assim. Vai. Força. Se tiver coisa boa essa eu vou rachar com você. Isso! Abriu. Credo ainda tá apodrecendo. Pelo jeito era gente rica. Olha a cara dela. Isso em vida acho era um purgante, daquelas madame enjoada. Ah! Que merda, olha os dente, só amalga isso não vale nada! Os detrás, isso aqui parece prata. Ah! Deixa essa porcaria pra lá. Se cê quiser pega. Mas pega logo que já está amanhecendo. Tá dura? Puxa! Aperta o alicate que o dente esfarela! Vai home! Força! Tá duro? Deixa eu tentar. Ai véia do dente duro. Peraí vamo virar ela de lado pra ela não engolir e a gente bate com a cara do alicate no dente. Isso. Deixa que eu bato. Essa tá mais fedida que os outros. Lá vai, fica atento com a luz que se cair nessa podridão aí vai sumir. Edivaldo alumia aqui no canto do caixão. Que será isso? Edivaldo é um colar. A pedra é quase transparente. Está suja de carne podre. Edivaldo isso é coisa boa! Há-há isso é coisa boa! Olha deve ter umas duzentas gramas. Mas essa pedras assim não é medido por peso como o ouro: eles olham a forma, o tamanho, a cor... Será que isso não é diamante? Edivaldo! Lavamo a jéga! Vamobora que eu conheço um cara que vai me dizer certinho que pedra é essa. Vamo! Vamo Edivaldo! Que o zelador já tá quase começando o turno! Recolhe as coisas! Edivaldo eu sabia que esse dia ia chegar. Desde quando luto? Aqui, em Minas, nunca parei em casa. Sempre na luta brigando contra a fome. Mas eu tinha o sonho era de não brigar. Poder escolher o que quisesse comer. Isso já é luxo. Por uma vez na vida não ter que guardar dinheiro pra luz ou pra água e o que sobrar pra comida. Comprar o que quiser. E Edivaldo você me dá sorte garoto! Nós fechamo a cova? Nós deixamo aberta. Vamo voltar lá. Ninguém pode saber disso. Aí está ela. Quem será que foi essa mulher hein? Casada com quem?. Mãe de qual filho? Mas agora é difícil saber. Por que será que enterraram ela com essa pedra? Deixa pra lá! A sorte é nossa. Algumas vezes Deus faz é desfazendo. Sorte nossa. Pronto. Agora vamo indo Edivaldo. Edivaldo! Que alegria tô sentido aqui no peito. Vamo lá no cara que eu conheço, mas antes vamo comemorar. Pao, manteiga... Não, não, hoje é mortadela, e duas xícaras de leite quente. Ah! Edivaldo nessa vida nada pára é grão que morre é trigo que vive!
Sérgio Caldeira
Enviado por Sérgio Caldeira em 24/12/2010
Código do texto: T2689323

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Sobre o autor
Sérgio Caldeira
Itapecerica da Serra - São Paulo - Brasil
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