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Shhhhh!

      Dois tubos metálicos, majestosamente rodeados de emaranhados encaixes cilíndricos, confundiam o olhar mais indolente. O galpão das máquinas, percebido à distância devido à sombria arquitetura e isolada posição no terreno, era preenchido por um intolerável bafo abrasador. Tarcísio evitava aproximar-se, pois se sentia frágil o suficiente de onde estava.

      - Essas são as caldeiras responsáveis pela água quente em todo o hotel. Como novo chefe de manutenção, você deve monitorar seu correto funcionamento e comunicar-me imediatamente caso haja alguma alteração crítica. Bom, boa sorte!

      Tarcísio não respondeu. Intimidado pelas torres de calor, demorou segundos até perceber a sombra de seu superior hierárquico recolher-se em direção à saída. Encarava as caldeiras com expressão inimiga, temendo, além da responsabilidade óbvia, qualquer manifestação imprevisível dos inúmeros ponteiros que adereçavam o equipamento.

      Refém do azar, viveu a primeira alteração anormal naquele mesmo dia. Um estridente barulho, semelhante à balbúrdia das canecas dos presidiários esfolando celas de ferro, que assistira no filme da noite anterior, parafusava seus ouvidos. Temendo o retrato de incompetente por parte do gerente responsável, preferiu não comunicar o ocorrido. O tilintar cessou segundos depois.

      Os dias trabalhados seguiam e os ruídos também. Em algumas ocasiões eram harmoniosamente alternados entre as caldeiras. Em outras, ouvia-se um forte apito que se calava em seguida. Havia ainda o barulho perseguidor, ativado sem motivo racional quando Tarcísio esboçava aproximação. A reação era sempre a mesma: os batimentos lutavam contra a apertada caixa torácica, mãos nervosamente ensopadas, pálpebras inertes, respiração descoordenada e tímpanos atentos à tortura rítmica. Silêncio. O fim do ruído instigava o sorriso vencedor, acompanhado pelo rápido sinal da cruz e beijo no escapulário. Escravo do imprevisível, terminava seu turno com a certeza dos sintomas do amanhã. Não saberia precisar o horário do próximo martírio, apenas a certeza da ocorrência.

      O cenário em casa não se mostrava mais promissor. A esposa há tempos percebera a tristeza do marido e sua incapacidade de reagir. Tarcísio nem mesmo encenava outro personagem na farsa diária. Afundado no couro da poltrona, desmanchava o rosto exausto enquanto mantinha o controle remoto repousado sobre a barriga preguiçosa.

      Mas aquela noite seria diferente.

      Crianças na casa de amigos. Vestido curtinho colado ao corpo. Velas aromáticas remanescentes de uma antiga cesta de aniversário, perfume borrifado na cama e uma garrafa de pinga pela metade. Célia havia preparado tudo.

      Antes que Tarcísio cruzasse a porta, foi sugado pelo beiço apaixonado da esposa, namorada, parceira, amante... Ela o deixaria escolher o suor de sua personalidade. Toda a raiva presa no macho rasgava a camisa, fincava as unhas na espinha, unia o corpo em um só bloco escorregadio. Goles de cachaça, risadas safadas, Roberto Carlos cantando aos berros no rádio portátil. Urros de masculinidade esquecida...

      - Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc...

      - Que barulho é esse?

      - Não sei Tarcísio! Continua!

      - Nhéc, nhéc, nhéc, nhéc...

      - Continua como???  QUE BARULHO É ESSE???

      - Não sei! Deve ser a cama! Não pára!

      Tarcísio parou.

      Ao descansar o corpo suado na cama ouviu o último ruído das molas do colchão. Enxugou a transpiração do rosto e se distanciou dos braços carentes de Célia. Assim permaneceu até que o sono o levasse. Sem sexo, sem força, sem esperança.

      Apenas com seu ronco baixinho.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 21/10/2006
Código do texto: T270217

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Felipe Valério